quinta-feira, novembro 10, 2016

África, terra bruta, que até à papaia lhe chamam de fruta...




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Esta tromba de água aconteceu ontem em Joanesburgo. Para os que conhecerem a cidade, a foto mostra Hillbrow (bem visível a torre de Hillbrow) e a tromba de água atingiu principalmente o SE (south east) da cidade, nas áreas de Germiston e Boksburg. Aparentemente, o aeroporto O. Tambo foi também fustigado violentamente pela tempestade o que ocasionou atrasos de horas nos voos, porque os acessos (R24 - a caminho de Pretoria) e N 12 (auto-estrada para Whitbank) foram muito afectados. Parece que até os enormes e moderníssimos parques de estacionamento estiveram inoperacionais apesar de, como se sabe, o aeroporto ser muito moderno, amplo e funcional.

Isto é África na sua plenitude. Lembro-me de uma vez não podermos aterrar em Joanesburgo por causa duma tempestade eléctrica e termos de seguir para Boemfontein onde tivemos de aguardar quatro horas até podermos voar para Jhb

Depois acabo a pensar na nossa suave, moderada, fofa e mimenta chuvinha lisboeta que quando nos afaga cerca de meia hora ocasiona a maior confusão, porque as sarjetas não sei quê, as casas foram feitas em leitos de cheia não sei quantas e, claro, porque o Passos Coelho é que teve a culpa. E questiono-me se um dia cai uma coisa destas aqui na terra o que aconteceria.


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sexta-feira, dezembro 06, 2013

Elogio da carica



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Não, não é a tampinha da cerveja. Refiro-me, nem mais nem menos, à papaia, ao mamão, uma fruta tropical a que se decidiu dar estes dois nomes em função da sensualidade bruta das gentes angolanas (África, terra bruta, que até à papaia lhe chamam de fruta…) que por razões de morfismo erótico de uma variedade de papaia mais… hum… parecida com… hum…um redondo e atraente seio feminino resolveram chamar de mamão. Parece que este termo derivou para o Brasil onde, de resto, medrou uma militante ortodoxia em relação ao facto de papaia e mamão serem diferentes. Não são. Apesar de uma diferente morfologia, a fruta é a mesma (literalmente), tal como se comparássemos duas mulheres, uma magra, outra gorda, ou uma oriental e outra ocidental, uma esquimó ou uma filha da Papua. O mamão e a papaia são uma caricácea, do género carica, e as variedades é que mudam.

Isto a propósito de eu ter passado uns dias em Luanda, onde degustei o mais delicioso mamão angolano. Na minha opinião, claro, que eu nestas coisas de mamões sou muito democrata e flexível e aceito a militância de gentes oriundas do Huambo, de Benguela ou do Bié que se aqui estivessem neste momento me esconjurariam, defendendo a sua dama (entenda-se, defendendo o seu mamão) e reclamando a primazia dos seus conterrâneo mamões.

É curioso, porque a primeira vez que comi mamão, tinha eu uns oito anitos, por aí, a «coisa» me soube e cheirou a qualquer coisa esquisita, entre um beijinho de uma tia com hálito de quem parecia nunca ter lavado os dentes até aos 90 anos que tinha, ou uma molécula que dá pelo nome de tiocolquicosido, uma coisa de gosto horrível com um nome estranhíssimo e que nós passamos a conhecer quando, com o avanço dos anos, começamos a ranger das dobradiças. Mas é a verdade. A coisa sabia mal e hoje questiono-me como era isso possível, já que me habituei a deliciar com uma sumarenta, macia e doce fatia de mamão de sabor absolutamente sui-generis. Não há nada que substitua, em vantagem, uma fatia de mamão para iniciar um tropical matabicho. E, já agora, mamão de Luanda. Por acaso, nesta minha passagem por Angola, comi mamão no Huambo, em Benguela e em Luanda. Veredicto: Mamão de Luanda, sempre.

Hoje deixo este país, em direcção a outras latitudes e longitudes, aquelas coisas que inventámos a partir do equador e de Greenwich (que os ingleses nestas coisas, e desde que decidiram guiar pela esquerda, acharam que eles é que deviam mandar nas longitudes), não fosse isso e não saberíamos bem por onde andamos…). E por onde vou, de uma coisa tenho a certeza. Por muitos mamões que coma nenhum deles será como este que acabei de, uma vez mais, comer ao pequeno-almoço. O de Luanda.

