sexta-feira, março 24, 2017

Um dia vou descobrir



[5509]

Estou em Luanda. Por três dias. Vim na TAAG por ser um voo diurno e eu gostar de chegar, “duchar”, dormir e no dia seguinte estar fresquinho e energizado para uma reunião importante hoje de manhã.

No avião fui surpreendido com uma indicação de “on flight wi-fi”. Mandei algumas mensagens que deram “erro”. Desisti. Liguei um filme… sem som. Não tinha legendas, Chamei uma assistente que me pediu desculpa mas aquele lote de auriculares tinha os “pins” colocados ao contrário. Perguntei porque é que os tinham então distribuído. Ela riu. Olhei para o filme, como não tinha som nem legendas, escolhi um que já tinha visto e que serviu para adormecer. Aterro em Luanda às 19:00 com 29 graus. Chego a um hotel de 4 estrelas. Entrego o voucher… não tinham reserva. Mas deram-me o quarto e que na manhã seguinte iam “esclarecer”. Agradeci e a menina diz-me: vou levá-lo ao quarto. Olhei a “piquena” de soslaio… e embatuquei um bocadinho. E gracejei… olhe, eu já estive neste hotel, sei onde é o quarto. Ela diz: - problema é que não temos cartão-chave, só amanhã, por isso eu tenho que ir contigo para usar o cartão-mestre. Lá vim com a moça e ainda pensei, querem ver que ainda se oferecem para me levar a bagagem? Não se ofereceram. Entrámos no quarto… ela acende a luz, mas a luz não veio. Não veio. Ela diz para eu desculpar e que esperasse um pouco, devia ser do quarto desta secção e que ia à recepção tratar do problema. Estirei-me na cama, com as costas a escorrer suor e eu a pensar por que carga de água é que ainda acho graça a estas coisas… Cerca de meia hora depois chega um homem e repõe a luz. Em 10 segundos. Mexeu não sei aonde e a luz veio. Encantado da vida, liguei o ar condicionado, desfiz a mala e fui jantar, não fosse a sala fechar. Volto ao quarto a antecipar o friozinho do ar condicionado do A/C e a listar umas quantas coisas que tinha de preparar para a reunião da manhã seguinte. Entro no quarto e vejo que a temperatura dava para cozer um pão-de-ló… Telefono à D. Estela e digo que tenho luz mas o ar condicionado estava totalmente “descondicionado” e soprava calor. A D. Estela faz uma pausa e diz: - o melhor é mudar de quarto. Isto tem um problema. Meia hora depois de ter reposto a roupa na maleta sigo para outro quarto. Pela trela da D. Estela porque os cartões – chaves só amanhã. Entro no quarto e corro para o controle do ar condicionado. Ligou e fez frio, A D. Estela diz-me: - está a ver, aquela luz verde é sinal que está a fazer frio, no outro quarto o ar condicionado não estava a fazer a luz verde. Olhei para ela… e não consegui dizer nada. A D. Estela foi embora. Desfiz a mala, fruí (enquanto pude) o ar gélido dos 16 g do quarto, que era a graduação que não mudava, por muito que martelássemos o controle, tomei um duche pecaminoso de prazer e estiquei-me na cama. Ligo a televisão. Nada. Carrego no botão do ON/OFF e… nada. Ligo o 9 para a recepção. D. Esteeeeela, a televisão não dá. E ela, acabada de rir com alguma colega diz: Ah! Olha, deve ser pilhas. E eu digo… mas eu não tenho pilhas. Pois é… já vou aí. Veio. Trouxe pilhas. Acende o televisor. Contentinho como uma criança a quem se dá um brinquedo, tentei mudar da estação local para outra. Nada. D. Esteeeeela, não vá embora, isto não muda de canal. Ela, que estava já à porta, volta para trás. Abana o controle bate com ele, com violência, na palma da mão e aquilo “salta” para a RTP Internacional. Eu digo: bata lá com o controle e procure a SIC Notícias ou a TVI 24. E a D. Estela foi dando bordoadas no controle, diz-me que a SIC estava proibida e ao fim de um verdadeiro “arraial de porrada” aparece a TVI24. D. Esteeeeeela. Alto, Fica aí. E ela ficou.

Digo à D. Estela que este é um hotel de quatro estrelas mas que estava a ficar muito mal. TRÊS, diz ela orgulhosamente. Era quatro mas fomos desqualificados, agora somos só três.

Atenção aos incautos que conhecem Luanda. O Hotel é o “Vila Alice”. A D. Estela é simpática, mas os percalços até tomarmos banho e dormirmos são muitos E as refeições são medíocres e não digo o preço por pudor.

