domingo, agosto 25, 2013

Saudades


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António Guterres comparado com Durão Barroso, deixou saudades. Durão comparado com Santana Lopes, deixou saudades. Santana comparado com José Sócrates, deixou saudades (bom, talvez aqui haja uma excepção que confirme a regra...). Sócrates, comparado com Passos Coelho, deixou saudades. António José Seguro, se tomar o poder, vai deixar-nos, quase de certeza, com saudades do Passos Coelho que hoje detestamos.

Pedro Tadeu faz aqui um capcioso exercício, tentando explicar porque é que, na sua opinião, os políticos são cada vez piores. Para isso socorre-se de uma sequência através da qual expõe uma corrente de saudades que, com toda a franqueza, pouca gente entenderá. Ele lá saberá como chegou à conclusão de que Sócrates deixou saudades a quem quer que seja, apesar de muitos terem que no-la demonstrar. Vá lá saber-se porquê…

Já agora, com a comunicação social que temos e com este tipo de critérios de análise, como a presente, um dia destes os jornalistas arriscam-se a que um político qualquer comece a enumerar quem deixa saudades a quem, em matéria de jornalismo.
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sábado, maio 28, 2011

Só para o pessoal amigo de Maputo



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Uma casa linda de morrer, esta, não é? Um doce para quem adivinhar que casa é. Uma ajudinha: Parque dos Continuadores… Embaixada da Holanda… bairro da Polana… ah, claro… e aquela pontinha lá no fundo é da Igreja da Polana, sim. Respostas na caixa de comentários.

Resta avisar que este desafio se destina aos amigos moçambicanos residentes por aqui. Os que lá estão serão, naturalmente excluídos.

Foto de Armando Luís

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sexta-feira, abril 22, 2011

João Maria Tudela



Fim de tarde em Maputo, uma das mais belas cidades do mundo. Clicar na foto.


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Kanimambo, João. E hambanini!

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terça-feira, março 08, 2011

Dedos


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Quase não damos por eles. Sabemos que eles lá estão e, subconscientemente, servem para alguma coisa. Nem eles são exactamente um prodígio de estética, pelo contrário, podem ser longos, curtos, gordos, ossudos, peludos ou carecas. Por isso não são adornos. Limitam-se a estar. A existir e a complementar uma infinitude de tarefas que o nosso corpo lhes ordena. E, todavia, cumprem a sua missão com desvelo e competência. Segurando um copo ou uma caneta, rodando uma chave, executando um milhão de tarefas que lhes são pedidas. Porque a vida exige do nosso corpo um milhão de tarefas que automaticamente transmitimos aos dedos, dos quais esperamos a competência desejável.

Também o espírito sabe que pode confiar neles. Todos os fluidos energéticos, sentimentos mais ou menos indefiníveis, sensações voluptuosas e caprichos de amor como o carinho, a carícia, o mimo e a magia do toque da pele são transmitidos aos dedos que, com sabedoria e comunhão de sentimentos, cumprem a sua nobre tarefa. É aqui que os dedos adquirem quiçá o maior grau de cumplicidade com o todo e se tornam dele parte integrante, em vez de serem marginalmente sectorizados de acordo com a missão que lhes é pedida. É neste particular, o particular do amor e dos sentidos que lhe são inerentes, que os dedos se tornam todo e não parte. E actuam com a harmonia de uma orquestra, acariciam com o veludo dos sentimentos mais nobres que guardamos para as ocasiões especiais e se movimentam à medida que as exigências vão surgindo, percorrendo os corpos e neles prescrutando relevos, vales ou protuberâncias ou descobrindo segredos erógenos muitas vezes escondidos ou mesmo esquecidos e sublimados pelo tempo e vicissitudes da vida.

É pena que nessas alturas não lhes demos o devido valor. Passa a magia do momento e os dedos voltam a ser usados para descascar uma laranja, calçar um sapato ou apontar uma direcção. Ou mesmo para matraquear um teclado de um laptop e dele extrair esta reflexão simples, mas nem por isso menos sentida, para que ela possa vencer distâncias e pousar bem longe, noutro lugar mas, mesmo assim, tão perto da recordação que os dedos, submissos e parte de nós, nos trazem e nos aquecem numa manhã invernosa e chuvisquenta como a de hoje.
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quarta-feira, novembro 10, 2010

«...The very city by the sea...»




