domingo, agosto 13, 2017

Polvo seco - pitéu algarvio



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A memória é uma faculdade que nos foi concedida e que, por vezes, tratamos mal. Mas ela é caprichosa, faz questão de marcar presença, e esta noite sonhei que estava na feira de Lagoa, a comer polvo seco e a bebericar moscatel de Setúbal.

Acordei intrigado, porque polvo seco é uma daquelas coisas de que passam anos sem que me lembre do infeliz, como se ele não existisse, até. E, todavia, é um pitéu tradicional português, de tempos imemoriais e aparentemente associado ao aproveitamento dos excessos de pescado.

A verdade é que o tempo passa e de duas, uma: ou faz tempo que não vagueio em caminhadas por feiras algarvias e me deliciava com o petisco, ou começo a estar demasiadamente amestrado às modernices que nos vão gradualmente minando, como o “sushi” e outros. Tenho a certeza que já há gerações de jovens que não só nunca comeram polvo seco como não sabem, sequer, que ele existe. Um exemplo vivo desta colonização dos tempos modernos, reunido com um grupo de jovens amigos de uma filha, uma jovem, excitada, me perguntou se eu gostava de “tempura”, um pitéu japonês que agora estava na moda. Eu, com a bonomia devida aos “vinte e poucos”, disse que sim. No fim, não resisti e disse-lhe que a “tempura” era o nosso vulgar “peixinho da horta" e que foram os portugueses que o haviam exportado para o Japão. Dois dias depois, a moça ligou-me e disse que tinha “googlado” o “tempura” e que eu tinha razão.

Voltando ao polvo seco, parece que também há “tempura” de polvo. Haja ou não haja, achei divertido ter sonhado com o polvo seco. Para quem acredite no significado dos sonhos, de duas, uma. Ou é uma mensagem a dizer-me que devo ir ao Algarve, o que manifestamente repudio em Agosto, ou qualquer outra coisa de transcendência indefinida e que dá uma trabalheira para lhe aplicar uma simbologia mais ou menos etérea. Desisti da mensagem e prometo comer polvo ao almoço. Não será seco… talvez à lagareiro. Não engorda muito e tem o toque mediterrânico do azeite às toneladas que parece que faz muito bem e contribui para que os portugueses se ufanem de que temos uma dieta fantástica, desde os tempos em que dávamos às criancinhas “sopas de cavalo cansado” ao pequeno-almoço.

Por fim, percorre-me uma grata sensação de frescura e conforto por ter feito um modesto post sem falar de um primeiro-ministro que todos os dias me dá vontade que o “tempure” (olha, falei, mas saiu-me, juro…).



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sábado, julho 29, 2017

Terra de Nosso Senhor…




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«...Destaca-se também pelo nome: Marx Lenin, que por acaso prefere o pé direito ao pé esquerdo, tem sido por causa da sua graça um sucesso nos relvados e nas redes socIais.
Mas ele, garante, não percebe muito bem porquê. "Para falar a verdade, eu nem sei muito bem quem são esse dois caras, o Marx e o Lenin", diz o próprio Marx Lenin.
Conta o jogador que tudo o que sabe é que a mãe queria uma adaptação mais moderna do nome do pai, conhecido como Seu Marques. Dai usar a terminação em x, exatamente como o filósofo alemão. "Já Lenin", diz Marx Lenin a propósito do nome que partilha com o líder soviético, "não faço ideia como apareceu, só sei que não existe ninguém na família com esse nome"...»

«...E em 2018? Ano de eleições, à partida quentes e disputadas num Brasil cada vez mais polarizado, em quem Marx Lenin, já com cartão de eleitor, vai votar? Lula? Marina Silva? Jair Bolsonaro? "Não sei ainda", responde o jovem jogador, "voto em quem minha mãe mandar"...»

Ler a notícia aqui.


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segunda-feira, julho 10, 2017

Duas portuguesas no Chiado



Clic on pic to see how chic...

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Hoje tenho andado um bocado a correr. Mas não quero deixar de registar esta foto porque daqui a um ano ou dois, o Facebook vai-me avisar naquele “you have memories”. E eu revejo a foto e vou-me lembrar que ontem passei o dia com a minha netita Stella que está a esta hora a voar para Maputo, juntamente com duas amiguinhas dela que levei propositadamente de Cascais e a minha filha mais nova, tia dela.