Pela minha parte, estiquei-me finalmente na cama, com o ar frio e com TVI24 para o resto da noite (imagine-se a minha penitência, ter apanhado a D. Constança descobrir um defeito de PPC de cada vez que cri[gostava]ticava alguma medida da Gerinconça). Adormeci na paz do Senhor e não precisei mais da D. Estela. Até hoje de manhã, quando ela vai ter comigo à sala do pequeno-almoço e me diz que afinal não tinha reserva. Liguei para Lisboa, comuniquei à Agência com que normalmente trabalho (devo acrescentar que com permanente satisfação, competência, simpatia e contagiante energia...) e acho que a coisa está resolvida.

A grande questão. O que será preciso para eu começar a estar farto de Angola? Porque será que todos estes episódios se combinam num enredo que fazem com que eu venha a Angola sempre com esta estranha sensação de prazer e desfrute, ainda que mesclado com picos de irritação que ameaçam, aqui e ali, uma fatal apoplexia? Há-de haver uma razão, com certeza. Um dia vou descobrir.

Nota: Escrevi esta nota hoje de manhã. Porque a internet está com soluços desde que cheguei, só agora consegui postá-la.


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terça-feira, julho 07, 2015

Depois dizem que a culpa é dos angolanos...


Quando chove

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Hoje conheci uma ponte que ganhou honras de nome próprio em Luanda – a Ponte Molhada. E porquê? Porque a ponte foi feita (e refeita) uma meia dúzia de vezes. Com sol, o rio passa por baixo. Quando chove o rio passa por cima. E molha a ponte. E o «camundongo», realista, aceita com resignação a engenharia civil de uma empresa de obras públicas (não, não é portuguesa) que ainda não conseguiu atinar com «a distância entre um ponto do espaço e o plano horizontal de projecção», vulgo cota (ou quota, BR), uma coisa que se aprende em geometria descritiva nos primeiros anos do secundário. E daí a adoptar a designação de Ponte Molhada com a mesma lógica com que nós chamamos Cabo Raso ao Cabo Raso foi um passo.

Hoje passei na Ponte Molhada, ou melhor, não passei… porque a empresa de engenharia está, de novo, a fazer um novo pavimento. Segundo o motorista que me transportava, com a mesma cota do anterior.



Quando faz sol

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sábado, agosto 09, 2014

O nosso ADN por terras do Cuanza-Sul


Igreja do Waku-Kungo


Igreja de Santa Comba Dão


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Há muito pouco tempo estive no Waku-Kungo que é o nome actual de uma pequena cidade angolana que dava pelo nome de Cela no período colonial, ainda que o regime colonial se esforçasse por lhe chamar Santa Comba. De resto, como se esforçava por chamar Robert Williams à Caála, Mariano Machado à Ganda, Luso a Luena, Henrique de Carvalho ao Dundo ou Carmona ao Uíge. A verdade é que mesmo no regine colonial toda a gente se referia a esses locais pelos etnónimos, ninguém dizia que ia a Robert Williams ou, muito menos, passar o fim-de-semana a Mariano Machado.

Já em relação à Cela/Waku-Kungo nunca cheguei a saber as verdadeiras razões para alterarem o nome de Cela para Waku, mas existirão com certeza.

Mas voltando ao tema. Fiz questão de ir ver a igreja do Waku. Eu sabia que era uma réplica da igreja de Santa Comba Dão. Fiquei muito admirado por ter falado com muitas pessoas e ninguém sabia que a igreja era uma réplica da igreja de Santa Comba. E não só. Parte do lajedo teria sido mesmo transportado de Portugal para a Cela.

Independentemente da virtude do gesto, a verdade é que a igreja está lá e, como se pode ver pelas fotos, são gémeas. No Waku, não encontrei ninguém que soubesse. Provavelmente em Santa Comba Dão também muito poucos saberão. Que sirva este modesto post para que se saiba para o bem e para o mal, que há lajes de Santa Comba no Waku e a igreja é uma marca indelével da nossa presença pelos ermos do Kwanza-Sul. E que os angolanos, muito apropriadamente, a respeitaram.

Só falta dizer que a igreja está erigida no topo de um morro que dá pelo nome de Senhora do Monte (É incrível a quantidade de locais em Angola que dão pelo nome de Senhora do Monte, assim de repente, lembro-me da Caála, do Lubango, etc.) e proporciona um panorama admirável por uma das mais belas regiões angolanas. Vasta planície recortada por rios e dezenas de maciços rochosos, enormes, de muitas centenas de metros de altura. Se há paraíso, ali deve ser uma das entradas.

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segunda-feira, julho 14, 2014

Finalmente, a descoberta


[5148]

Após um programa aturado de investigação descobriu-se, enfim, a fonte inspiracional de Cutileiro quando ele nos brindou com o «pirilau» revolucionário, internacionalista e pós-moderno, esteticamente depositado e convenientemente erecto no topo do Eduardo VII.