Fotos de Eqbal Cassamo clicar nas fotos para aumentar

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123º aniversário de Maputo. Uma das cidades mais bonitas do mundo, por muito estranha que esta afirmação possa parecer. Aqui caldeei uns anos da minha vida com as idiossincrasias próprias de uma urbe onde o snobismo de uma camada de expatriados saltitava por entre as múltiplas demandas e funções sociais e se entrosava com a magia da paisagem única dos sítios e das gentes que a compunham. Por isso não me é possível alguma vez esquecer esta cidade que é «…alegre como a chita, tem a graça e tem o tique do sorriso de mulher…» !

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domingo, setembro 12, 2010

Ai que saudades, ai, ai...

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Uma cena deliciosa do filme 27 dresses, uma comediazinha de fim-de-semana, em que Jane e Kevin (Katherine Heigl e James Marsden) "partem a cantareira" e cantam o "Bennie and the Jets".

A qualidade do som não é boa mas a cena é deliciosa e fez-me logo ocorrer um pensamento com que tropecei algures na net, segundo o qual "Inside every old person is a younger person wondering what the fuck hapenned". Sobretudo quando nos lembramos de ter tido uma cena idêntica no saudoso "Moose Head" em Rosebank, Johannesburg, após um inesperado caudal de cerveja que saltou o leito de cheia. Menos o beijo, que éramos vários e mal nos conhecíamos entre nós. Ai que saudades, ai, ai…

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quinta-feira, setembro 09, 2010

Another day is dawning...


Baía de Maputo - Nascer do sol, 6 de Setembro de 2010. Foto de José Pepe
clicar na foto para ver melhor

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Que o hemisfério sul nos oferece o espectáculo grandioso e inesquecível dos seus céus, através da magia nas cores e contrastes do azul com o branco das nuvens em castelos de arquitectura improvável e do vermelho fogo dos ocasos e auroras já muitos de nós sabíamos. Apesar de tudo eu, que vivi o céu austral durante alguns anos e me familiarizei com a fantástica harmonia e beleza das cores e das formas sempre descobri qualquer coisa de novo. O céu é um pouco como o mar. Nós podemos sair para o mar ou contemplar o céu milhares de vezes, mas em cada uma delas há sempre um motivo diferente, um efeito que desconhecíamos, um pormenor que nos passou, como se o encenador se deleitasse em nos oferecer todos os dias um espectáculo diferente.

Vi vários céus africanos no hemisfério sul. Mas lembro-me bem do céu moçambicano. E recordo que Moçambique tinha o segredo do imprevisto e do desconhecido que nos era enviado das alturas por uma energia especial, que nos fazia arrumar na gaveta ímpia das nossas convicções existenciais as mais lógicas e profanas teorias de evolucionismo e acreditar, por um momento que fosse, num deus como entidade única capaz de nos proporcionar espectáculos da maravilhosa grandeza que o céu moçambicano nos oferece. Porque vi e recordo a calmaria azul e bonançosa de um céu imaculado, tanto quanto me lembro das borrascas impiedosas capazes de destruir coisas e de matar gentes e que pareciam anunciar o fim do mundo. Vi trovoadas medonhas, quer pelos ribombar de descargas ensurdecedoras, quer pela sucessão contínua de relâmpagos que faziam da noite dia, por vários minutos seguidos. Vi ocasos e auroras. Solenes, majestosos, de magia improvável de ser cabalmente descrita, sempre pintados de vermelho de fogo e que nos faziam sentir pequeninos na nossa insignificância, perante tão magnificentes espectáculos. Por isso reparei nesta foto. Esta foto é de um nascer do sol em Maputo… onde mais poderia ser? Uma foto tirada por alguém que não conheço e a quem peço antecipadamente desculpa por abusivamente a ter publicado neste blogue. Mas «tropecei» com ela e não resisti. Uma foto lindíssima, ao que parece obtida com uma vulgar câmara e, de certeza, tirada de um ponto elevado. Basta reparar na altura do nível das águas da baía de Maputo. Por isso atrevo-me a dizer que a foto só pode ter sido tirada de um dos quartos do Polana-Mar, das traseiras de um dos prédios da Julyus Nyerere ou de varanda de uma das casas da Friedrich Engels. E reparei na foto porque, para além da sua extraordinária beleza, me recordo, com saudade, das vezes em que saía do clube naval ainda sem sol, apenas com a claridade a anunciá-lo, até obter o efeito e o cenário desta foto, já por alturas de meio caminho entre o clube e o Baixo Danae, normalmente o meu destino para pesca desportiva.

Este post reserva ainda um sentimento cúmplice pela sensibilidade daqueles que sabem ser felizes. De felicidades antigas ou recentes. Mas felizes.