Estivemos um par de horas no Chiado, claramente segregados pela juventude das meninas, delirantes por estarem juntas. Segregados eu, a minha filha e o respectivo e corpulento cão que está com o pêlo cada vez mais bonito e brilhante porque se alimenta exclusivamente a Petfield Premium (é desta que eu ganho a lagosta…).

À hora de irmos embora, a Stellinha pediu-me para tirar uma foto das duas (neta e filha) para mandarmos para um destino que ela decidiu. Foi o que fiz. E registo aqui a foto, então, para receber o "you have memories" daqui a um ano. E também porque às vezes esqueço-me... e uma simples foto me lembra que tenho uma filha linda e uma netinha linda também. E isto é apenas uma amostra de mais uma filha e mais um filho e mais dois netos, todos lindos de morrer. 

E eu só posso ter que agradecer às mães, porque quando acordo e me olho ao espelho, antes da barba e do duche, referir as mães é uma incontornável questão de justiça.


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sexta-feira, maio 19, 2017

Um amável convite do "Delito de Opinião"

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O meu blogue anda meio chato. Ou chato inteiro, mais propriamente. São quase 13 anos (em Julho e quase, quase 6.000 posts, desde Julho de 2004). E sozinho. Tem sido uma companhia admirável e uma via para conhecer gente e criar amizades com gente boa e bonita. Mas confesso estar a atravessar uma irritante abulia e quase não escrevo. António Costa tem culpa, também, até de escrever pouco, de cada vez que abro o laptop vem-me a criatura à cabeça. Sebosa, rindo e irritante. Acabo a escrever sobre ele, de tal maneira que amigos já me têm dito que estou até a tornar-me chato.

Este preâmbulo para dizer que fui honrado (uma vez mais) pelo convite do Pedro Correia para escrever um post para ser publicado no Delito de Opinião. Prometi a mim mesmo que não falava no Costa. E não falei. Tentei fazer uma coisa ligeira e pedi desculpa ao Pedro por ser, talvez, demasiado ligeiro. Mas foi o que se pôde arranjar. Mesmo que o post não esteja com assinalável qualidade, vale pelo prazer de aceder ao pedido do Pedro e desejar a todos boas leituras no Delito. E que eu, mesmo modestamente, tenha desta forma contribuído para tal.

E o post é este:




Bruscamente, debaixo do chuveiro

Tenho andado entra e sai, em casa, por motivos vários. Ao mesmo tempo, a minha filha pediu-me para lhe ficar com as duas gatinhas enquanto ela se ausentou por um par de dias.

Anteontem entro em casa, ligo mecanicamente o televisor para quebrar a paz e o silêncio, as gatas ronronavam num maple e fui para o duche. Eis senão quando, oiço miadelas estridentes, correrias, barulho de um par de coisas a cair e a estilhaçarem-se…mais correrias, choques com portas e é aí que, debaixo do chuveiro, me pergunto se estarei a ser assaltado. Molhado e nu não é propriamente a melhor maneira de resistir a assaltantes, salvo especialíssimas circunstâncias… mas enchi-me de coragem, enrolei-me na toalha e segui para o hall. Olhei para a sala, não vi nada, vou à cozinha e vejo as gatinhas assustadas, muito encolhidas e enroscadas, junto ao fogão. Que coisa, pensei eu… serão mesmo assaltantes?

E é neste ponto que oiço uma gritaria que, por motivos claros, não provinha das gatas, Vou à sala, procuro identificar o ruído, mais ou menos semelhante a um grupo de carpideiras bem pagas, talvez, ainda, uma vaca que um dia vi o meu irmão veterinário ajudar a parir e deparo com a imagem do Manuel Serrão, na TV, no “Prolongamento”, a imitar (!!!!????!!!!) o Salvador. Pensei sobre que diabo se estaria a passar. Curioso, aproximei-me e na ininteligibilidade dos lances canoros da criatura percebo que havia uma tentativa de uma letra. É isso. O homem imitava o Salvador, o que percebi pelos gestos, naturalmente não pela música. Mas a letra, meu Deus… só percebi Poooooorto… peeeeeenta e qualquer coisa que rimava com penta. Não era pimenta, mas algo por lá perto e que não consegui definir. Insisti E quando julgava que a letra continuava, o homem insistia… peeeeeenta….. pimeeeeeeeeeeeeenta…. (acho) e fiquei-me por aqui. 