Sim, eu sei, admito que as Pedras Negras sejam bem mais naturais e com um cunho impressionista que jamais Cutileiro poderia recriar, mas convenhamos que não se pode ter tudo. Se o Pungo-Andongo nos deu a expressão do engenho incomparável da natureza por que carga de água Cutileiro não haveria de nos dar uma réplica pretensamennte condigna na Freguesia de Santo António do Concelho de Lisboa?

Há diferenças de pormenor, de estilo, reconheço, mas cada um sabe com que linhas se coze.


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sexta-feira, dezembro 06, 2013

Elogio da carica



[5040]

Não, não é a tampinha da cerveja. Refiro-me, nem mais nem menos, à papaia, ao mamão, uma fruta tropical a que se decidiu dar estes dois nomes em função da sensualidade bruta das gentes angolanas (África, terra bruta, que até à papaia lhe chamam de fruta…) que por razões de morfismo erótico de uma variedade de papaia mais… hum… parecida com… hum…um redondo e atraente seio feminino resolveram chamar de mamão. Parece que este termo derivou para o Brasil onde, de resto, medrou uma militante ortodoxia em relação ao facto de papaia e mamão serem diferentes. Não são. Apesar de uma diferente morfologia, a fruta é a mesma (literalmente), tal como se comparássemos duas mulheres, uma magra, outra gorda, ou uma oriental e outra ocidental, uma esquimó ou uma filha da Papua. O mamão e a papaia são uma caricácea, do género carica, e as variedades é que mudam.

Isto a propósito de eu ter passado uns dias em Luanda, onde degustei o mais delicioso mamão angolano. Na minha opinião, claro, que eu nestas coisas de mamões sou muito democrata e flexível e aceito a militância de gentes oriundas do Huambo, de Benguela ou do Bié que se aqui estivessem neste momento me esconjurariam, defendendo a sua dama (entenda-se, defendendo o seu mamão) e reclamando a primazia dos seus conterrâneo mamões.

É curioso, porque a primeira vez que comi mamão, tinha eu uns oito anitos, por aí, a «coisa» me soube e cheirou a qualquer coisa esquisita, entre um beijinho de uma tia com hálito de quem parecia nunca ter lavado os dentes até aos 90 anos que tinha, ou uma molécula que dá pelo nome de tiocolquicosido, uma coisa de gosto horrível com um nome estranhíssimo e que nós passamos a conhecer quando, com o avanço dos anos, começamos a ranger das dobradiças. Mas é a verdade. A coisa sabia mal e hoje questiono-me como era isso possível, já que me habituei a deliciar com uma sumarenta, macia e doce fatia de mamão de sabor absolutamente sui-generis. Não há nada que substitua, em vantagem, uma fatia de mamão para iniciar um tropical matabicho. E, já agora, mamão de Luanda. Por acaso, nesta minha passagem por Angola, comi mamão no Huambo, em Benguela e em Luanda. Veredicto: Mamão de Luanda, sempre.

Hoje deixo este país, em direcção a outras latitudes e longitudes, aquelas coisas que inventámos a partir do equador e de Greenwich (que os ingleses nestas coisas, e desde que decidiram guiar pela esquerda, acharam que eles é que deviam mandar nas longitudes), não fosse isso e não saberíamos bem por onde andamos…). E por onde vou, de uma coisa tenho a certeza. Por muitos mamões que coma nenhum deles será como este que acabei de, uma vez mais, comer ao pequeno-almoço. O de Luanda.

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terça-feira, junho 11, 2013

Uma questão de dignidade


[4913]

Desde Abril deste ano que esta bandeira monumento flutua no topo da fortaleza de Luanda.

Pesem os vários aleijões de que padeça ainda a democracia neste país,  não deixa de ser confortante perceber o sentido de dignidade e simbologia que os angolanos prezam e de que este mastro e esta bandeira são um vivo exemplo.

Para um cidadão que se lembra ainda da cerimónia (!!!) pífia, decadente e vergonhosa que constituiu, há quase trinta e oito anos, o arrear da bandeira portuguesa, neste mesmo local, depois de cerca de quatrocentos anos de história de que nada temos que nos envergonhar, não há senão que manter em contenção um triste sentimento de penúria. Tanto mais quanto a simbologia em Portugal se vai convertendo cada vez mais num punhado de arruaceiros que correm o país a cantar a «Grândola» e a insultar os representantes das nossas instituições. Ou a caracterizar a toponímia de Lisboa com avenidas com o nome de Cunhal.
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quarta-feira, maio 23, 2012

Uma dívida paga em grande estilo

[4639]

Corria o ano de 1972. E um jovem de vinte e poucos anos fazia um brilharete no circuito da Restinga do Lobito, obtendo um excelente 3º lugar na prova de Grupo 1-Iniciados, uma prova organizada pela Escuderia «Tuku-Tuku». Essa classificação deu direito a taça e um prémio pecuniário de 500$00. Recebida a taça, nunca o dinheiro chegou ao destino, apesar das várias cartas reclamando o pagamento. O jovem era eu e o carro era este.

