A "esquerdização" da cultura do arroz

Campo de arroz no Chokwe isento de infestantes, após tratamento herbicida em pré-emergência precoce e prestes a ser submetido a um tratamento pós emergente para eliminação de dicotiledóneas resistentes, depois de escoada a água da "maracha". Foto de Les Hillowitz - Moçambique 1984
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Era uma vez uma planície imensa ao sul de Moçambique onde os colonialistas estabeleceram um eficaz sistema de regadio. Basicamente, a coisa consistia num canal principal “tirado” ao rio Limpopo, um dos maiores rios moçambicanos, e dos seus ramais e caleiras conseguia-se uma adequada irrigação de 33.000 has, entretanto terraplenados e divididos em “marachas” de 16 hectares. Este conjunto produzia cerca de 200.000 toneladas de arroz que, juntamente com a produção á volta da cidade da Beira e um pouco mais na Zambézia chegavam para que toda a gente pudesse comer arroz. No período pós independência, a produção manteve-se por cerca de mais cinco anos. A colaboração técnica de duas empresas multinacionais, muito experientes e de elevado gabarito técnico e devidamente coordenadas por um gabinete de estudos asseguravam a selecção de sementes, o uso de herbicidas, a monitorização de doenças e pragas e, durante a campanha, o Chokwé (assim se chamava a região) era um rodopio de técnicos (botânicos, agrónomos, químicos, entomologistas), pilotos, aviões, motoristas e múltiplos agentes que garantiam a colheita das tais cerca de 200.000 toneladas de arroz, aí por alturas de Maio/Junho. Nessa altura os agricultores, organizados numa espécie de cooperativa, recebiam o seu dinheiro e o país bastava-se de um produto essencial na dieta básica das suas populações.
Mas a revolução moçambicana não se compadecia com modernices e muito menos se revia na matriz capitalista do projecto. Afinal, todo aquele frenesi que se vivia das cinco às onze da manhã (havia razões técnicas para se trabalhar neste período do dia, nomeadamente velocidade do vento, humidade relativa e temperatura) era causado por técnicos portugueses, suíços, alemães, ingleses, tudo gente inquinada pelo vírus capitalista e havia que fazer qualquer coisa. Sem razão aparente, Samora Machel resolveu, de um dia para o outro, despachar os técnicos que trabalhavam no projecto e substitui-los por uma equipa de norte-coreanos. Após várias “discursatas” em que os coreanos eram apresentados como o expoente máximo da produção de arroz e da revolução do internacionalismo e socialismo proletário, ei-los que chegam em rebanho (para quem não saiba, os habitantes dos países da esfera socialista deslocavam-se sempre em rebanho, fosse para trabalhar, fosse para ir á praia) ao Chokwé. De imediato, “mudaram o paradigma”. Basicamente, seguiam para as pistas às oito horas em "minibuses" entretanto comprados para o efeito, faziam uma reunião onde o Grande Líder era evocado e por volta das dez horas estavam prontos para começar o trabalho. Que não começava porque, entretanto, um dos "camaradas capitalistas" (frequentemente eu, como team leader) informava que a velocidade do vento já era superior a 9 m/s, a humidade baixara dos desejáveis 75% e a temperatura subira e ultrapassara a barreira dos 25º Celsius, o que garantidamente faria com que 35 a 40% do produto se evaporasse entre ser despejado do avião e atingir o solo. No primeiro dia os coreanos estranharam (lembro-me da minha dificuldade em lhes explicar o que era um higrómetro ou um anemómetro portátil), ainda pensámos que no dia seguinte é que era, mas tudo se repetiu. Chegada às oito, vivas a Kim Il Sung e ready for work no calor, com vento e bem sequinhos.
Claro que uma campanha depois, as 200.000 toneladas estavam reduzidas a cerca de 60.000 (menos de 1/3) e duas campanhas depois nem um hectare se cultivava. Os coreanos foram pregar para outra freguesia e os milhões de dólares de material e equipamento jaziam inertes no terreno. E a fome apertou, pelo menos até os americanos e canadianos aumentarem o número de navios com milho e trigo, ao abrigo de vários programas de ajuda alimentar.
Isto para dizer o quê? Que Chávez vem muito atrasado. Muito antes dele já outras experiências de “esquerdização” (aprendi este vocábulo ontem com Mário Soares, de olhinhos a rebentar de satisfação com “a nova ordem mundial que vem aí”) e “mudanças de paradigma” foram operadas. Os resultados foram trágicos. Este exemplo do arroz do Chokwé pode-se juntar a outros de que tenho conhecimento directo, como o algodão do Sudão (e mesmo no Egipto), do café da actual República Democrática do Congo e do açúcar da Catumbela e Bom Jesus (Angola). Para não falar do milho e do tabaco do Zimbabwe, muito antes ainda de Mugabe começar a “despachar” brancos do país. Já nessa altura, (meados dos anos oitenta) um dos países mais avançados do continente africano se encarregava de “esquerdizar” a coisa. Ah! Também me lembro do flop do arroz em Madagáscar. E isto falando só do que vi e do que sei em directo. Passo por cima de exemplos de ouvir falar.
Por isso digo que Chávez vem atrasado, Não está a descobrir nada de novo. Está a ser tudo menos original. Limita-se a premir uma tecla que com o passar do tempo está esquecida para muitos e é totalmente nova (quiçá apelativa) para os mais jovens ou para a esquerda empedernida que sabe mas não quer saber.
Deus guarde os venezuelanos. E Sócrates, já agora, porque é assim que se deve fazer aos aliados e amigos, devia avisar Chávez. Explicar-lhe que o que ele está a fazer é um “déja vu”. E que só pode acabar com a arroz no país!
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Etiquetas: Chávez, déja vu, socialismos



