sábado, fevereiro 14, 2015

Desculpas a Costa


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A Costa o que é de Costa e em obediência ao mais elementar sentido da justiça e autocensura, retrato-me aqui publicamente. Por várias vezes me referi à ponte pedonal e ciclável (ciclável dá erro aqui no corrector e também acho que não existe, mas vem assim na notícia…), reclamando do facto de ali se ter gasto uma pipa de massa, se ter obstruído o trânsito durante mais de um ano e jamais se ter lobrigado (lobrigado existe) um peãozinho ou uma bicicletinha atravessando a via (pedonal e ciclável). Pois, a verdade é só uma, como se dizia da Rádio Moscovo, os peões e as bicicletas não passavam porque a via ainda não tinha sido inaugurada.

Foi hoje. Costa aplicou um capacete e fez-se à chuva e ao vento, atravessando a ponte com galhardia e pundonor. Não sem antes ter feito um discurso com elevado sentido de Estado, onde nos explicou a importância de uma coisa qualquer nos edifícios e nas emissões, na preservação do clima. E terminou o discurso com a seguinte tirada: «…Claro, já sabemos, devemos comer menos pastéis de nata, também já sabemos que não devemos abusar dos enchidos no cozido à portuguesa, mas para além disso tudo devemos ter uma atividade que nos permita manter atividade, quer andando, quer pedalando, isso é uma forma de termos uma cidade mais saudável» Eu seja ceguinho! SIC , sintaxe e acordo ortográfico respeitados.

Tenho a certeza que a partir de amanhã é que vai ser um corrupio de bicicletas e peões entre Telheiras e Carnide. Tal como confio no aumento do consumo de pastéis de nata e do cozido à portuguesa já que, seguramente, poderemos ir reciclá-los para a pente pedonal e ciclável. Com moderadas emissões, espera-se. E peço a Costa que me releve a desatenção de ter falado no assunto, num tom crítico, antes da magna inauguração.

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sábado, abril 13, 2013

Asas assassinas ou "Alguém who still knows what I did last summer"



Este osso é de asa de galinha. Tem 4 cm bem aviados, medidos no hospital e tem uma ponta afiada como uma agulha, como se pode ver na foto, apesar de não estar muito boa

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Após tantos dias de paragem deste blogue, não faleceu a escrita mas ia falecendo o escriba. Eu explico rapidinho.

Os americanos, com o seu esmerilhado gosto pela comida, consideram uma delicacy tudo o que vá para além daquele insípido peru no forno, smashed potato, pumpkin e uma massaroca cozida com que se deliciam no «thanks giving». Daí que as asas de franco se tenham tornado ícones da boa cozinha norte-americana. Fritam-nas ou grelham-nas, besuntam-nas de tabasco e barbecue sauce e…salivam.

Eu confesso a minha indiferença pelas asas de frango, mas se como um caril de galinha, não há como evitá-las. E assim, e porque as asas de frango têm um osso traiçoeiro, engoli um deles, sem saber como. O osso estava partido numa das extremidades. Seguiu calmamente a sua viagem pelo esófago, alojou-se calmamente no antro gástrico e, não contente com isso e quiçá incomodado pela movimentação constante do estômago, foi-se enterrando na parede do órgão. Repito: EN-TE-RRAN-DO na parede do estômago. Claro que dois dias depois tive dores que devem ter atirado as famosas dores de parto para milhas da linha de resistência ao sofrimento e lá vou, cinco da manhã, conduzido por uma das filhas direitinho ao hospital de Cascais. Durante quase todo o dia, já de soro e analgésico em perfusão permanente, ninguém fazia a mínima ideia do que me pudesse estar a causar semelhante sofrimento. Raios X, análises, ecografias, nada dava qualquer indicação do que pudesse ser. Até que numa das repetidas análises ao sangue apareceu uma bendita proteína que é suposta estar quietinha, mas que começou a dar sinais de que havia um processo inflamatório algures. Mandaram-me então fazer uma TAC. A TAC mostrava claramente um corpo estranho…mas como as TAC’s não têm legendas todos ficámos sem saber que corpo era aquele. De Cascais, metem-me numa ambulância para o S. Francisco Xavier, urgências de gastro. E aí me anestesiam total e profundamente. Acordo com uma médica simpática e triunfante, mostrando-me o troféu que exibo na foto. Um osso de galinha, traiçoeiramente partido numa das extremidades, acerado e assassino que, aparentemente, não me daria mais 10 a 12 horas de vida se tivesse acabado por me «perfurar» convenientemente.

Osso extraído, voltei para o hospital de Cascais onde permaneço internado por razões de segurança. Quatro dias depois de não ingerir NADA (nem água), o cirurgião de serviço às urgências deu-me um pequenino copo de chá e disse-me para o beber, para ver se o estômago «espichava». Não espichou… e mandaram-me para casa.