Em 2012, o mesmo jovem, ocasionalmente em Benguela, recordava o facto com saudade, junto de um grupo de pessoas entusiastas do automobilismo. Contado o episódio, um dos presentes do grupo, um oficial general de grande presença, refinado sentido de humor e esfuziante alegria, levantou-se, pôs-me a mão no ombro e diz-me:

- Meu amigo, sou o actual presidente do «Tuku-Tuku». Nunca você poderá dizer que o Tuku-Tuku lhe ficou a dever alguma coisa.

Dito isto entregou-me uma nota de AKW2.000 (US$20) e fez questão que a guardasse.

Não só a guardei como a fotografei, com a promessa de que jamais a gastarei. Há coisas que têm um valor simbólico muito para além do seu valor intrínseco. Ao receber a nota, pareceu-me rever cada curva do circuito, uma temerária e competente ultrapassagem que consegui efectuar no fim da recta principal a um «Ford Capri 2600» e uma quase saída de pista na rotunda Norte. Emoções acrescidas pela sensação gratificante de ter conhecido o actual presidente de uma conhecida escuderia de desportos motorizados que eu não sabia que ainda existia e que não hesitou em pagar um dívida de quase 40 anos, honrando o nome do clube e concedendo um momento de elevado espírito de confraternização ao momento.

Muitas felicidades para o Tuku-Tuku, é o registo que aqui deixo, na expressão genuína da minha vontade.
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terça-feira, setembro 13, 2011

Eu bem dizia...



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sexta-feira, agosto 26, 2011

As Pedras do Alemão (Post dedicado)




Pedras do Alemão - Huambo, Angola. De notar a enorme fenda de cima a baixo


[4396]

Sempre me intrigou a inverosimilhança de algumas lendas. Talvez a improbabilidade das histórias as guindem, por isso mesmo, ao estatuto lendário.

Mas há uma lenda em Angola que me fascinou particularmente quando um dia, parando junto a um maciço granítico a que se dava o nome de Pedras do Alemão, a cerca de 20 quilómetros da cidade do Huambo, na estrada que levava à Vila Nova, Bela Vista (Catchiungo), Chinguar e Silva Porto (Kuito), indaguei das razões do seu nome. Eu passava todas as semanas junto dessas rochas a caminho de Silva Porto e um dia parei para fotografá-las. Uma mulher capinava a lavra de milho à volta de casa, com uma eficiência notável já que, ao mesmo tempo que capinava, falava com um cigarro aceso na boca e mantinha um bebé às costas atado por um pano e, questionada, disse-me sem hesitação, em «portumbundês»:

- Ali (apontando as pedras) tinha um aremão. Mas era bránco. E o aremão tinha uma mulher que vivia ali mesmo. Mas ela era preto. Um dia o aremão chegou na casa dele e incuntrou a mulher dele que estava com outro homem. Mas o outro homem que era preto. Então o aremão subiu nas pedra e disse. Não pode matar o outro homem nem pode matar a minha mulher porque Deus castiga. Depois o aremão bránco atirou ele das pedras para baixo e môreu.

Esta história (a mulher que capinava a explicar-me a origem da lenda) é verdadeira. Perde um pouco o sabor pela ausência da sonoridade que a enriqueceria bastante. Mas foi o que ela me contou enquanto raspava o capim, falava com o cigarro na boca e sacolejava o bebé às costas.

Mais tarde falei com um jornalista do jornal «O Planalto» (sim, Nova Lisboa tinha um jornal) que me confirmou o esqueleto da lenda. Achei inverosímil que um alemão vivesse com uma angolana mas, mesmo que vivesse, achei pouco crível que ele se chateasse por encontrá-la com outro homem. Sendo que o outro homem era negro, até admito que o alemão vagamente se irritasse e, eventualmente, o esturricasse no forno do pão. Agora que lhe perdoasse, mesmo que para não cair em pecado mortal e, ainda por cima, se atirasse ele próprio das pedras abaixo é que, lá está, me soa a inverosímil. Mas se calhar por isso é que nasceu a lenda. E que as pedras se chamavam (e chamam) Pedras do Alemão, chamavam.