Nota: Acabei de descobrir que a foto foi tirada há dias, no dia 6 de Setembro de 2010 e é de José Pepe, que eu não conheço e a quem peço desculpa pelo abuso. Se por acaso não concordar com a inserção da foto é só dizer e retiro-a de imediato.

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quinta-feira, junho 26, 2008

Só um bocadinho de saudade, de vez em quando


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Roubei esta foto à Ana, do blog dela. Por nenhuma razão especial. Talvez porque me fez lembrar a neblina e o frio de algumas manhãs de vários Junhos que vivi em Maputo. E porque diariamente passava por ali.

E deu-me a saudade. E quando a saudade bate à porta não faz mal nenhum deixá-la entrar e pô-la à vontade, como se estivesse em casa. Porque ela é boa companhia, é bom estar com a saudade de vez em quando e deixá-la tomar o rumo das recordações da forma que mais lhe aprouver. Mas depois convém convidá-la, a saudade, delicadamente a sair. Que é o que estou a fazer neste momento, porque são horas de ir trabalhar.

Tenho o privilégio de continuar a usar diariamente uma marginal. Igualmente bonita e, como a outra, frequentemente assolada por brumas e cinzentos. Mas faltam os coqueiros. Provavelmente é neles que residem a cor, os cheiros e os sabores tropicais. No meu trajecto actual há umas palmeiras ali para Oeiras. Mas não cheiram nem sabem a nada…

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sábado, março 15, 2008

A tal saudade


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Não conheço pessoalmente o Miguel Castelo Branco, mas sei do que ele fala. Porque também eu, por opção, me libertei da Europa quando precisei dela e ela me fez caretas que desagradaram profundamente e me fizeram repudiá-la. Como ele, olhava de soslaio o que o Expresso e os jornais desportivos me mostravam, fresquinhos de quarenta e oito horas e não lia os blogues porque ainda não os havia. E julgava que me ia esquecendo dos cheiros de Lisboa, do ministro das colheitas, do reposteiro-mor e preboste que comanda a guarda e, realmente, tudo estava longe do coração e dos olhos. Saía do trabalho e entrava nos restaurantes para comer camarões, caranguejos, caris de muitas cores e sabores, matapas e galinhas assadas ou a nadar em molhos esquisitos com amendoim e gengibre, ou inhames e quiabos e nada de bacalhaus com batatas nem pão de côdea rija e o vinho raramente era português. Voltava a casa e, como ele, mergulhava na tepidez duma piscina e respirava em trinta graus.

Curiosamente nunca me esqueci daquilo que eu julgava que queria esquecer. Percebi-o quando me instalei em definitivo em Lisboa e reparei que os tais cheiros, carrancas crispadas e maus modos e tudo aquilo que na altura me fez saltar borda fora me era estranhamente familiar. E como essa pequenez e mesquinha atmosferazinha do português se diluía num sentimento de pertença que vez alguma eu sentira enquanto andei pelos tais trinta graus e exotismo tropicais.

A minha impressão é que Miguel Castelo Branco não quer e, provavelmente, não repara, mas está roidinho de saudades. É um dos insondáveis mistérios destes pouco menos que 90.000 km2.

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sábado, setembro 22, 2007

Porque hoje é Sábado. África do Sul - Tantos países num só ( 4 )

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Johannesburg - Fordsburg, saída para sul e Noroeste.



N1, uma das três auto-estradas que ligam Johannesburg a Pretoria.



Soweto, emblema da luta e conspiração contra o apartheid, cidade com mais de um milhão de habitantes e localizada na N1 South em direcção a Bloemfontein, pouco depois do grande SouthGate.



Sandton, cidade nova que "resultou" da turbulência gerada no período de transição pós apartheid, fenómeno que provocou o abandono de grandes espaços de imobiliário em Johannesburg-central, pela transferência dos escritórios de milhares de empresas para os subúrbios do Norte. Isso provocou um autêntico boom em equipamentos acessórios, restaurantes, hotéis, centros cmerciais, etc..



Sandton (Bryanston) - residential.



Durban, Natal - vista aérea. Visível, ao fundo Wilson's Wharf (antiga estação de tratamento de baleias), o Natal Royal Yacht Club em Victoria Embankment e Addington, onde se situa a escola (e um hospital) do mesmo nome, onde andou Teresa Kerry e duas criancinhas deste vosso criado.