Volto à cozinha e olhei, enternecido e solidário com as gatinhas. Pequei no “remote” e calei o Serrão. As gatas olharam para mim, embevecidas e agradecidas. Peguei nelas fiz-lhe um mimo e elas deitaram-se de novo no maple. Eu voltei ao chuveiro e  prolonguei aquele jacto quente e gostoso até me desaparecer aquela rima estranha de …peeeeeenta…..pimenta…

Mesmo assim, quando me deitei, e cada vez que fechava os olhos… é… aquela sensação que todos nós certamente temos e que faz com que não consigamos deixar de trautear mentalmente uma canção… lá estava ela. Só que desta vez era mais grave. Além do peeeeenta, pimeeeeeenta mesmo de olhos fechados eu tinha a visão festivaleira do Manuel Serrão e de gatas assustadas, tal como se nota na foto. Tomei um Dormonoct. 




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segunda-feira, janeiro 02, 2017

Mas sabemos que o sol está sempre lá



Foto de hoje às 14:30. Clicar para ver melhor.
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E o Guincho hoje estava assim. Almoço na Aldeia de Juzo e uma tempestade que convidava a um desvio pela Malveira da Serra e Guincho até casa.
Não era bem uma tempestade. Era um dia cinzento, onde não era possível descortinar a linha do horizonte e um mar zangado, revolto e a desfazer-se em espuma por cima daquelas rochas milenares no meio do areal. Espuma que certamente carreava alguns desgostos, que os mares também têm disso. E como os oceanos não tomam comprimidos têm que bolçar a azia nos areais.
Dia feio. Certamente com sinais, mensagens, símbolos, números e outros artefactos mais ou menos esotéricos que as pessoas gostam de associar a este tipo de fenómenos. Parei o carro e, surpresa, não achei nada feio o cenário que desfrutava. Tive até a impressão que percebia o mar, talvez porque durante tantos anos brinquei com ele e sabia que depois do cinzento do céu e da espuma carregada de azedumes, chega sempre uma manhã em que o mar retoma o azul que é só dele, o céu se veste de azul que é só dele também e num glorioso banho de sol vai ser possível distinguir a linha do horizonte. Lá longe, onde a manhã vai crescer, aquecer e levar vida e conforto a latitudes longínquas. E a vida continuará. Muito azul, serena e com maravilhosas vibrações de sol. E essas manhãs não precisam de cantar, sobretudo porque se chega a uma altura na vida em que sabemos as letras e as músicas todas e basta aguardarmos o natural entrosamento com a vida que a natureza nos dá e fruir tanto de bom que, aqui e ali, se esconde no cinzento e nas espumas, mas que inevitavelmente regressa numa manhã gloriosa.

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terça-feira, dezembro 06, 2016

Crescimento do consumo pelo aumento do produto



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A geringonça é uma bem-aventurança dos portugueses. Não há jornal ou revista que não se esgalgue a fazer capas com múltiplas “boas notícias”. As boas notícias podem ser as coisas mais banais e incríveis, desde um aluno que foi o melhor num concurso qualquer, ao número de mortos na estrada que diminuiu, ao aumento do consumo dos portugueses via multibanco, passando pelos pacotes de férias esgotados para o Natal em países de sol, praia e alegria de viver. Os hotéis estão igualmente lotados de gente que vai sentar-se em mesas fartas e na paz do Senhor. São primeiras páginas atrás de primeiras páginas com as benesses da geringonça. Que nos fez "desausteridizados" e felizes por termos nascido.

Hoje é o papel higiénico. A Renova aumentou a sua capacidade de produção e lá foi Costa botar faladura. Como de costume, com o sorriso alarve que o caracteriza e o verbo típico de que não fosse ele e a Renova não investiria a ponta de um chavo. Por mim, apetece-me dizer que a renovação da fábrica deve estar na razão directa da necessidade, pela merda que a criatura tem feito. E perdoe-se-me a vulgaridade da expressão mas tenho ainda na retina o sorriso do homem a falar do investimento, do progresso, da confiança e da tranquilidade. Não ouvi mais porque ele acaba sempre naquele estilo chocarreiro a falar de Passos Coelho e eu já não consigo ouvir mais.


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sexta-feira, novembro 18, 2016

Check-List Take 2

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CHECK-LIST  (TAKE 2)





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quinta-feira, novembro 17, 2016

Check List

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CHECK-LIST






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sexta-feira, maio 27, 2016

A graça e o tique



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Ontem abriu a Feira do Livro em Lisboa. Lá fui cumprir uma certa peregrinação e confesso que me desiludiu um pouco a ausência de novidades. Mas fica o sol, fica o enquadramento único daquela parte de Lisboa, ficam as pessoas percorrendo os stands, fica aquela sensação de paz que releva da consulta de vários autores expostos e de uma ou outra novidade, sobretudo em matéria de biografias.

