quinta-feira, junho 23, 2011

O costume





[4325]

Há poucos anos atrás estudava-se os substantivos comuns de dois e os epicenos. Não estou certo que isso hoje ainda se faça, a avaliar pela forma como hoje se fala e dos humores dos furiosos dos acordos ortográficos.

Isto a propósito da eleição de Assunção Esteves para presidente da Assembleia da República, e a nossa comunicação social e os nossos comentadores terem enxameado o éter com presidentes e presidentas. Um despropósito que eu levo à conta de dois factores princiais – a ignorância pura e dura e a pulsão incontrolada do politicamente correcto.

Não sei se existe uma lista dos nomes comuns de dois (a língua francesa, por exemplo, tem uma lista completa dos femininos irregulares...), mas sei que muitos deles se mantiveram ao longo dos anos até começarem a ser adulterados, como o caso da juíza que, de repente, tem honras de completa generalização e de constar na maioria dos dicionários como tal. Já presidenta é coisa mais recente, pelo que não deveriam restar dúvidas que presidenta é uma designação incorrecta. Apesar de uma doutoranda em Português, brasileira, ter sido entrevistada por uma televisão e afirmado que presidenta é um termo correcto. E porquê, perguntaríamos nós? Porque, disse ela, se um presidente for uma mulher, então deve ser presidenta (convenhamos que para argumento de um doutorando a coisa está assim para o fraquinho e inquinada!). Do que ouvi, nenhum jornalista lhe perguntou se uma senhora numa sala de espera de um médico é uma pacienta ou se uma mulher intérprete de línguas é uma intérpreta ou se as raparigas passaram a ser estudantas. Mas já estou habituado à pobreza franciscana dos nossos agentes de comunicação social.

Apesar de tudo parece que o bom senso imperou e a maioria designou Assunção como presidente. E assim é que deve ser. A menos que aconteça aos presidentes o que aconteceu aos juízes, já que juíza passou a constar em grande parte dos dicionários e já quase ninguém o discute.

PS – Um abraço a um amigo que tem uma noção pós-moderna do português, i.e. sabe os termos correctos, mas é apologista de uma forma de falar confortável e entendível, assim tipo o Natal é quando nós quisermos. Ele acha que se pedir trezentos gramas de fiambre numa charcutaria não entendem e trezentas dá muito mais jeito de articular.
.

Etiquetas: ,

sábado, junho 11, 2011

Em tempo




[4309]

O post anterior não é ficcional. Pelo que qualquer semelhança com pessoas ou actos são rigorosamente verdade. Mas há que dizer que serviu igualmente o propósito de agradar a quem recentemente me acusou de ter feito um número obsceno, seguido, de posts a falar do Sócrates.

De registar que até naquela parte em que eu digo «de quem quer bater em todos os arquitectos e projectistas nacionais», eu deliberada e escrupulosamente evitei falar em engenheiros técnicos projectistas de vivendas de emigrantes no distrito da Guarda. Um feito e uma contenção de que me orgulho.
.

Etiquetas:

domingo, outubro 18, 2009

Está explicado o "sub-rendimento" do Sporting


[3418]

Tenho estado a acompanhar o jogo do Sporting com o Penafiel, assim como assim, a miséria do costume. Só que, desta vez, fiquei esclarecido sobre as raízes do sub-rendimento leonino. É que, segundo um preclaro comentador da SportTV, o problema do Sporting está em que a equipa desposiciona-se e bascula (não falta acento, é mesmo terceira pessoa do singular de bascular) de um lado para o outro (SIC).

E eu que andava aqui a matar a cabeça na busca das verdadeiras causas da débacle sportinguista. Afinal, é tudo uma questão de desposição (ou desposicionamento, há várias "opiniães"…) e… como dizer… arranjar um substantivo apropriado, xacáver… hummmm, basculização da coisa.

Já posso dormir descansado.
.