Notas finais: Nunca se riam nem pensem que a recomendação de não se dar ossos de galinha aos cães é uma mania dos veterinários. Eu não sou cão mas sou prova viva desse cuidado; fui bem tratado, paguei €53 pelo internamento, tratamento, exames, duas viagens de ambulância e intervenção cirúrgica no HSFX. Parece que há uns meses não pagaria nada e agora paguei €53. Pois… paguei e acho muito bem que tenha pago, em face dos cuidados que recebi, não percebo muito bem esta vozearia idiota que vai por aí. Uma última menção de apreço e simpatia à Daniela Sá Leão, médica cirurgiã do HPP de Cascais que me acompanhou e tratou, pelo diagnóstico assertivo que me fez e pelo elevado profissionalismo demonstrado, apesar de ter levado algumas horas e, ao princípio, nos termos embirrado mutuamente.
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sexta-feira, julho 06, 2012

O Pagador de Promessas

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...Há, em hebraico, ao menos, duas palavras cuja raiz expressa directamente uma promessa ou juramento. A primeira é alah, e diz respeito ao compromisso objectivo, à descrição do que é acertado...e a segunda, dabhar, diz respeito ao acto e à palavra empenhada para a consecução do compromisso... tenha o promitente consciência das suas implicações ou não...de modo que quando alguém faz uma aliança (berith) com alguém, jura (alah) através da sua palavra (davar)...não existem documentos escritos, assinaturas reconhecidas em cartório...apenas a palavra é suficiente, muitas vezes assumida publicamente.


«I always keep my promises» e se prometi que um copo de vinho vinha à mesa, à mesa veio um copo de vinho. Ainda hesitei porque o copo era feio e o vinho não primava pela excelência, mas promessa é promessa, pouco importava a plástica do artefacto ou a qualidade do produto.
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domingo, fevereiro 01, 2009

Esta gente deve dormir mal...


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Não sou médico, conheço uma meia dúzia deles, uns, amigos, outros, porque me trataram da saúde (literalmente) do par de vezes em que tive de me deitar numa marquesa. Menos ainda percebo dos meandros das políticas de saúde deste país, para além de ter consciência de que vivo num país de hipocondríacos militantes que afunilam as urgências e de poucos médicos porque, segundo o que julgo saber, o número clausus da admissão à faculdade de medicina era mais apertado que o rabinho daqueles que pela primeira vez se sujeitam a uma palpação de próstata. E depois, também sei que se vivo num país que prima pela falta de rigor, pelo desenrascanço, falta de profissionalismo e consciência cívica, não vejo nenhuma razão para que o serviço de saúde não sofra dos mesmos males. Tudo isto sem embargo, já se vê, dos doentes mesmo doentes e dos médicos zelosos e competentes que, felizmente para os doentes, existem e desenvolvem uma actividade séria e, espera-se, profícua, porque todos nós temos de pagar a TV Cabo ao fim do mês.

Tudo isto para referir um dichote da actual ministra da saúde, Dr.ª Ana Jorge, que depois de um tempo em que, julgo, a maioria dos portugueses se esqueceu que ela existe, achou que devia dar sinal de vida. Como? Simples. Tratou de nos informar que aumentou as cirurgias em oftalmologia e concluiu que os médicos são uns mercenários.

Sonho com o dia em que esta gente deixe de acordar com o social na boca e introverta um verdadeiro sentido de cidadania e serviço público. Ou que as escolhas dos portugueses recaiam em quem se preocupe genuinamente com a melhoria das condições de vida de todos nós, em vez de fazerem do jargão político e do bafio das tiradas sobre os interesses instalados a sua razão de existirem. Mas não parece ser fácil. Um dia destes acordamos a comer interesses instalados, grande capital e capitalistas. Se, entretanto, não tiverem desaparecido todos, claro. E aí, bem pode acontecer ficarmos todos a falar sozinhos.

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quinta-feira, janeiro 31, 2008

Equívocos



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Este homem não vai deixar saudades. De resto nada terá feito para que alguma vez dele se venha a sentir falta. Este homem é um equívoco, não representasse ele o partido mais equívoco da nossa vida política, que se fundou e instalou no país através de uma espécie de reciclagem de um mundo equívoco de ideias e doutrinas, estabelecidos por um punhado de pessoas, elas próprias declaradamente equívocas, a partir do momento em que, depois de se anicharem na utopia das sociedades totalitárias e igualitárias, acharam que estavam elas próprias equivocadas e se viram forçadas a meter na gaveta uma apreciável qualidade daquilo que achavam ser vertentes doutrinais intocáveis mas que acabaram por ir parar ao mofo das gavetas, sujeitas à naftalina pragmática de um necessário aggiornamento, se queriam manter o poder.

Sócrates é um bom exemplo desta via tortuosa e pouco recomendável. Com a substituição de Correia de Campos consegue ceder à rua, ceder a Alegre e, através de uma série de vacuidades, crucificar o homem que ele há poucas horas atrás apontava como modelo de aplicação das políticas do governo e que agora, ou leio mal ou ele aponta sub-repticiamente como o culpado do descontentamento das pessoas, ao mesmo tempo que garante que as políticas são para continuar e que , gritando, nenhuma urgência mais será fechada até que existam meios alternativos. Ouvido na TV sobre esta matéria o impacto é ainda mais descoroçoante.

Compreende-se e aceita-se que a política acomode caminhos ínvios e de ética duvidosa para se atingir determinados fins. Mas há um módico de bondade que tem necessariamente de ser resguardada. E, felizmente, há políticos que o conseguem fazer. Não necessariamente este homem. Um equívoco. Num partido tão equívoco como ele próprio. Para nosso mal.


E.T. Pela 1.000.000ª vez Isabel do Carmo está ali a falar na TV sobre obesidade. Pergunto-me a razão deste fenómeno. Como e porquê? Sobretudo, porquê, meu Deus, temos esta mulher ciclicamente na TV a falar de obesidade?
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