Nota: As Pedras do Alemão eram frequentemente confundidas com as Pedras do Kandumbu, um maciço granítico que também apresentava profundas rachas e fendas semelhantes às das Pedras do Alemão, muito perto e a caminho da Chicala. Kandumbu era, de resto, o nome de uma conhecida «casa de alterne» de Nova Lisboa, mas desconheço se o nome da «boite» terá nascido de alguma analogia com as características das pedras, mas isto sou eu já a dar rédea à minha dirty mind…
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quarta-feira, agosto 17, 2011

hoje está-me a dar para aqui. Para ali. Para lá... para África



[4388]

Se me pedissem para mencionar duas belezas superlativas de Angola e de Moçambique, diria que Moçambique tem o espectáculo único dos fundos do mar cobertos de fauna e flora que lhes conferem um cenário onírico e que não é possível sequer imaginá-los antes de serem vistos. E que tem as praias orladas de vegetação até à beirinha do mar, muitas vezes com a copa das árvores beijando a espuma das ondas ou disseminando-se em extensos mangais. E os grandes rios. E que Angola tem a magia da diversidade onde cabem o deserto do Namibe, a floresta equatorial do Maiombe, os planaltos das anharas e bissapas do Huambo, Bié e Moxico, cenários de fazer parar a respiração como a Leba, a fenda da Tundavala, as quedas do Duque, o estuário do Quanza, a irrequietude do Queve e… isso, a música. A música angolana é superlativa (acho que já é a segunda vez que emprego este termo no post) e eu acho que, injustamente, as pessoas não se apercebem disso. Gostam, mas acham que faz parte do cardápio, tão habituadas estão às coisas boas angolanas.

Este Muxima do Waldemar Bastos (que eu confesso conhecia apenas na versão do Ouro Negro) é um hino à melodia, aos céus de fogo angolanos, à nostalgia das sombras e das silhuetas, às neblinas e à mais pura das sensibilidades do poeta que o angolano muitas vezes não sabe que é. Este Muxima serve de fundo a uma galeria de cerca de cinco minutos de slides lindíssimos com algumas das imagens de marca angolanas. Ainda assim uma muito pequena parcela das belezas daquele fabuloso território.
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terça-feira, julho 12, 2011

…acácias rubras, salpicando de sangue as avenidas, longas e floridas…



[4349]

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...

- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
Mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim! ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconsequente...

Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, a 9.6.1930. Faleceu em Cambambe, Angola, a 30.1.1962. Porque é que se fala tão pouco da vida e da poesia desta mulher?

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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

O sortilégio da mulher angolana



[4050]

De muitas mulheres que conheci em vários países africanos, sempre elegi a mulher angolana como uma das mais bonitas. E não há necessidade, sequer, de ir buscar uma mulata espaventosa na capa de um calendário ou a beber uma «Eka» com uma T- Shirt molhada. Por vezes, a beleza natural de uma vendedeira de um mercado algures em Benguela ilustra bem a minha convicção de que a mulher angolana é genuinamente bonita. Mesmo na pose desprendida e não ensaiada patente nesta foto que roubei ao Pedro Pimentel, um amigo que, cansado da mesquinhez pequenina em que este país mergulhou recentemente, pegou numas jeans, numa T-Shirt e na mulher e foi trabalhar para Angola.

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sábado, dezembro 04, 2010

E o prédio ainda é azul...


Clicar na foto para ver maior


[3981]

Uma vez, mal tinha passado a barreira dos vinte anos, conheci uma rapariga bonita e casei. Estava ainda na tropa mas já tinha acabado a zona de intervenção e achei que podia muito bem casar sem grandes atribulações. Ou melhor… não achei coisa nenhuma. Casei, «prontos». Poucos dias antes da cerimónia, uma coisa bonita com avionete a lançar papelinhos e tudo, lembrei-me que «quem casa quer casa». Vai daí arranjei um apartamento ao cimo de uma avenida da antiga Nova Lisboa, hoje Huambo, a avenida 5 de Outubro.

Era um T3 muito bonito, arejado e com uma vista arejada para as traseiras e num local privilegiado da cidade. E assim foi, ali me mantive até me nascer um filho e só mudei quando saí da tropa e o Estado português achou que eu fazia uma falta imensa no Uíje, para onde me mandaram instalar colonos vindos de Portugal.

Hoje casualmente, abri o Angolabela … e deparei com esta foto. É uma foto de 2010, mas está tudo como era dantes. Lá está o apartamento, o 1º andar do prédio da esquina, ainda azul, como já no meu tempo era e até a estação de serviço ao lado lá está e em funcionamento. Só não deverá ser já do senhor Esperança que tinha uma «chitaca» perto do Sacaála, a caminho do Sambo e era lá que eu mandava lavar e mudar o óleo de um reluzente Autobianchi que eu tinha na altura.

A Blogosfera tem destas coisas. Uma pessoa levanta-se, faz um café, abre um blogue e tropeça na sua primeira casa de família constituída.

Depois desta tive muitas outras casas. E noutros países também, Mas isso não cabe aqui neste post.

