quinta-feira, janeiro 28, 2016

Sarar as feridas?



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Nunca apreciei o estilo de Sampaio. Sempre o tive por um homem culto e íntegro (lamento ter de enaltecer cultura e a integridade como qualidades de referência no meu país, mas as coisas são como são) mas tenho um trauma de juventude, qual seja o de ter ouvido uma longa conversa no bar do Hotel Florida entre ele e outros socialistas e que na altura me pareceram fortemente eivadas de utopia. Mas eu era um jovem e na verdade, que sabia eu de política progressista? Com o tempo fui podendo fazer uma desejável adequação do estilo e da substância daquele tipo de verve socialista e alguns anos depois apercebi-me que a utopia transvasava a estupidez para se tornar trágica.

Esta nota para dizer que não gosto da «proa» de Sampaio. E, no meu entender, o seu consulado na Presidência reflectiu exactamente a opinião que eu fui formando do homem, à medida que fui fazendo a tal adequação de estilos e conteúdos da célebre conversa que eu ouvira no Florida, seguramente há quarenta anos atrás.

Mas hoje, Sampaio, «acha» que Marcelo pode ser um bom estadista. Para além do paternalismo da asserção, o que noto é esta atitude corrente e generalizada, consubstanciada na ideia de que o importante agora é corrigir este clima de crispação e da necessidade de sarar feridas. Repare-se:

Terá esta omnisciente classe consciência de que as feridas foram eles que as abriram? Lembrar-se-ão de que foram os socialistas que ciclicamente nos remeteram para uma situação de indigência e que, não obstante, insistem em manobras diletantes e irresponsáveis que, como agora se verifica, nos levam à ruína de novo e nos colocam num conceito ridículo e embaraçoso perante o concerto europeu?

Costa e sequazes são responsáveis pela inevitável tragédia que se perfila, de novo, no horizonte de curto a médio prazo. Todavia, à semelhança da opinião de Jorge Sampaio, é recorrente ouvir a asserção de que é preciso sarar feridas. Não oiço é nada sobre quem insiste em nos infligir estas feridas. Nem de como o evitar.



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quinta-feira, maio 05, 2011

De repente temos autarquias a mais



Jorge Sampaio promovendo a aliança de civilizações no Irão em 2008, numa altura em qua ainda não se lembrava que tínhamos 308 autarquias


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Os socialistas encartados têm o péssimo hábito de se esquecerem de coisas importantes que vão dizendo ao longo dos tempos ou, pior, não têm a mínima noção do que dizem e vão dizendo, à medida das conveniências e do sabor e da fragrância dos ideais com que vão anestesiando o rebanho. Alguma dessa rapaziada é até bem intencionada, acha que é como dizem. O problema é quando percebem que não é nada daquilo e, então, não têm qualquer pejo em gritar o contrário (o socialista, normalmente, não fala, grita, um grito assente na razão que lhes advém da superioridade moral, destreza intelectual e a habitual dificuldade ou impossibilidade de conviver com a liberdade, por muito herética que esta formação possa merecer).

Isto a propósito da correria que, de repente, vai por aí com uma das recomendações da «troika», qual seja a de reduzir o número de freguesias e concelhos. Jorge Sampaio, que para além da tuberculose e da aliança das civilizações percebe imenso de autarquias, veio já a lume falar da necessidade imperiosa e urgente de reduzir o número de autarquias. E a TSF deu-lhe os quilociclos necessários para que ele produzisse uma alocução didáctica (e paciente, notava-se...) sobre o excesso das nossas 308 autarquias e uns quantos milhares de freguesias.

Longe vão os tempos em que o rebanho era martelado com a ideia de que o poder estava finalmente nas mãos do povo e a tropilha socialista polvilhou o território com uma miríade de freguesias e concelhos. Agora acham que são demais…

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segunda-feira, abril 04, 2011

Ah! Ah! Ah! Ah!


Mário Soares, capa do Expresso, 1983


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Há dois ou três dias ouvi um «diligente» apontamento de reportagem da nossa comunicação social. Nele, Mário Soares, tido pela maioria da comunicação social como o homem a quem provavelmente Portugal mais deve, galhofava (é o termo, não sei se existe, mas o sentido era esse), desdramatizando pedagogicamente a muito provável intervenção do FMI em Portugal. E dizia ele, com a jactância habitual, cito de memória:

- E eu, quando fui primeiro ministro por duas vezes tive o FMI em Portugal. Não há que ter medo medo do FMI. Eu não tive. Lembro-me bem de uma vez até em que um dos meus ministros me telefonou às duas da manhã e me disse, com um ar muito grave, que desta vez não escapávamos, o FMI tinha de vir deitar mão a isto. E eu disse-lhe: -Ó homem, pronto, que dor de cabeça que vamos ter amanhã. E agora deixe-me dormir.

Reacção dos jornalistas:

- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah

Deve ter sido a partir desta altura que Jorge Sampaio resolveu «intelectualizar» o desiderato, compondo a frase que duas décadas mais tarde fez escola: - Há vida para além do défice.

Estamos bem entregues!

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domingo, outubro 25, 2009

Há vida para além do défice (de maioria parlamentar)


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Sampaio deu mais uma entrevista à TSF. É extraordinário como um homem que dissolveu um governo maioritário (bom ou mau, não é o que interessa e muitos aguardam ainda que ele explique razoavelmente porque o fez) se aflige agora tanto com a minoria socialista que pode pôr em risco a sobrevivência dos socialistas – hoje por hoje os únicos com competência e engenho para governar.

Sabe-se como a esquerda convive mal com o pluralismo e Sampaio não é excepção. Por isso, expressões como a que referiu que é preciso que os governos minoritários tenham protecção constitucional e, por isso defende que a próxima revisão da lei fundamental, que vai acontecer nesta legislatura, considere a moção de censura construtiva dizem bem da estirpe e pensamento desta clique que, por várias razões a que não é estranha uma total incompetência da oposição, se acha indispensável e insubstituível, por força de um currículo que, no seu entender, lhes consigna a condição de donos da democracia.

Sampaio tem de deixar funcionar a democracia. E deixar-se de reflexões paternalistas. Fosse a nossa situação política a inversa do que se refere e teríamos os socialistas todos a cantar o derrube da maioria e as virtualidades dos governos de minoria (como alias já ouvi, amiúde, por aí, como Soares e Alegre, por exemplo). Mas Sampaio não deixa. Se o socialismo (o poder) está em perigo, altera-se a constituição. E ainda ninguém percebeu que a alterar-se a constituição deveria ser exactamente para retirar o socialismo do seu conteúdo.

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quinta-feira, março 26, 2009

O fado do enfado de Jorge Sampaio


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Do Brasil chega o som do enfado de Jorge Sampaio, por força da vanidade das notícias que lhe chegaram ao Brasil, sobre a Pátria. Porque durante quatro dias só ouviu falar do penalti ao Sporting e do Provedor de Justiça, disse ele sem chorar.

É muito irritante a forma apessoada e de presumido lustro intelectual como Jorge Sampaio se expressa. Não falo da sua habitual inextricabilidade, a sua "complexidade linguística no arredondamento do conteúdo", falando ele de penaltis do Sporting, do tempo, ou dos mais delicados assuntos de Estado. Mas antes da sobranceria que imprime a tudo o que diz. A mesma, afinal, que usou, enquanto Presidente da República, quando a lana-caprina corrente lhe dava jeito e espaço para congeminar acções de grande relevância na vida política nacional. Como se viu, afinal.

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