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sábado, setembro 10, 2011

Mixed up

Ocaso no Botswana, perto do estuário do Okavango. Tentem beleza maior. Clicar na foto.

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O Pedro Pimentel acabou de fazer um périplo por uma das regiões mais maravilhosas de África. Entenda-se o sul de Angola, Namíbia, Botswana e Zimbabué (não sei se percorreu Caprivi). Não que ele mo tenha dito, mas porque fui seguindo com saudade e nostalgia, os locais que ele foi descrevendo desde Victoria Falls até aos espaços e ocasos inesquecíveis do Botswana.

Isto a propósito de ele ter falado no Joe’s Beerhouse em Whindhoek, um local magnífico que poderão apreciar aqui e onde me ocorreu um episódio com um convidado português, falando inglês com uma mistura de um sotaque muito próprio (à boa moda de uns quantos que eu cá sei, especializados em inglês técnico com diploma aos domingos) e aquele poder de desenrascanço que todos conhecemos. O meu convidado estava cheio de Pilsner, um tipo de cerveja muito comum e apreciado na Namíbia e perante a opípara oferta do menu para o jantar disse que comeria apenas uns ovos mexidos. E é assim que ele encomenda «mixed eggs». Poucos minutos depois, desconfiado, perguntei-lhe o que é que ele tinha encomendado. «Ovos mexidos», disse-me ele. «Estou sem fome, bebi muita cerveja, como uns ovos mexidos e uma água mineral e mais nada».

Pouco depois, era-lhe servido um prato com vários ovos estrelados, no mesmo prato mas separados entre si. Apenas um montinho era de ovos mexidos. O meu convidado olhou e disse ao empregado, apontando para o prato: «Deve ser engano, eu pedi ovos mexidos» (mixed eggs, no seu inglês técnico). O empregado diz : «Mixed eggs it is: Duck, chicken, ostrich, guinea fowl (galinha do mato) and partridge».
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quinta-feira, agosto 19, 2010

Tudo boa gente


Mia Farrow depondo no Julgamento de Charles Taylor, depois de ter acordado muito "preocupada com a forma como os assuntos de África andam a ser tratados"

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À falta de melhor, tenho seguido com algum deleite duas historinhas. Uma, a dos diamantes que a modelo Naomi recebeu a meio da noite, umas pedras assim com um aspecto sujo e que treze (!!!!) anos depois Mia Farrow resolveu trazer à liça. Parece que na altura Naomi achava muito natural ser acordada a meio da noite para lhe oferecerem diamantes (umas pedras assim sujas, disse ela…) e também parece plausível que Mia Farrow tenha esperado treze anos para ligar o ventilador, aparentemente porque um dia acordou e achou que estava muito preocupada com a forma com que os assuntos em África andam a ser tratados, segundo diz o Sol. Também ninguém parece estranhar que Mandela, Graça Machel e Quincy Jones (para falar apenas nas figuras mediáticas) andassem a jantar com um alegado responsável por verdadeiros morticínios em África, sobretudo porque estavam ali reunidos para inaugurar o Blue Train sul-africano, que por acaso eu julgava que já tinha sido inaugurado há uma data de anos, ainda que sem a Mia, Naomi, Taylor e Graça Machel. Em fim, tudo boa gente e espero que tudo acabe em bem, que não se aleije ninguém e que os assuntos de África passem a ser bem tratados para que a Mia passe a acordar mais calminha e sem afrontamentos.