Adenda: Há poucos meses estive em Angola e pela primeira vez de várias vezes que fui a Angola depois da independência, fui ao Huambo por estrada. Passei aqui e vi o apartamento tal como aparece na foto acima que aliás é de 2010. E tenho de referir o facto de a cidade estar lindíssima e surpreendentemente reabilitada da destruição da guerra.

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terça-feira, novembro 30, 2010

Post dedicado


[3979]



Quando te disse que era da terra selvagem do vento azul e das praias morenas...

Do arco-íris das mil cores, do sol com fruta madura e das madrugadas serenas...

Das cubatas e musseques, das palmeiras com dendém,

Das picadas com poeira, da mandioca e fuba também...

Das mangas e fruta pinha, do vermelho do café,

Dos maboques e tamarindos, dos cocos, do ai u'é...

Das praças no chão estendidas com missangas de mil cores,

Os panos do Congo e os kimonos, os aromas, os odores...

Os chinelos no chão quente, do andar descontraído,

Da cerveja ao fim da tarde, com o sol adormecido...

Dos merengues e do batuque, dos muxiques e dos mupungos,

Dos embondeiros e das gajajas, da macanha e dos maiungos...

Da cana doce e do mamão, da papaia e do cajú...

Tu sorriste e sussurraste...

- Sou da mesma terra que tu


Do livro «Beijo sem nome» de Ana Paula Lavado
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sexta-feira, setembro 24, 2010

O pessoal anda distraído...

[3909]

... ou ocupado a reportar a viagem de metro do nosso primeiro. Dá-me ideia que os nossos jornalistas não andam a fazer os TPC. Ou saiu por aí alguma notícia e o distraído sou eu?
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quinta-feira, abril 29, 2010

Está resolvido

[3746]

Parece que Angola devia € 500.000.000 a empresas portuguesas de construção e obras públicas. Portanto, Portugal dá (não é emprestar, é dar) mil milhões e uns trocos e Angola paga a Portugal. Eu, que NÃO percebo imenso destas coisas de finança, acho que percebo, pelo menos, português. E isto é o que vem explícito, sem tirar nem pôr, na Bloomberg. Pelo caminho há mais umas linhas de crédito e assim para não atrapalhar a coisa.

Há centenas ou milhares de pequenas empresas portuguesas que, neste momento, têm os seus fornecimentos parados ou intermitentes por via das dificuldades de obtenção de instrumentos bancários. Não têm é gente a cantar o “only you” no conselho de administração. Na parte que me toca vou começar a ensaiar uns karaoke ali para os lados de Alcântara a ver se “abincho” alguma coisa. “Hadem” ver se não começo. Para que nós, os mais pequenos, “póssamos” receber algum também. E o “hadem” e o “póssamos” não são inocentes, tenho a certeza que “ajudarão-nos” alguma coisa!

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terça-feira, março 09, 2010

Sabor de Maboque



clicar na segunda imagem para ver melhor


[3686]

A Dulce escreveu um belo livro. É uma narrativa serena, simples, na primeira pessoa e com o mesmo espírito dos dezasseis anos da altura, de um tempo de que a maioria dos portugueses não tem um conhecimento adequado.

A Dulce não recorre nunca a clichés de política, saudosismos ou partidarismo, deixa-se levar com a simplicidade que lhe enforma a alma pelos acontecimentos que a enovelam no pós 25 de Abril em Angola, consegue mesmo romanceá-los numa história de amor de adolescente e culmina num dos episódios mais dramáticos, analisados hoje à distância de trinta e seis anos, qual fosse o de estar num aeroporto à espera de um avião que a levasse… para onde o avião fosse. Brasil, Portugal ou África do Sul.

O livro não encerra ressentimentos, ressabiamentos, nem ressuma ódios, porventura legitimáveis pelo desprezo e desrespeito que um grupo de gente no poder em Portugal atribuiu aos “incómodos retornados”. O livro é tão singelo como a autora, e limita-se à narrativa fluida e fiel de um período muito curto mas muito importante para muitos que, como a Dulce, aguardaram aviões sem conhecer o destino final. Não acusa, não se zanga, não odeia, tão-somente conta a história de uma adolescente nascida e criada em Angola e apanhada no torvelinho dos acontecimentos.

Aconteceu à Dulce ir para o Brasil. Por lá se fixou, por lá se enraizou e lá se estabeleceu, constituindo família, terminando a sua licenciatura, trabalhando, sem precisar de “jobs for the boys” a €2.5 M /ano sustentados por currículos tão improváveis como o lançamento de campanhas com T-shirts do Che e poemas do Manuel Alegre, que foi nisso que os portugueses parecem ter-se especializado. A Dulce, como a grande maioria dos retornados (uma filha de beirões, nascida em Angola e “retornada” no Brasil, só pode ser uma piada de mau gosto…) fez pela vida e é uma mulher feliz e empresária de sucesso.

