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Recuso-me a pensar. Recuso-me, sequer, a ser. Há avaria grossa no comando do cérebro ao músculo, ao nervo, à vontade e a qualquer registo sensorial. Isto não é clima de gente. É clima de animais poiquilotérmicos, lagartos, serpentes, lagartixas, osgas, gala-galas, peixes, insectos, salamandras e demais metazoários. E eu não sou metazoário. Fui programado para os 36,5º Celsius, não que me tivessem perguntado mas porque assim quis Deus Nosso Senhor (o Outro, o divino…) e não estou, assim, preparado para ser escaldado em vida, «estrelado» ou em risco de ser estufado, se perto de uma porção de unto, alho e cebola. Não tenho vocação para estrugido, suflê ou vol-au-vent. Se oiço uma vez mais que seja uma das nossas simpáticas apresentadoras de rádio anunciar que o calor está para continuar, no tom e na forma de quem acabou de lhe sair o euromilhões ou de ter arranjado namorado novo, juro que me dá três coisas e faço um abaixo-assinado, uma petição e assim, como agora se usa. Não é aceitável que esta visão orgástica do calor continue a fazer escola entre os meus conterrâneos. E não é aceitável por que o calor esmaece, o calor depaupera, adormece as meninges e anestesia as sinapses. Tudo coisas que, ao que parece, seduzem a maioria dos meus conterrâneos para que continuem a glosar esta vaga tórrida vinda de África (where else from?) e instalada sobre a Ibéria e aí mantida por obra e graça do famoso anti-ciclone que nos protege do frio como a Senhora de Fátima nos protegeu da guerra. É isso, somos um povo protegido. Como os meninos e os borrachos. Deus põe-nos a mão por baixo por tudo e por nada. Às vezes exagera e o resultado é este. Não consigo trabalhar, não consigo pensar, não consigo querer, não consigo, period. Só consigo em ambiente de ar condicionado mas isso só é possível em ambiente de uso exclusivo. Sempre que em ambiente partilhado, «há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não». Por mor do ar seco que potencia as alergias, por força dos ácaros. Das correntes de ar. Das pontadas. E pedem invariavelmente para desligar o dito cujo. Em casos benignos, para o reduzir.
Lá fora, o meu carro ferve mesmo à sombra do arvoredo e preserva cerca de 40 graus de temperatura da cabine, para me deliciar durante aquele dez minutos que demora até o ar condicionado actuar. Com os ácaros todos, secura do ar, pontadas traiçoeiras, armadilhas para as artroses, mas pronto a fazer-me feliz durante os 40 minutos que me separam de casa. Disse.
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