quarta-feira, setembro 22, 2010

Isto está a tornar-se patético


[3907]

Passa hoje mais um dia europeu sem carros. Mas isto de não usar o carro é uma maçada. Assim sendo, este ano as Câmaras decidiram não fechar as ruas, ou seja, toda a gente pode levar o carro. «Quer-se dizer», é dia europeu sem carros mas com carros, o que marca uma nova era no substrato ecológico de todo o europeu que se preze. Celebra-se qualquer coisa que soe bem, mas não se pratica porque não dá muito jeito. Mal comparado, é assim uma espécie de estarmos de dieta mas mandarmos vir um cozido porque estamos cheios de fome.

Francisco Ferreira, da Quercus, com aquele ar ecológico, verde e saudável e de correcção a régua e esquadro, Deus lhe perdoe, não se eximiu também de comunicar aos cidadãos que isto dos carros é uma chatice. É o CO2, é o stress é aquela lista enorme de malfeitorias dos carros. Portanto, vou-me meter no carro e vou para Lisboa celebrar o «dia europeu sem carros» e pensar que é por estas e por outras que pouca gente liga já às patetices em uso corrente.

E.T. Podemos levar os carros mas não escapamos a uma série de pérolas. Ainda agora ali está no «Bom dia Portugal» um senhor bem «apessoado» com uma daquelas gravatas instituídas e aprovadas como adorno nacional, entenda-se lisas e de cor única, do Montijo, a anunciar actividades durante o dia, como demonstração de carros a pedais (eu seja ceguinho), insufláveis (não consegui perceber bem o que era aquilo ou para que serviam) e apelos ao uso das ciclovias, das bicicletas e anunciando que estes dias sem carros têm um grande impacto no ambiente e na mobilidade inteligente, seja o que for que a «mobilidade inteligente» signifique. O que esta gente arranja é que vou sentar-me no carro, meto a primeira e vou sentir-me móvel… mas profundamente estúpido. Ah! Esperem…estão para ali a dizer que esta madrugada houve «skates» no túnel do Marquês, também. E está ali uma senhora com um «skate» na mão dizendo, em directo, que passou uma noite muito engraçada e muito dinâmica (SIC). Mudam-se os tempos, mudam-se os conceitos de uma noite engraçada e dinâmica.

Que Deus nos cubra de bençãos.

.

Etiquetas: ,

terça-feira, setembro 22, 2009

Atropelado no dia sem carros


[3369]

Já uma vez solenemente o afirmei. Sou um homem azarado. Aquele tipo de gajo que quando o meu barco chegar, eu estarei no Aeroporto. Vale-me não ser supersticioso e ter raiva a quem é. Por isso tanto me faz ter estatuetas de elefante em casa com a tromba para cima como para baixo, passo distraidamente por um gato preto e, sem querer, parto espelhos e passo sob escadotes. Jamais dou uma volta a uma cadeira antes de me sentar e é-me absolutamente indiferente sentar-me a uma mesa de 13. Entro com o pé esquerdo onde tiver de entrar e sei que os azares que tenho são contrabalançados com uma grande sorte na vida. Ser sãozinho de corpo e espírito, amar muito os que me são queridos e saber como eles me amam também. No fundo trata-se de saber amar, apesar da Leonor Coutinho me querer aumentar a dose desde que, naturalmente, vote nela para a câmara da terra onde tenho a sorte (lá está) de viver.

Mas nada disso muda o essencial. E o essencial é que sou azarado. Acontecem-me as coisas mais mirabolantes, algumas delas que, contadas, não se acredita. E de todas elas, talvez a mais bizarra me tenha acontecido hoje. Fui abalroado por um carro no «dia sem carros». Acorda uma pessoa politicamente correctinha que é um regalo de se ver. Vai de comboio para o Cais do Sodré, apanha o eléctrico (olha, eléctrico ainda leva ‘C’, os especialistas devem andar distraídos) para a Lapa e, ao sair do eléctrico, leva com uma pancada do espelho do carro de um energúmeno que não se dignou, sequer, parar. Caí o suficiente para ficar sentado no passeio e motivar um fluxo de gente para saber se estava tudo bem (ao mesmo tempo que me contavam como também já tinham sido atropelados, é uma coisa a que o português genuíno não consegue furtar-se, contar como também já lhe aconteceu a ele, seja o que for), o que é uma coisa que me irrita um bocadinho porque me faz lembrar os velhinhos que caem e que apanham com um grupo de boas vontades para o levantar do chão.

