terça-feira, novembro 08, 2011

A náusea

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Não estou bem por dentro das razões da greve de hoje sobre os transportes públicos. Mas do que me foi dado perceber, o que se passa é o seguinte:

- Os trabalhadores não aceitam ver beliscados os «direitos adquiridos»;

- Para não lhes mexerem nos direitos que adquiriram, a administração não tem nada que estar a inventar reduções de horários, de horas extraordinárias e outras malfeitorias que reduzam o seu rendimento mensal;

- Há uma vaga ideia de que os comboios, autocarros, metro e similares dão prejuízos (parece que os prejuízos se cifram agora em €1.300.000.000,00, falando apenas do Metro de Lisboa, já que a dívida gobal das empresas de transportes parece ascender a €16.000.000.000,00, e os encargos anuais só em juros ascendem a €600.000.000,00, mas o problema não é deles - dos trabalhadores). Logo, a administração que se vire e lhes pague os salários que, como é do conhecimento geral, é de um nível bastante generoso. O que se entende, dados o stress, responsabilidade e vários factores de risco que envolvem um motorista de autocarros, de metro ou de comboio. Ou seja, se não houver dinheiro, o estado que o invente (ir aos bolsos do contribuinte digo eu)

- Atribuir a responsabilidade das greves aos comunistas é uma falácia. Esta gente (os grevistas) é tão comunista como eu. São mais do género viva a esquerda, abaixo os poderosos, os banqueiros e o Berlusconi mas que Deus os mantenha no poder por muito tempo para que os salários não baixem);

Confesso que este tipo de situações já me provoca náuseas. Esta gente não tem o menor respeito pelos cidadãos nem pelos prejuízos que lhes causa. Os cidadãos, por sua vez, muitos deles, também lhes acha muita graça e sentem-se solidários com a justa luta dos trabalhadores (ainda agora um «utente» do Porto disse a uma TV, em tom monocórdico, que a greve dá muitos prejuízos aos cidadãos mas que compreende a luta dos trabalhadores. A este cidadão só lhe faltou mesmo o arnês e fazer «muuuuuu»…). E os que não acham dizem f…-se entre dentes e sujeitam-se bovinamente às consequências da situação.

Pela minha parte, que até tenho carro, revolta-me que cada vez mais me venham ao bolso para pagar os direitos adquiridos pelos outros. Que a mim ninguém mos paga e se os meus patrões não tiverem dinheiro que chegue, reduzem salários e despedem pessoas. Não vão eles depois não ter dinheiro suficiente para pagar ao Estado os impostos necessários para cobrir os direitos adquiridos pelos trabalhadores dos transportes.
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sexta-feira, junho 03, 2011

A fraude informativa das nossas televisões



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Hoje tive uma experiência interessante. Tive necessidade de me deslocar de comboio de Cascais para Lisboa (circunstancialmente, o meu carro pernoitou em Algés). Para minha surpresa, cheguei à estação e havia greve dos maquinistas. Das cinco da manhã às nove. Como eram 09:10 achei que a greve estaria terminada. Não estava. O primeiro comboio a sair de Cascais seria às 12:48. Deambulei pela estação, tomei café, li o Destak, o Metro e outros jornais gratuitos da nossa praça e lembrei-me de greves anteriores, durante as quais as nossas televisões, coincidentemente, só pode, esbarram sempre com pessoas que acham as greves muito bem. Que é preciso respeitar os interesses dos trabalhadores, que a greve é um direito constitucional, etc., etc., enfim aquela listagem completa da bondade das greves.

E é aqui que mora a surpresa. Passeei-me pelas centenas de pessoas que iam viajar e não ouvi um único comentário semelhante aos que normalmente se ouve nas televisões. Que os maquinistas deviam era ir todos para o c…, que os f... da p... ganhavam tanto como os pilotos da TAP, que os sindicatos eram uma vergonha, que este país está a saque, se foi para isto que se fez o 25 de Abril e toda uma série de impropérios a enfeitarem a verdadeira angústia daquelas pessoas que aguardavam o transporte. Pensei, assim, como as televisões têm um papel fulcral na passagem de uma imagem falsa e de como elas gostam de se arvorar em espelho de uma ideologia desejável e de uma mentalidade correcta da população. Até entendo as razões desse procedimento, mas não deixa de ser uma atitude condenável e estruturalmente «socialista». E é mentira. O que ouvi foi o que referi acima. Para não falar de um comboio (o primeiro do dia, às 13:00) apinhado com as pessoas com os nervos à flor da pele, repetindo os apupos e com cenas degradantes em cada uma das estações em que o comboio parava (parava em todas), pela simples razão de que não cabia mais ninguém. Em Algés saiu a maioria das pessoas. Muitos dos passageiros batiam com violência nas vidraças das cabines dos maquinistas e insultavam-nos.

Logo à noite, provavelmente, uma reportagem do exterior mostrará uma jovem compostinha dizendo que temos de respeitar os direitos dos trabalhadores.

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segunda-feira, março 16, 2009

Manifestar já, pelos "direitos" que há-de ter


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Uma estudante de enfermagem afirmou à TSF que estava na manifestação porque “ainda estou a estudar mas, quando acabar, é certinho que vou para o desemprego, e por isso tenho de começar já a lutar pelos meus direitos!”

Jorge R. Machado
pergunta, com toda a propriedade no Cachimbo de Magritte, "de que direitos é que esta futura enfermeira falava". Já numa manifestação de professores me lembro de ouvir uma jovem que se manifestava porque tinha acabado o curso no ano anterior e ainda não tinha emprego.

A perversidade que emana deste tipo de mentalidades é bem mais perigosa do que pode parecer. Os jovens foram industriados no sentido de que o emprego é como as couves da Anne Geddes. Abrimos as couves e aparece um bebé. Quando a jovem professora e jovem enfermeira abrirem as couves e não encontrarem o bebé… manifestam-se.

O drama é andar anos a dizer às pessoas que os empregos são como as couves da Anne Geddes. E neste particular o PS sempre teve uma queda especial para a horticultura.

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