E fica o sol. Aquele sol radioso que filtra e produz a mais vívida luz que alguma vez encontrei em várias cidades que conheço. Mas faltou qualquer coisa. Porque este ano, a Feira, por muito bonita que esteja (e glosando um tal de João Maria Tudela cantando sobre Moçambique), por muito bem que o sol lhe fique, faltou-lhe a graça e faltou-lhe o tique dum sorriso de mulher.


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terça-feira, janeiro 26, 2016

Sorrisos



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Quem me conhece sabe bem como aprecio uma boa gargalhada. Sabe, também da importância que dou a um sorriso bonito, franco e leal (*), sobretudo daqueles que nos mostram a alma (e, já agora, uns dentes bonitos). E também sabe como gosto de gente que emoldura o que diz com um sorriso sincero, mas apropriado.

Ao contrário, detesto duas manifestações de riso e sorriso. A risada alarve com que alguns dos mastigantes de alguns restaurantes nos importunam, com estridentes gargalhadas que fazem vibrar a colher da sopa ou saltar a tampa do galheteiro e, em matéria de sorrisos, abomino as pessoas que sorriem SEMPRE, seja por que lhes aconteceu alguma coisa de bom, seja por que estão com uma terrível dor de cabeça. Aquelas pessoas que afivelam o sorriso permanente que faz com que nos dêem a notícia de que nos saiu a lotaria ou de que nos morreu um parente próximo, sempre com o mesmo sorriso. Melhor, com o mesmo esgar.

Isto para dizer que o nosso primeiro Costa exibe um sorriso per-ma-nen-te anexado ao seu fácies gorducho. Havia qualquer coisa que eu não sabia definir exactamente mas me chamava a atenção para a expressão dele, para tudo o que ele dissesse. E descobri. É o sorriso, melhor, dizendo, o tal esgar. Aquele homem sorri sempre. Por tudo. Por nada. Pelo que diz, não diz e gostava de dizer. Pelo que faz, não faz e nunca será capaz de fazer. É um exemplo acabado de um «sempre-em-pé» sorridente, aqueles bonecos que havia quando eu era miúdo e que me divertiam imenso por estarem sempre de pé, por mais que os tentássemos deitar. Costa é um sempre-em-sorriso. O homem ri. Sorri. Não sei bem é de quê. Palpita-me que nem ele.




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segunda-feira, janeiro 11, 2016

As irritações boas e as irritações más



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Eu acho extraordinário o escarcéu que se gerou por aí porque Marcelo Rebelo de Sousa se irritou (foi o termo mais usado) com Sampaio da Nóvoa. No que me diz respeito, acho mesmo que Marcelo demonstrou uma notável contenção em face da mesquinhez e do estilo rasteiro dos argumentos de Sampaio da Nóvoa. Mas dando de barato que parece ser de bom-tom as pessoas não perderem a fleuma em momentos tão elevados como os debates para as (nossas) presidenciais, há que registar como há a irritação boa e a irritação má. Como em tudo o que mete as benfeitorias do socialismo e as malfeitorias do «fascismo». Por isso, atentos veneradores e obrigados, os artífices da opinião pública, vulgo comunicação social, vão dando conta das irritações boas, mesmo que elas configurem pura má-educação ou um lamentável e complexo «feitio» de gente que acha que tem prerrogativas que lhe foram concedidas por um respeitável passado antifascista.

O Expresso, por exemplo, vai passando uma galeria de indignações, das boas, como esta. E como tal devem ser tomadas como reacções intrínsecas aos dotados das práticas dos bons costumes e da bondade de espírito. Por isso, Soares pôde berrar com um pobre GNR e as pessoas digerem um misto de respeito e consolo por ter tão insignes figuras que se indignam assim, com a nobreza e fibra do «homem novo», no «tempo novo». Já Marcelo, irritado mas claramente nos limites da decência e do respeito pelo próximo, foi amplamente remetido para a ralé política. Porque se zangou, porque se irritou, mesmo que isso tenha acontecido com uma das mais irritantes criaturas como Sampaio da Nóvoa. Acresce que, pela calada, é partidário de Durão Barroso, Cavaco e Passos Coelho, hoje por hoje perigosos representantes da camarilha fascista que luta denodadamente pela manutenção do tempo velho.