A outra história é caseira e tem a ver com o nosso Queirós, aquele senhor que a FPF resolveu ir buscar a Inglaterra com um contrato milionário para quatro anos e que agora acha que o homem não vale nenhum. A história é tão foleira, quase tão foleira como a forma como Queirós nos tem tratado a todos desde que pegou na selecção, que chega a parecer inverosímil, mas em Portugal não há inverosimilhanças e tudo acontece. Desde que se queira, claro. E se possa. E como nesta terra há uma data de gente que pode uma data de coisas vamos assistindo ao folhetim, cujos detalhes não vale a pena referir, conhecidos que são de toda a agente. O que verdadeiramente me preocupa é que, segundo o que vou percebendo, Queirós vai levar dois jogos de suspensão (a cumprir contra o Chipre e Noruega) e depois continua tudo na mesma, é isso? Entenda-se, o homem continua a ser seleccionador e nós vamos continuando a ganhar moralmente e a chamarem-nos parvos ao fim dos jogos, é isso?

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domingo, agosto 15, 2010

Opgedateer van der Merwe's


Clicar na imagem para ler melhor

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O posto fronteiriço Ressano Garcia/Komatipoort (Moçambique/A.do Sul) passou a exibir este eloquente cartaz. Não sei se é pura má tradução ou se é a prevalência da verdade subjacente à incontornável realidade. Em qualquer dos casos, a África do Sul bem poderia melhorar a sua balança de pagamentos se começasse a exportar cartazes destes aqui para a paróquia, para serem expostos num quantos locais que eu cá sei. Tribunais incluídos.

Imagem surripiada daqui

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sexta-feira, janeiro 29, 2010

África terra bruta, que até à papaia lhe chamam de fruta…



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Esta foto da Ana David fez-me recordar a imagem frequente que se me deparava na época das chuvas em Maputo. Aquelas descargas violentas que nos faziam pensar numa briga dos deuses que, no fervor da refrega, entornavam tudo à sua volta. Por vezes provocando até grande ruído que chegava até nós nos formidáveis estrondos das formidáveis trovoadas da costa do Índico.

A foto mostra um declive que existe entre o topo sul da Julyus Nyerere ali ao pé do Ministério dos Negócios Estrangeiros e a Marginal, no troço que liga o Clube Naval à escola da Marinha. E eu lembro-me bem quando lá passava em dias de chuvada, como abrandava fascinado pela força da torrente e pensava como tudo era superlativo nesta cidade onde, como em nenhum outro local, assisti a desmandos da natureza que nem sabia serem possíveis. Desde a chuva de peixe elevado às alturas por uma tromba de água a cerca de vinte milhas da costa e que fez as ruas da Polana parecerem um mercado de peixe miúdo, até à saraivada de um mês de Novembro, quando pedras de gelo do tamanho de laranjas da Baía estilhaçaram vidros de casas e de carros, esgalharam acácias e jacarandás, até à depressão tropical «Domoína» que arrancou árvores e matou dezenas de pessoas nos leitos imersos dos rios Maputo, Umbelúzi e Tembe, arrastando-as para a baía, juntamente com gado graúdo, criação, animais selvagens e enormes garoupas gigantes que não resistiram à turbidez dos estuários, e passando mesmo por uma trovoada medonha que apanhei numa descolagem no aeroporto de Mavalane, em que o avião sacolejou exactamente como esvoaçaria uma folha de papel e me fez pensar e dizer mil vezes para mim próprio que o pessoal da Tap devia saber o que estava a fazer, mas…

Havia ainda as “suladas”. Aquelas violentas ventanias que resultavam de dois dias de vento norte, quente e forte, que iam acumulando cúmulo nimbos ali pelas coordenadas da Ponta do Ouro e que, de repente, invertiam o sentido do vento com rajadas que ultrapassavam os cinquenta nós e embranqueciam o Índico de espuma irada e revolta. Várias foram as ocasiões em que fui apanhado pelo fenómeno, frequentemente ele acontecia, por vezes, em pouco mais de 30 minutos, tempo demasiado curto para se concluir a ligação de barco entre a Inhaca e Maputo. Uma vez apanhados pela “sulada”, a solução era manter o barco aproado aos 270º e em velocidade lenta até suspirarmos de alívio quando vislumbrávamos, enfim, a silhueta da cidade e a muralha do clube naval, sem deixar alguma vez de manter o contacto pela rádio com o saudoso Covinhas que, se nesta altura me estiver a ler lá dos céus onde agora reside, se deve lembrar das vezes que me dizia «alô Fame, alô Fame, não demore que o barómetro baixou»!