Etiquetas: , ,

quinta-feira, outubro 15, 2009

Estou a ficar «comprimetido»...

[3411]

No curto espaço de cerca de 60 minutos, e a propósito das reuniões de Sócrates com os líderes dos Partidos, um repórter da TVI24 disse por TRÊS VEZES que Sócrates iria assumir os «comprimissos» políticos. Eu seja ceguinho (esta do ceguinho, digo eu).
.

Etiquetas: , ,

terça-feira, agosto 11, 2009

Complicadez

[3297]

São tiques de linguagem, são vícios arreigados no discurso e nisto, haja Deus, os socialistas não são apenas bons, são inultrapassáveis. Nesta recente vaga de complicar as orações transformando, por sistema, um modesto complemento directo numa oração completa com sujeito, predicado e complemento directo e em que este último é uma forma verbal em concordância com o… atrevo-me a chamar-lhe aposto ou continuado, há especialistas (até explicar isto é complicado, valha-me a santa). Mas a ministra Ana Jorge, então, é aquilo que é um exemplo acabado
. Nos noticiários desta manhã repetiu-se («voltou-se a repetir»?) inúmeras vezes, nesta nova «postura gramátical» e disse uma porção de vezes aquilo que é e aquilo que são. Irra, que não há ninguém que lhe faça ver aquilo que é uma forma rebuscada de falar por parte daqueles que são os que têm evidentes responsabilidades naquilo que é a imagem que os políticos deveriam ter naquilo que é a sua conduta diária naquilo que são as suas responsabilidades na comunicação com as pessoas.
.

Etiquetas: , ,

segunda-feira, julho 27, 2009

Perdere verba leve est

[3266]

«...Gestos de indelicadeza e mal-criadez».

Ministro Teixeira dos Santos, no DN, a propósito de A. João Jardim

Ora aqui eis um exemplo feliz de boa falagem para que póssamos orgulhar-mos da nossa ilustre governância. É uma regalagem e confortação a gente termos menistros que falem assim tão bem. Há-dem (não me lembro se há-dem é com tracinho ou hadem sem tracinho, a minha esposa diz que é com, mas não é grave) ver que é verdade, já dizia Jorge Coelho, quando ele tinha tempo para falar ao pessoal.
.

Etiquetas:

segunda-feira, março 23, 2009

Valias mais ou menos


[3033]

Regresso ao lar doce lar, ligo a TV e oiço, de chofre, a propósito da chegada de jogadores à concentração de estágio para o Portugal vs Suécia:

Repórter da TVI24: - João Moutinho, o facto de Ibrahimovic jogar é uma menos valia para a Suécia ou uma mais-valia para Portugal? (menos valia tem de ir sem hífen porque o corrector dá erro. E muito bem…)
João Moutinho: - É assim. É uma menos valia para a Suécia e uma mais-valia para Portugal.

Siderado com a argúcia e brilho de ambos, senti-me em casa. Por várias vezes disse que falar mal é uma arte. Expressarmo-nos é uma arte ainda mais difícil. Em qualquer dos casos, tudo faz sentido. Pouco tempo depois ouvi Sócrates dizer que não está mais gordo, ao contrário do que se diz por aí (este homem anda mesmo com as campanhas negras engatilhadas…) e que desde que deixou de fumar tem mais resistência. Calcule-se. Quem diria! Mais tarde, Sócrates ajustou aquele tom paternalista que ele agora usa desde que Pacheco Pereira começou a dizer que a arrogância do homem se está a tornar insuportável e explicou-nos que o PSD acha mal a escolha de Jorge Miranda para Provedor de Justiça. Mas ele acha bem. E por isso não tinha nada que mudar por causa da birra do PSD. E mais. Há 19 anos que é o PSD é que escolhe o provedor. Logo, portanto, por conseguinte… a birra é do PSD mas ele que é que acha que não pode ser. Nove anos? Não, Sócrates acha mal. E era o que mais faltava.

.

Etiquetas: ,