E é assim que me levanto para mostrar a toda a gente que estava tudo em su sítio e limitei-me a insultar mentalmente a mãe do condutor do Corsa branco de rede ao meio que, entretanto, desapareceu.

A história não passa disto e não estou ferido nem magoado, mas o essencial ficou. O azar de ser atropelado no dia europeu sem carros, que é um coisa que eu julgava que já tinha acabado e se resumia, eventualmente, a alguma fotografia avulsa no escritório do Al Gore ou do senhor Ferreira da Quercus. O dia em que eu julgava que o único carro a circular em Lisboa era o Porche do Pedro Couceiro a fazer uma corrida com António Costa, que corria de metro. António Costa ganhou, claro. Mas o atropelado fui eu.

Adenda: Afinal, ganhou um Sousa, de bicicleta. Nem taxi, nem Porche, nem mesmo o metro. Bicla é que é. Pelo menos pela Avenida da Liberdade abaixo.
.

Etiquetas: ,

segunda-feira, setembro 22, 2008

As rampas de Sintra e o plano do Zé


Vá! Tudo para o trabalho, sem carros.

[2678]


Mais um dia europeu sem carros.

Desta vez a RTP esmerou-se e no "Bom Dia Portugal" já me comunicou por três vezes que Mário Soares costumava andar de bicicleta (imagine-se). Já andou nas Seichelles (e eu pensando que ele só tinha andado de tartaruga) e em Sintra. Instado sobre o assunto, Mário Soares disse ser um aficionado (termo dele) das bicicletas mas que em Sintra é um bocadinho complicado, por causa das subidas e das descidas (imagine-se, outra vez).

Já noutro local, o “Zé que nos fazia uma falta tremenda” anunciou-nos a abertura da pista que vai do C. do Sodré a Alcântara. Mas que vai haver mais. Um jornalista pressuroso perguntou-lhe, enigmático: Mas é o plano? É o plano, disse o “Zé que nos fazia uma falta tremenda”.

Com campanhas destas, germina e floresce em mim uma vontade incontrolável de pegar no carro e só o largar logo bem à noitinha, depois de emitir uma data de CO2. Não há verdadeiramente pachorra para tanta cretinice!
.

Etiquetas: ,

sábado, setembro 22, 2007

Patético



[2030]

Duas peças no telejornal de há pouco ilustram bem o destempero em que voluntária e conscientemente mergulhamos, na obsessiva pulsão que parece conduzir a sociedade para uma existência patética, mascarada de assepsia e moral de bons costumes. Numa das peças, era visível o caos a que Lisboa foi sujeita por causa de mais um dos abomináveis dias sem carros. Atropelos, confusões, nervos em franja, buzinas, muitas das artérias vitais da cidade completamente bloqueadas enquanto duas ou três dúzias de patuscos brincavam e saltavam na Avenida da Liberdade e outras tantas, menos, pedalavam pela avenida abaixo. Parece que a cena se repetia na Almirante Reis, no Terreiro do Paço e daqui até Santa Apolónia. De notar, porém que aos repórteres, os condutores das viaturas entaladas pareciam ter medo de dizer que tudo aquilo era um desconforto e prejuízo tremendos, parecendo querer concordar com a medida e esboçando sorrisos amarelos e cúmplices.

Noutra peça, um par de pais que em tempo resolvera oferecer um brinquedo de guerra a um filho, resolveu comparecer a uma espécie de cerimónia patrocinada pela Amnistia Internacional, onde se trocavam brinquedos de guerra por outro tipo de brinquedos que proporcionassem às crianças uma visão mais pacifista do mundo. E lá apareceram os pais pressurosos na reportagem, os mesmos que teriam oferecido uma metralhadora ao filho, na bicha para a troca. O que é patético na coisa é que até se admite que um pai se arrependa de ter oferecido uma pistola de brinquedo a um filho, mas aquela expressão de vítima, destes tempos belicosos e perigosos instigados por um desenfreado consumismo, que os pais circunstancialmente afivelam é que nos leva a pensar que o tempo presente é, realmente, perigoso. Não porque seja particularmente belicoso, mas porque se revela cada vez mais patético.

.

Etiquetas: ,