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domingo, setembro 13, 2015

Quem tem filhas, tem coisas boas


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… e arrisca-se a receber prendas originais. E daí que eu tenha feito anos em Julho e elas me tenham dado uma prenda que só se materializou ontem, porque estive em lista de espera todos este tempo.

A prenda foi deliciosa. Porque (lá vêm as filhas outra vez…)...




... elas acham que eu fui um excelente piloto de velocidade (cof, cof, cof), mesmo que isso tenha acontecido numa altura em que a mais nova não era nascida e a outra andava de fraldas. E ofereceram-me então duas voltas de condução livre no Autódromo do Estoril num Porche Cayman S, um «brinquedo» que atinge os 283 Km/h e leva 5 míseros segundos para atingir os 100 km/h, à conta de 325 cv debaixo do capô do motor.

Fica a «reportagem». Não ultrapassei os 220 km/h e durante dois escassos segundos, que a curva «apareceu» logo ali. Percebi que se tivesse saído da parabólica mais rápido para atacar a recta da meta, poderia ter alcançado um pouco mais. Mas foi melhor assim.

Fica a confissão de que nunca tinha conduzido um Porche. Muito menos um Cayman S. É uma sensação gostosa. Para quem gosta de automóveis. E para quem não gosta, também.

Obrigado, filhotas. Um beijo. Fica a reportagem possível.




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quinta-feira, julho 30, 2015

Fui a correr ao espelho



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Não sou muito de confissões aqui pela net. Mas a notícia de que Mark Knopfler andava aí por Lisboa fez-me recordar o frémito que me acometia nos anos oitenta, de cada vez que ouvia os Dire  Straits. Para mim, a melhor banda de rock de sempre. Um fenómeno que, mais tarde, me provocava um verdadeiro sentimento de incredulidade quando ouvia as minhas filhas falarem de bandas cuja mera existência eu não era sequer capaz de admitir. Talvez com uma honrosa excepção dos Pearl Jam.

O problema é que deram uma imagem do famoso guitarrista. Foi o choque inesperado, já que há muito eu não via imagens de qualquer dos componentes da banda. Fui a correr ver-me ao espelho. Puxei as pálpebras, passei a mão pelo (ralo) cabelo, deitei a língua de fora, pus-me de lado para ver a barriga… resumindo devo ter feito uma triste figura. Mas também ninguém deveria ter o direito de mostrar fotos contemporâneas dos nossos ídolos de há 30 anos atrás, assim... sem avisar...




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sábado, julho 25, 2015

Quase




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Ainda não é Domingo, mas é quase. E no quase está a essência de muito ou mesmo quase tudo (la está o quase…) o que tenho na vida. Quem sabe eu deveria esperar para amanhã para colocar a Etta James no meu empobrecido blog mas se há coisa que tem acompanhado os quases da minha vida são o voluntarismo e a ânsia que me acometem e não me deixam aguardar pelos momentos exactos e, quiçá, apropriados, para fazer seja o que for.

E porque esta noite pus o sono um dia (muito estranhamente, acordei às sete, após o que voltei a adormecer até agora) e no período extra do sono sonhei um sonho estranho, um sonho de quases. Quases que me recordaram momentos de morte próxima, de amores frustres, quase riquezas, quase conseguimentos plenos, um sonho quase realidade que me fez desfilar em galeria de recordações, com impressionante nitidez e realismo, tantos quases da minha vida e agora que, após uma meia dúzia de anos, pareço ter atingido uma situação de plenos sentimentos e realização * mas, lá está, e um quase conseguimento, por força de razões exógenas à minha vontade, percebo que a vida é quase fácil, quase boa, quase bonita e só não é quase na justa medida em que merece ser vivida. Pelo menos por aqueles que, como eu, quase conseguem tudo, em plenitude, no que se metem.

Depois de um período de viagens de dezasseis dias de muita (boa) turbulência, correrias, percebi que o corpo é que manda e que me aconteceu uma coisa quase impensável. Dormir até às onze da manhã. Mas lá está, sou um homem de quases. Um dia atinjo o pleno. Pelo menos aquele que todos nós, sem excepção, mais tarde ou mais cedo atingimos.

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quinta-feira, julho 23, 2015

Para desenjoar...



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O meu «southing» desta vez incluiu Maputo, uma das mais belas cidades africanas, para quem não sabe.