Pietermaritzburg, muito perto de Durban, cerca de 100 km, e realmente a capital do Natal, e não Durban como muita gente imagina. É a mais inglesa das cidades sul-africanas, sendo mesmo considerada o último bastião do Império Britânico, tanto por admiradores como pelos seus detractores. É uma cidade lindíssima, maioritariamete construída a tijolo vermelho em estilo Victoriano, sendo de realçar um interessante monumento ao Mahatma Ghandi no local exacto onde ele foi preso por se ter instalado numa carruagem de comboio destinada a brancos.

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sábado, setembro 15, 2007

Porque hoje é Sábado. África do Sul - Tantos países num só ( 3 )


Cape Agulhas - Vista a partir da colina dominante . Note-se, ao fundo, o margo geodésico que assinala o ponto exacto do "southernest point" of the african continent!

[2012]

Cape Agulhas. – Na realidade o ponto mais a sul do continente africano, contrariamente à noção generalizada de que é o Cabo da Boa Esperança que detém esse título.

O Cabo Agulhas (nome dado pelos portugueses devido aos múltiplos recifes e rochedos que abundam naquela zona) situa-se a 34º49’ S e 020º00’E e marca realmente a divisão entre os Oceanos Índico e o Atlântico. É uma região de ventos fortíssimos e onde as águas frias da corrente circumpolar antárctica confluem com as águas mais quentes da corrente agulhas, oriunda do Canal de Moçambique, provocando tempestades frequentes e ondas gigantescas que segundo a crença popular podem atingir os trinta metros.

Cape Agulhas é uma pequena vila maioritariamente formada por pescadores. Apenas 6% da população é negra e imigrada dos territórios bantus mais a norte.

Cape Agulhas é ponto obrigatório de passagem para os privilegiados que fizeram ou farão ainda a célebre Garden Route, uma das estradas mais bonitas do mundo e que parte de CapeTown para Somerset West, Strand, Gordon’s Bay, Hermanus, Mossel Bay, Knysna, até à Wild (ou Skeleton) Coast.




Quem não desejou já ter uma casa na árvore como nas histórias de escuteiros?
Mala-Mala game reserve, bungalow.


Existem algumas dezenas de reservas privadas no Kruger Park, aquele pedaço de paraíso entre a África do Sul e Moçambique.

Conheci algumas e de todas a que mais gostei foi a de Mshlabanyhati mas, infelizmente, não encontrei qualquer registo na net.

De qualquer forma, Mala-Mala é talvez a maior e mais conhecida. Estende-se por 16.000 hectares e acompanha o Sand River por alguns quilómetros. Tem early morning e dusk safari em jipes abertos e guias experimentados. É uma região muito rica em carnívoros, sendo relativamente fácil assistir à caçada de um javali ou grande antílope por leões.

A uma hora de voo de Johannesburg e a meia hora de voo de Maputo e a preços razoáveis, Mala-Mala bem poderia competir com as Puntacanas do nosso descontentamento

Nota: Clicar em ambas as fotos para ver melhor

ADENDA: De Brisbane chega-me uma correcção. Uma amiga que conhece a RSA tão bem ou melhor do que eu chamou-me a atenção para o facto de a Skeleton Coast se situar no Atlântico e não no Índico. E eu, careca de saber mas cada vez mais descuidado na forma como descrevo coisas, agarrei na Wild Coast e na Skeleton Coast e meti tudo no mesmo saco. Um beijinho para a D e obrigado pelo cuidado.
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sábado, setembro 08, 2007

Porque hoje é Sábado – África do Sul. Tantos países num só ( 2 )



[2003]

Pilgrim’s Rest, Mpumalanga (antigo Eastern Transvaal).

Vila-museu que deve o seu nome ao facto de muitos exploradores de ouro de aluvião ali se terem fixado, após muitos anos de desilusão e depois de Alec Patterson ter descoberto o desejado metal pela primera vez em 1873. No fim desse ano haveria já mais de 1500 exploradores a fazerem extracção.


Cape Town, Cape province

Muitos estudiosos se dividem entre o Rio de Janeiro e Cape Town na atribuição do título de mais bela cidade do mundo.
Na foto, a Water Front em primeiro plano, onde foi instalado um excelente centro comercial há cerca de 12 anos e, ao fundo, a imponente Table Mountain


Clicar em ambas as fotos para ver melhor.

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sábado, setembro 01, 2007

Porque hoje é Sábado - África do Sul. Tantos países num só ( 1 )

[1984]

E quando a chuva se esquece que o Karoo é um deserto e resolve deixar-se cair?


