O costume

[4325]
Há poucos anos atrás estudava-se os substantivos comuns de dois e os epicenos. Não estou certo que isso hoje ainda se faça, a avaliar pela forma como hoje se fala e dos humores dos furiosos dos acordos ortográficos.
Isto a propósito da eleição de Assunção Esteves para presidente da Assembleia da República, e a nossa comunicação social e os nossos comentadores terem enxameado o éter com presidentes e presidentas. Um despropósito que eu levo à conta de dois factores princiais – a ignorância pura e dura e a pulsão incontrolada do politicamente correcto.
Não sei se existe uma lista dos nomes comuns de dois (a língua francesa, por exemplo, tem uma lista completa dos femininos irregulares...), mas sei que muitos deles se mantiveram ao longo dos anos até começarem a ser adulterados, como o caso da juíza que, de repente, tem honras de completa generalização e de constar na maioria dos dicionários como tal. Já presidenta é coisa mais recente, pelo que não deveriam restar dúvidas que presidenta é uma designação incorrecta. Apesar de uma doutoranda em Português, brasileira, ter sido entrevistada por uma televisão e afirmado que presidenta é um termo correcto. E porquê, perguntaríamos nós? Porque, disse ela, se um presidente for uma mulher, então deve ser presidenta (convenhamos que para argumento de um doutorando a coisa está assim para o fraquinho e inquinada!). Do que ouvi, nenhum jornalista lhe perguntou se uma senhora numa sala de espera de um médico é uma pacienta ou se uma mulher intérprete de línguas é uma intérpreta ou se as raparigas passaram a ser estudantas. Mas já estou habituado à pobreza franciscana dos nossos agentes de comunicação social.
Apesar de tudo parece que o bom senso imperou e a maioria designou Assunção como presidente. E assim é que deve ser. A menos que aconteça aos presidentes o que aconteceu aos juízes, já que juíza passou a constar em grande parte dos dicionários e já quase ninguém o discute.
PS – Um abraço a um amigo que tem uma noção pós-moderna do português, i.e. sabe os termos correctos, mas é apologista de uma forma de falar confortável e entendível, assim tipo o Natal é quando nós quisermos. Ele acha que se pedir trezentos gramas de fiambre numa charcutaria não entendem e trezentas dá muito mais jeito de articular.
.
Etiquetas: a arte de falar mal, modas e vícios de linguagem