Isto vem a propósito de quê? Pois, que me ocorra, a propósito da foto da Ana. Como me lembro bem desta obra de retenção de águas! Como me lembro bem de Maputo como cidade que tanto tinha de excepcional beleza como, pacientemente e com desvelo, dava colo aos excessos da sempre excessiva natureza onde se gerou.



Fotos surripiadas do Digital no Índico
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domingo, janeiro 24, 2010

O andor do costume


Foto retirada, com a devida vénia, do Ma-schamba

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Pedro Vieira, no seu Irmão Lúcia, condensa uma opinião sobre o livro de Isabela Figueiredo e que tanta celeuma vai levantando.

Para além de eu não me aperceber bem do facto de a celeuma ser assim tanta como Pedro Vieira diz (que me ocorra, está em curso um debate no Ma-Schamba e ouvi uma entrevista do Carlos Vaz Marques na TSF), causa-me alguma eripsela a sobranceria e a forma redutora como Pedro Vieira cataloga os livros bafejadinhos de nostalgia, com pretinhos em fundo, sobretudo se escrito por mulheres que não falam como catrapilas, nem sejam supostas falarem de cona.

A chatice com estes livros, como o desta Isabela Figueiredo, é que são tão rapidamente inquinados com críticas supostamente elevadas, intelectualmente estruturadas e alicerçadas com a opinião de quem, na maioria das vezes, nunca pôs um pé em África e acha que percebe imenso do assunto depois de ler algumas notícias da época e um par de livros do Agualusa, Pepetela, Craveirinha ou Mia Couto (não faço ideia se é o caso de Pedro Vieira, ele até sabe que havia campos de concentração com sabor a caril, 7’s de Setembro e correlativos, é até natural que conheça, vá-se lá saber) que uma pessoa começa a leitura já condicionada pela matriz de análise que nos foi instilada.

Mas não é do livro que quero falar. Vi muitos «livros de Isabela Figueiredo» ao vivo e a cores e isso pode ficar para depois. O que francamente irrita é o atestado de menoridade que se passa a livros de grande beleza, valor literário e, sobretudo, de tocante genuinidade, que são publicados e passam mais ou menos despercebidos nos escaparates das livrarias se não forem acompanhados pela fanfarra e andor do costume, id est toda a claque da nossa esquerda modernaça e a obrigatória culpabilização pelos despertares matinais dos colonos que acordavam a pensar «quantos pretos se iria matar nesse dia sem dizer nada à polícia» ou com que idade é que se começava a «ensinar aos filhos que as pretas tinham conas mais largas que as mulheres brancas».

Há livros muito genuínos, de grande riqueza narrativa, muito deles escritos por portugueses que nasceram em África e que nem por isso tiveram pais como Isabela Figueredo refere. Alguns desses serão enviesados por uma óptica saudosista e emocional e, provavelmente, desfocados da realidade da presença dos portugueses brancos em África. Outros, muitos, foram escritos com a vivacidade, verdade e honestidade de quem conheceu África profundamente, a amou e, sobretudo, não resolveu escrever um livro depois de uma sessão de psicanálise e ter descoberto que as nossa colónias estiveram entregues a um bando de filhos de puta. Ainda por cima, analfabetos e curtos de vista.
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segunda-feira, junho 23, 2008

Correcto e afirmativo


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Pronto. Os chineses agora são pretos. Quer dizer, não são bem pretos, pretos, são pretos q.b. para poderem ser integrados nas políticas de affirmative action da África do Sul. De resto, já activistas chineses acham muito bem esta reclassificação do Supreme Court Sul Africano, porque também eles foram lutadores anti-apartheid. Daí que se sintam qualificados para beneficiar das políticas que favorecem os negros relativamente aos brancos, sobretudo nas leis do mercado do trabalho.

Isto para mim é apartheid, mas como é apartheid correcto e afirmativo, dá-se-lhe o desconto. Não foi sempre assim?

Já agora, os chineses podiam também fazer uma pressãozita para não serem descriminados tout-court em países como a Malásia, onde até os anúncios para aluguer de habitação têm secções distintas para chineses-chineses e chineses malaios.

Este mundo é giro…

Via (e foto) Contra Capa
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