Amigos de sempre, levaram-me a uma pescaria, recordando-me anos de cumplicidade com o Índico. E revi o perfil da cidade à medida que nos afastávamos do Clube Naval, o ruído familiar de dois Yamaha de 115 HP cada, o rasto à popa, o sol batendo de frente pouco depois de ter nascido… e a passagem por «spots» familiares como a Bóia 3, o Cockburn, a Xefina Grande, a foz do Incomáti, a Macaneta… o Catfield, o 3M e, de repente, o mar vasto, aquele em que giramos os olhos por 360 graus e não divisamos um palmo de terra. Mesmo assim, a atmosfera familiar manteve-se, à medida que apareciam as gaivotas, os albatrozes, indicando peixe nas redondezas e, acreditem ou não, o cheiro misto do barco, do combustível, do sol, da espuma, do sal e da maresia. Coisas que só mesmo quem tenha tido a ventura de ir pelo mar dentro, como fomos desta vez cerca de vinte e duas milhas náuticas (mais de quarenta quilómetros). Duas horas depois tínhamos quatro rapalas e uma pena na água e pouco demorou até um «serra» (King mackerel no Índico, Spanish mackerel no Atlântico, basicamente um tunídeo, ou uma cavala enorme, conhecidos pela luta que dão e pela excelência da sua carne) dar um formidável esticão na minha cana e pôr o molinete a «cantar». Foi um momento mágico que já alguns anos não me acontecia. E apesar de não ser dos maiores (ver a foto) era razoável para a época do ano, com águas mais frias.



Tirámos mais três serras, um xaréu e um «yellow fin» (atum). O meu serra, para pirraça aos demais, foi o campeão do tamanho, mas que não fosse, nada me retirava já a fruição do prazer de ter ido à pesca, de me sentir no mar sem ver terra, da cavaqueira óptima com amigos de sempre.

O regresso foi mágico. Sol a pôr-se, mar chão e as facilidades tropicais a proverem um marinheiro dedicado para nos retirar o barco da água à chegada, com a respectiva carreta.


E agora… sem serras, nem Índico, pouco mais fica para registar que o regresso ao patatipatatá daqueles que sabem imenso sobre a Grécia, a história da Grécia a cultura da Grécia, a democracia da Grécia e a marca do cachecol do Varoufaknão não sei das quantas. E sobre as malfeitorias dos alemães e da extrema direita finlandesa. E a Catarina Martins. A Constança. O Marques Lopes (o Marques Lopes, meu Deus…). A arquitecta Roseta da CML que quer acumular com deputada. A sexy e inteligente Mortágua. O Daniel…o Louçã, o Jerónimo, o Arménio, o Pedro Adão e Silva, o Nóvoa… a Lourenço, o A. Costa continuando a meter os pés pelas mãos e tudo o mais que me vai avivar a saudade precoce de uma pescaria na Bóia 2 Norte, ao largo da costa moçambicana.

Clicar nas fotos para ver o peixe... maior!


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terça-feira, abril 28, 2015

O Honório Bar


O «Honório Bar», no canto inferior direito da foto (Clicar na foto)

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O Honório era um colega meu, mais velho talvez uma dezena de anos e com quem eu não tinha um conhecimento chegado, até pela diferença de idade. Mas conhecia em detalhe as suas invejáveis capacidades, a cultura, a sua inteligência, a oratória fantástica, a capacidade de argumentação e, sobretudo o seu extraordinário sentido de humor, a par de uma incontrolável tendência para as situações mais bizarras. Ficou célebre (eu não vi, contaram-me) a sua oferta para comer, perdoe-se-me a rudeza, mas não há outra maneira de contar, uma sanduíche de merda. Até aqui nada de muito difícil, dizia ele, se a dita cuja não proviesse das tripas do colega que eventualmente seria o mais mal cheiroso do burgo, com os seus muito prováveis 100 quilos.

Parece que a cena congregou dezenas de estudantes, o «cagão» defecou à vista de todos, o Honório abriu uma carcaça e, com esmero e respeito, recheou-a com as fezes frescas, acabadas de produzir. Se ainda estiverem a ler este post e se ainda não vomitaram, saibam que ninguém se adiantou com os 100$00 que o Honório exigia como contrapartida, apesar do desafio, de sanduíche na mão, perguntando quem pagaria 100$00 para que ele a comesse. Como parece não ter havido pagantes, provavelmente estaria tudo teso, o Honório fez uma pequena demonstração grátis que consistiu… numa lambidela da sanduíche, após o que a deitou fora.