Deserto do Karoo, África do Sul. Outubro, 2006

E quando a neve do Inverno das montanhas do Drakensberg se derrete, vira as costas ao Reino do Lesotho e procura caminho para o rio Tugela?


Cordilheira do Drakensberg

Natal, África do Sul
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domingo, agosto 26, 2007

Marinheiro Judas



Fantasminha, versão saudade
[1972]

A propósito da imagem do post anterior, lembrei-me do Judas. Era o meu marinheiro no Clube Naval de Maputo e chamava-se Marinheiro Judas. Sério, quem quer que lhe perguntasse o nome ele dizia: - Marinheiro Judas. De modo que ninguém sabia quem era o Judas mas toda a gente minimamente ligada aos barcos sabia quem era o Marinheiro Judas.

O Judas tomava-me conta do barco durante todos os anos que por lá trabalhei. Punha o barco na água, içava o barco da água, lavava-o e arrumava com desvelo os apetrechos de pesca, as canas e as rapalas, as colheres, penas e "teasers", limpava e mantinha os molinetes, arrumava as gavetas. Os coletes, os skis, as bóias, os picheiros, a “aspirina”, os rádios, enfim, toda a parafernália necessária a um fim-de-semana seguro. Em troca eu pagava-lhe uma quantia em dinheiro todos os meses. Dava-lhe ainda géneros alimentícios, roupa e por várias vezes fui dar injecções a uma das três mulheres que ele mantinha no Polana Caniço. Eu não sou enfermeiro, mas dar injecções foi coisa que aprendi na tropa. Quando não andávamos "a massacrar populações indefesas", a gente lá ia tratando os sobreviventes dos massacres dos outros. Os que roubavam e matavam nas aldeias para depois me matarem a mim, mas isso são contas de outro rosário que não vêm agora ao caso.

Durante muito anos, tive, assim, uma forte ligação ao Marinheiro Judas. Eu acho que ele era um homem feliz. Curiosamente, era um homem que sabia mais de mim que muita gente. Mas, voltando ao boneco do post anterior, só vi o Judas uma vez chateado. Calado, resmungão, triste, quase não falava comigo. Um dia perguntei-lhe mesmo que raio se andava a passar com ele e ele diz-me que toda a gente no Clube o andava a gozar porque eu tinha posto duas fotos dele coladas em cada um dos painéis laterais da cabine!

O Judas era gordo e as fotos eram nem mais nem menos que dois autocolantes do fantasma do Ghostbusters, exactamente este da imagem acima, que eu tinha comprado e, realmente, colado nos painéis exteriores da cabine. E o Judas não suportava mais a galhofa dos colegas até, porque, na verdade, havia uma vaga semelhança entre ele e o fantasminha.

Não tive coragem para continuar a contribuir para a infelicidade do Marinheiro Judas. Eu gostava dos bonecos, mas arranquei-os e deitei-os fora. E o Marinheiro Judas voltou a ser um homem feliz. Pelo menos até há dias, porque acabou de morrer. Não sei bem de quê, porque ele ainda era novo, devia andar por volta dos cinquenta. Apenas me chegou a notícia de que morreu. E, com ele, partiu uma personagem que fez parte da minha vida durante alguns anos. Que me apreciava e defendia até aos dentes. Para ele, o “Fame” (assim se chamava o barco) era o mais bonito de todos os barcos do Clube e eu era o melhor pescador.

Que descanse em paz!

ADENDA: tenho um diploma de honra que me foi concedido pelo Gabinete de Acção contra as Calamidades Naturais do Governo de Moçambique por ter contribuído para o salvamento de muita gente, quando de uma depressão tropical que assolou Maputo (Domoina) e fez transbordar os rios e matou muita gente. Fomos de barco e o Marinheiro Judas foi comigo, claro. Verdadeiramente, o mérito foi dele. Eu conduzia o barco e ele é que gritava para as mulheres, crianças e velhos empoleirados nas copas das árvores para saltarem para dentro do barco. Mas é como tudo na vida. No fim, quem recebeu o diploma e o prémio fui eu. Claro que fiz uma falsificação grosseira do documento através de uma fotocópia, acrescentei o nome dele e dei-lhe o prémio a ele. Ele mereceu-o, muito mais do que eu.


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segunda-feira, março 26, 2007

Em Maputo, eu me sinto bem...



[1649]

Depois da desgraça, e para descomprimir, um vídeo da Maputo bonita e que faz saudades.

Vídeo dedicado à
Madalena, à Laura e à Isabella.


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