quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Sem remissão

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No frenesi habitual dos grandes acontecimentos nacionais, entenda-se greves de transportes, roubos de polvos no Pingo Doce e contratação do Djaló pelo Benfica e nome da criancinha que dele vai nascer, o repórter afogueado perguntava a um excitado sindicalista, sobre a greve de transportes de hoje:

- Então e o que me diz? O governo diz que vamos ter um prejuízo de 150.000.000 de Euros. Tem alguma coisa a dizer sobre isso?

Resposta do informado sindicalista:

- Isso é tudo bluff, meu amigo, tudo bluff. Eles dizem isso que é para quando lhes faltar o dinheiro outra vez poderem dizer que foi por causa dos 150.000.000 de Euros. Nós estamos em greve, porque estamos a cumprir a nossa obrigação. Deixem-nos trabalhar. Deixem-nos mas é trabalhar .

E lá foi o sindicalista trabalhar, quer-se dizer, não era bem o caso, porque o trabalho hoje era não trabalhar. Mas há que deixar esta rapaziada fazer o seu trabalho. Não trabalhando. E podem ficar descansados que logo à noite vários repórteres encontrarão povo compreensivo, cordato que dirá para as câmaras:

- Bom, isto causa transtorno, mas eles têm direito a lutar pelos seus direitos .

O facto de muitos dos que dirão isto logo à noite não fazerem sequer ideia por que direitos estão os grevistas a lutar, não interessa. Interessa é lutar pelos direitos. Seja o que for que isso envolva ou represente. E os repórteres terão todo o cuidado em seleccionar apenas os descontentes que acham muito bem.
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terça-feira, março 15, 2011

O senhor Abel Dias


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Isto das greves actuais sempre me fez muita confusão. Mesmo entendendo a decorrência metodológica dos acontecimentos resultantes da Revolução Industrial e figuras mais ou menos iconográficas como J. Hoffa na sua permanente luta contra Roosevelt, a verdade é que me parece que o contexto actual se encontra claramente adulterado, tanto pelos beneficiários da luta sindical como pelos motivos usados para justificar o recurso à greve como, ainda, o facto extraordinário de que hoje, circunstancialmente, os prejudicados são sempre os utilizadores de serviços (utentes, na gíria corrente), muito mais do que os patrões. Mesmo porque na grande maioria dos casos os patrões são o patrão – o Estado, representado por gestores pagos a peso de ouro e para quem é indiferente o resultado anual da empresa.

Mas a questão é, ainda, outra. Não entendo como uma greve possa ser um direito constitucional e um trabalhador não fazer greve o não seja. Eu não tenho que concordar com as decisões ou os humores de sindicatos maioritariamente agregados a Partidos ou instituições com um forte pendor ideológico, normalmente a anos-luz de distância dos verdadeiros interesses dos trabalhadores, à luz de uma sociedade moderna, de desejável progresso e segurança social. Por isso me espanta que a rádio (TSF, quem mais?) dê a notícia que segundo o senhor Abel Dias (e eu juro que não sei quem é o senhor Abel Dias) os camiões hoje sejam obrigados a parar. Isto relativamente à greve dos transportes, em curso.

Ainda me sinto situado num quadro jurídico em que a única entidade que me pode mandar parar na estrada é a autoridade. Civil ou militar. Ou o Serviços de Saúde, numa emergência. Mas, afinal, no meu país, eu posso mandar ser parado pelo senhor Abel Dias. Que eu nem conheço mas que seguramente (e, ao que parece, devidamente legitimado) me garante uma sova se eu não parar.

ADENDA:
Ainda há esperança. Parece que o senhor Abel Dias foi detido pela GNR. Na altura ele já tinha parado cinco camiões. A GNR deteve-o, levou-o, mas o senhor Abel já foi libertado. E disse que vai voltar à luta. Já há menos esperança outra vez.

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