Outra história conhecida, foi a de como ele conseguiu convencer um comerciante do mato na Guiné Bissau, onde ele cumpria serviço militar, que deveria comprar uma autometralhadora, um veículo militar ligeiro equipado de uma metralhadora no topo, por causa dos terroristas. O comerciante pagou e o Honório pegou numa das autometralhadoras no quartel e entregou-lha. Parece que a história só acabou quando viram o comerciante passeando-se alegremente em Bissau de autometralhadora, que foi imediatamente apreendida. Não sei o que aconteceu ao Honório, mas tenho a certeza que ele conseguiu resolver a coisa e acabou a beber um copo com o capitão. E tenho a certeza que terá sido o único alferes miliciano, em todo o mundo, que terá vendido um veículo militar a um civil.

O Honório era da Praia, capital de Cabo Verde e toda a gente o conhecia pelas suas partidas. Todas elas cheias de humor e que deixavam os «lesados» a morrer de riso. Quando ele morreu, muitos colegas e amigos foram ao velório. Parece que eram muitos os que vinham fora da igreja e não acreditavam, de todo, que o Honório tivesse morrido. Achavam, diziam eles, que aquilo era mais uma partida do Honório, ele estava apenas a fingir que tinha morrido, até porque ele se estava a sorrir no caixão.

Na semana passada fui ver o Bayern/Porto ao bar do Pestana Trópico Hotel na cidade da Praia. No fim dos 6-1, pedi a conta para assinar e qual não é o meu espanto quando vi na factura «HONÓRIO BAR». Perguntei ao empregado porque é que o bar se chamava Honório. Ele começou a contar a história que acabei de descrever e que eu, naturalmente, já conhecia. Mas eu deixei-o contar até ao fim.

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domingo, abril 26, 2015

Amandamos-lhes com o Viriato e Aljubarrota...


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«…Em suma, a austeridade é um tique evitável. O progresso e a felicidade exigem que o Estado semeie verbas avultadas em seu redor. O fornecimento das verbas é uma obrigação dos contribuintes alemães. Se os alemães rezingam, damos-lhes com o Viriato e Aljubarrota na cabeça. Se continuam a implicar com ninharias, recorremos a citações de Camões e de Pessoa, repletas de referências à saudade e ao mar salgado. Se, incrivelmente, nem isto resultar, desatamos a apelar aos formalismos: nós, que somos soberanos, exigimos viver à custa de estrangeiros hostis, que têm é de calar-se e patrocinar-nos o orgulho. Negócios, apenas com os estrangeiros amigos e falidos, tipo Venezuela…»

O Alberto Gonçalves como, habitualmente, aos domingos. Ler a crónica toda aqui.

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Sôdade


Clicar na foto

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Este magnífico peixe-serra, uma designação imprópria mas que deriva de uma fileira de dentes pequenos, triangulares e acerados como uma lâmina de barbear, é internacionalmente conhecido por spanish mackerel, provavelmente por parecer originário do Golfo do México, mas hoje abundante em todo o mundo, sob cerca de uma vintena de espécies.

Conheço bem este peixe  e apanhei vários, o maior dos quais levou o ponteiro da balança quase, quase, aos 40 kg e era atraído facilmente por rapala ou por pena. Nada disto é muito estranho de contar, apenas reflecti nos muitos pescadores que vejo quase diariamente na costa portuguesa e rejubilam com um robalo de meio quilo e na pródiga natureza que disponibiliza comida boa e farta para muitos povos que hoje se debatem com privações de vária índole, como a fome.

No meu caso, lembro-me que para apanhar um peixe destes eu tinha de navegar cerca de vinte milhas para além do Clube Naval de Maputo. Não resisti a perguntar a este homem da foto (tirada anteontem junto à residência do embaixador do Brasil em Cabo Verde) onde é que ele tinha apanhado este exemplar, que eu penso deva ter entre 22 a 25 kg.

- Ali em baixo, na praia.
- Na praia? Perguntei eu. Ali mesmo na praia, sem barco? E com que isco?
- Sim, na praia. Com choco. Respondeu o homem com simpatia e naturalidade.