Resolveu escrever um livro que editou no Brasil e em Portugal. Nalgumas livrarias de Paris, também. Em Portugal o impacto foi modesto. Sem lançamento, sem lóbis, o livro foi depositado em duas livrarias lisboetas e vendeu umas centenas de exemplares. Já no Brasil, a situação tem sido diferente. Lançado há cinco meses, mantém-se na dianteira do pelotão dos livros mais vendidos na semana e prepara-se a segunda edição.

Parabéns à Dulce pela sua lição de vida e pelo livro. Que pena que muita gente não saiba que o livro está á venda em Lisboa


Sabor de Maboque

Book House

Edifício Monumental

Praça Duque de Saldanha - Lisboa

T: 213 193 450


Book House

Galerias Saldanha Residence - Lisboa

T: 213 151 873

Pode ser também encomendado através do site da Bertrand

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terça-feira, fevereiro 02, 2010

O saber não ocupa lugar – post dedicado


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A voçoroca, boçoroca ou ravina é um fenómeno geológico que consiste na formação de grandes buracos de erosão, causados pela chuva e intempéries, em solos onde a vegetação é escassa e não protege o solo, que fica cascalhento e susceptível de arrastamento por enxurradas. Pobre, seco, e quimicamente morto, nada germina naquele meio laterítico destinado, alguns milhares de anos depois, a tornarem-se em minério de ferro.

Em Angola é frequente o aparecimento de voçorocas (curiosamente, o termo parece ser brasileiro mas era de uso corrente em Angola), no Planalto Central, dado a elevada queda pluviométrica, intensidade de chuvas e terrenos de arenito, facilmente arrastados pelas torrentes, abrindo-se, naturalmente, as voçorocas. Este fenómeno era mais frequente nas províncias do Huambo e do Bié.
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sábado, janeiro 09, 2010

Há tempos, no Massabi


Clicar na foto para ver melhor.

Lagoa do Massabi. Situada a norte de Cabinda, faz fronteira com a Repúblida do Congo. Região de floresta luxuriante, do tipo equatorial, habitat de excelência para jibóias, papagaios e, segundo testemunhos locais, ainda de alguns
gorilas
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A Canja

As pessoas sentadas à mesa. Eu, o meu director geral, o administrador do grupo em Lisboa e o gerente local de uma fazenda de café e óleo de palma (conhecido pelas suas extravagâncias).

O Administrador: - Mas que rica canja, não é?

Eu: - (olhando para a sopa, branquinha, saborosa e com os fiapos de carne boiando no caldo e uma folhinha de hortelã) Sim, está muito boa. Este cozinheiro merece os parabéns.

Director: - (Metendo outra colherada à boca) Também acho, está óptima. A não ser que seja por estarmos cheios de fome, depois da caminha pelo cafezal.

Gerente: Sim, este cozinheiro é óptimo. E o que é bom é que eu só preciso de lhe dizer: Olha, somos x pessoas. O resto é com ele.

Administrador: - A canja está realmente muito boa. Para mim, só lhe falta uma coisa que eu gosto muito. A moela. Gosto imenso de encontrar a moela na canja.

Gerente: Mas, Ó senhor Coronel, as jibóias não têm moela!

(Cai o pano e não caímos nós todos da cadeira já nem sei porquê. Mas a canja ficou por ali e ficámos a aguardar o prato seguinte. E continuámos a comer. Não sem que tivéssemos perguntado 100 vezes, primeiro, de que bicho eram os bifes que vieram para a mesa…

A jibóia

Numa caminhada por um cafezal, tive necessidade absoluta de me afastar do grupo em que estava integrado e retirar-me para a intimidade de uma pequena clareira na floresta espessa onde, agachado, dei livre curso à fisiologia, que todos somos filhos de Deus e, concomitantemente, sujeitos aos caprichos do organismo.

Estava eu, já aliviado, meditando sobre se aquilo que eu acabara de fazer não caberia na tão cantada lista das melhores coisas do mundo, quando no maciço de folhagem e a pouco mais de um metro da cara vejo aquilo que me parece ser uma coisa que mexia. Levantei-me, tipo mola, recuando um par de metros. A tempo de ver «um bocado» de uma jibóia (e digo um bocado, porque não lhe vi a cabeça nem a cauda) deslocando-se lentamente. A bicha estava claramente incomodada pela minha presença e provavelmente, estaria a colocar-se em posição de defesa. Ou, quem sabe, de pituitária susceptibilizada pelo odor humano, particularmente dadas as circunstâncias, teria decidido «mudar de ares».

