quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Sem remissão

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No frenesi habitual dos grandes acontecimentos nacionais, entenda-se greves de transportes, roubos de polvos no Pingo Doce e contratação do Djaló pelo Benfica e nome da criancinha que dele vai nascer, o repórter afogueado perguntava a um excitado sindicalista, sobre a greve de transportes de hoje:

- Então e o que me diz? O governo diz que vamos ter um prejuízo de 150.000.000 de Euros. Tem alguma coisa a dizer sobre isso?

Resposta do informado sindicalista:

- Isso é tudo bluff, meu amigo, tudo bluff. Eles dizem isso que é para quando lhes faltar o dinheiro outra vez poderem dizer que foi por causa dos 150.000.000 de Euros. Nós estamos em greve, porque estamos a cumprir a nossa obrigação. Deixem-nos trabalhar. Deixem-nos mas é trabalhar .

E lá foi o sindicalista trabalhar, quer-se dizer, não era bem o caso, porque o trabalho hoje era não trabalhar. Mas há que deixar esta rapaziada fazer o seu trabalho. Não trabalhando. E podem ficar descansados que logo à noite vários repórteres encontrarão povo compreensivo, cordato que dirá para as câmaras:

- Bom, isto causa transtorno, mas eles têm direito a lutar pelos seus direitos .

O facto de muitos dos que dirão isto logo à noite não fazerem sequer ideia por que direitos estão os grevistas a lutar, não interessa. Interessa é lutar pelos direitos. Seja o que for que isso envolva ou represente. E os repórteres terão todo o cuidado em seleccionar apenas os descontentes que acham muito bem.
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terça-feira, novembro 08, 2011

A náusea

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Não estou bem por dentro das razões da greve de hoje sobre os transportes públicos. Mas do que me foi dado perceber, o que se passa é o seguinte:

- Os trabalhadores não aceitam ver beliscados os «direitos adquiridos»;

- Para não lhes mexerem nos direitos que adquiriram, a administração não tem nada que estar a inventar reduções de horários, de horas extraordinárias e outras malfeitorias que reduzam o seu rendimento mensal;

- Há uma vaga ideia de que os comboios, autocarros, metro e similares dão prejuízos (parece que os prejuízos se cifram agora em €1.300.000.000,00, falando apenas do Metro de Lisboa, já que a dívida gobal das empresas de transportes parece ascender a €16.000.000.000,00, e os encargos anuais só em juros ascendem a €600.000.000,00, mas o problema não é deles - dos trabalhadores). Logo, a administração que se vire e lhes pague os salários que, como é do conhecimento geral, é de um nível bastante generoso. O que se entende, dados o stress, responsabilidade e vários factores de risco que envolvem um motorista de autocarros, de metro ou de comboio. Ou seja, se não houver dinheiro, o estado que o invente (ir aos bolsos do contribuinte digo eu)

- Atribuir a responsabilidade das greves aos comunistas é uma falácia. Esta gente (os grevistas) é tão comunista como eu. São mais do género viva a esquerda, abaixo os poderosos, os banqueiros e o Berlusconi mas que Deus os mantenha no poder por muito tempo para que os salários não baixem);

Confesso que este tipo de situações já me provoca náuseas. Esta gente não tem o menor respeito pelos cidadãos nem pelos prejuízos que lhes causa. Os cidadãos, por sua vez, muitos deles, também lhes acha muita graça e sentem-se solidários com a justa luta dos trabalhadores (ainda agora um «utente» do Porto disse a uma TV, em tom monocórdico, que a greve dá muitos prejuízos aos cidadãos mas que compreende a luta dos trabalhadores. A este cidadão só lhe faltou mesmo o arnês e fazer «muuuuuu»…). E os que não acham dizem f…-se entre dentes e sujeitam-se bovinamente às consequências da situação.

Pela minha parte, que até tenho carro, revolta-me que cada vez mais me venham ao bolso para pagar os direitos adquiridos pelos outros. Que a mim ninguém mos paga e se os meus patrões não tiverem dinheiro que chegue, reduzem salários e despedem pessoas. Não vão eles depois não ter dinheiro suficiente para pagar ao Estado os impostos necessários para cobrir os direitos adquiridos pelos trabalhadores dos transportes.
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