Pois…

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segunda-feira, janeiro 26, 2015

Para não ter quer falar do Syriza…



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Já não sei quem foi que disse: Esquerdista aos 20 anos, social-democrata aos 40. A verdade é que as coisas estão a mudar e cada vez mais me sinto na mão de fedelhos mimados que nunca mais chegam a social-democratas mas têm engenho suficiente para arrastar carradas de votos. Música, portanto. E da boa. Da melhor que há. E não é preciso ser Teresa, para gostar. Ou gostar de Teresa. Ou de praia. Basta gostar da excelente música brasileira e esquecer o frémito que estremece por aí tudo o que é FB, blogues and the like!

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terça-feira, janeiro 13, 2015

A propósito de nada. Ou a propósito de tudo…


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A cana vergou-se com violência, sustida pelo «copo» e a linha foi puxada com violência por duzentos a trezentos metros. Ponho os motores a zero e tento segurar a cana, mas a pressão é tão forte que torna-se até difícil tirá-la do copo. Finalmente, consigo pegá-la, encaixo-a no cinto e preparo-me para a luta. Mas a linha não parava, continuava a ser puxada e a esvair-se no molinete, entretanto já bem quente com a fricção, o que me fez recear mais ajuste de embraiagem.

O que seria? Era peixe grande, com certeza, mas, já conhecedor dos diferentes «toques» para muitos peixes, tive dificuldade em identificar tamanho esticão. Abri o «ficheiro cerebral», mas nada correspondia a nada. Pela força, poderia ser tubarão, mas o tubarão é mais pachorrento, puxa com força, abranda, mergulha, vem cá acima, nada para o barco, enfim, tudo diferente do que se estava a passar. Eis que junto ao barco, muito perto, não mais que dois ou três metros, surge um grupo de golfinhos, nadando nervosos e fixando-me com um olhar que eu iria poder jurar que era um olhar crítico e zangado. Nesta fase, o puxão da linha tinha parado, a cana estava completamente frouxa e a sensação era de que o peixe, fosse ele qual fosse, se tinha soltado. Começo a recolher a linha, rodando pausadamente o molinete e reparo que os golfinhos se mantinham bem perto do barco, nervosos e emergindo frequentemente, mantendo aquele olhar fixo em mim e eu jurando que aquele era um olhar de clara reprovação. Continuei a recolher a linha, sem esforço, e comecei a achar realmente estranho. Os golfinhos não se afastavam do barco, eram uns quatro ou cinco, corpulentos e magníficos e por vezes, um deles chegava mesmo a uma distância que me permitiria afagá-lo. Na minha experiência de «deep sea fishing», nunca tal tinha visto. Um deles, de repente, consegue mesmo colocar diria que um terço do corpo fora de água, na vertical, olhando-me de frente.

De súbito, percebo que a linha mantinha o peixe (??) preso. Porque sinto um novo esticão e um pequeno e jovem golfinho, já à beira do barco, dá um acrobático salto fora de água e eu vejo com nitidez, a rapala presa numa das barbatanas laterais e tudo estava explicado. O jovem tinha sido «apanhado» pela rapala e durante algum tempo tentou soltar-se dela. Não conseguindo, nada para o barco, provavelmente para perceber o que se passava e quando vê o barco dá um formidável salto e mergulha de novo na profundeza. E é aqui que fico claramente siderado com o que vejo. Os golfinhos adultos mergulham, eu sinto uma tremenda confusão na ponta da linha… puxões, reviravoltas, rapala abaixo, rapala acima, cana tensa, cana frouxa, uma confusão, enfim, até que sinto a linha lassa de vez, enrolo-a e a rapala me chega às mãos, livre do golfinho. E senti-me feliz por perceber que o golfinho estava livre dela. Reflectindo, tornou-se claro para mim que os golfinhos adultos, um deles provavelmente a mãe, mergulharam e diligentemente soltaram o filhote. Quando achei que tinha percebido o «filme» eis que o filhote e um adulto (a mãe?) vêm à superfície e dão outro salto, este claramente de contentamento e alívio. Viraram-me as costas e desapareceram. Não sem antes eu achar que aquele último salto era para me manifestarem a alegria pela criança solta e, quiçá, para me repreenderem e avisarem que para a próxima eu tivesse mais cuidado e me certificasse se não haveria crianças antes de começar a pescar.

Foi uma cena linda entre mil cenas que vi no mar. Em cada saída um prazer, em cada prazer um novo episódio, em cada episódio o convencimento de que o mar tem sempre qualquer coisa de novo para nos oferecer. Como a vida, afinal. É preciso é reparar nela.

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