Não sei se alguma vez viram um jovem a correr com as calças da mão. Foi-me dito mais tarde que eu parecia a personagem de uma daquelas anedotas em que um homem é obrigado a uma retirada estratégica de um quarto de uma dama, sem tempo sequer para apertar o cinto, mas não achei muita graça.

Lamentavelmente, poucos minutos depois, uma equipa de batedores apareceu, matou a jibóia e nessa noite houve festim na aldeia.

Estes dois episódios, rigorosamente verdadeiros, vêm a propósito do ataque terrorista à equipa de futebol do Togo, participante no CAN. Porque conheço exactamente o local do ataque, no Massabi, numa estrada que liga a lagoa à fronteira com a República do Congo, a caminho de Pointe Noire. Eu era um jovem recém-formado e nas minhas atribuições cabia o futuro acompanhamento da fazenda de óleo de palma e café.

Curiosamente o director da altura é o meu CEO actual.
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domingo, novembro 15, 2009

Angola aos pedaços ( 2 )


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Este foi o meu segundo carro. O primeiro, como mandava a cartilha da época, tinha sido um feroz Mini, com 848 c.c. que o impulsionavam para uns fantásticos 140 km/h, se não fosse muito a subir, apesar de isso ser infinitamente «cagajessimal» perante o prazer de conduzir uma máquina daquelas.

Mas voltando ao meu segundo carro, um Autobianchi Primula 1200, uma variante pretensiosa da Fiat que resolveu aumentar as vendas com um produto razoavelmente dissemelhante. Este carro tinha 65 cavalos, era ruidoso e desconfortável mas suficientemente nervoso para bombear o sangue necessário às guelras de um condutor recém saído da adolescência. E tinha a característica de ser novo. Era o meu segundo carro, mas foi o meu primeiro novo. Daí que os primeiros quinze dias de vida do Prímula foram um regalo de fiabilidade. Só possível num carro novo e que se tornava ainda mais apreciada porque eu vinha de um carro que dia sim, dia não me obrigava a dar umas pancadinhas na bomba de combustível, para continuar a andar. Só que esses quinze dias foram só quinze porque fui uma vez fui interrompido à hora do almoço pelo dono de uma estação de serviço vizinha para me avisar que o senhor Freire (os portugueses, mesmo em África, sempre acharam que nos conhecemos todos uns aos outros pelo que eu deveria, supostamente, conhecer o Sr. Freire!!!) «tinha-le faltado os trabões e tinha esbarrado» contra o meu, que estava a ser paulatinamente sujeito a uma lavagem.

Um mês mais tarde, carro arranjado e pintado às custas do senhor Freire (um fotógrafo), meto-me à estrada em caravana com o meu pai para uma viagem de cerca de 200 km. Para quem conheça, quando se saia do asfalto ali pela Caconda e se tomava a estrada para a Chicuma, não asfaltada, até à Ganda, entrava-se numa estrada boa, mas perigosa. Trocado por miúdos, bom piso, mas escorregadio, uma espécie de saibro moído. Vale isto para dizer que sem saber bem como nem porquê, dei por mim fora da estrada com o Prímula com as quatro rodas no ar, após uma série de «reviangas» na tentativa de não sair da estrada.

Dentro do carro e sentado no tejadilho, virtualmente de pernas para o ar, via a gasolina a escorrer para o habitáculo, ao mesmo tempo que me lembrava dos filmes americanos, em que os carros explodiam por dá cá aquela palha. Estranhamente senti-me calmo, talvez pensando que os americanos eram uns exagerados, embora fosse aconselhável eu tentar sair daquela situação. Foi o que fiz. Movimentando-me com custo, consegui abrir uma das janelas traseiras (as da frente estavam bloqueadas) e saltar cá para fora. Meia hora mais tarde, o meu pai, que naturalmente dera pela minha falta, voltou para trás e apanhou-me. Olhámos para o carro e o carro ali ficou. Sem explodir, o que mais cimentou a ideia de que os americanos eram uns exagerados. Uma semana mais tarde, duas professoras de Sá da Bandeira, na mesma estrada, tiveram um acidente semelhante ao meu. Capotaram, o carro incendiou-se e as duas morreram. A partir daí comecei a acreditar um pouco mais nos filmes americanos.

A que propósito vem esta história? Porque se regista hoje um dia qualquer de sinistralidade rodoviária. E eu tive uma série de acidentes. Em todos tive, basicamente, muita sorte. Como neste que acabei de referir, quando estive mais de dez minutos dentro do habitáculo de um carro com um depósito de gasolina a verter gasolina em bica lá para dentro. Ah! E também porque está a chover, estou em casa e a recordação de um acidente de carro é um bom pretexto para «não falar daquele que, à boa maneira de Night Shyamalan, não podemos falar» porque ele zanga-se muito quando passamos as marcas.

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