Afinal não se sabe bem se a ministra de educação cometeu homicídio, mas ainda há esperança que deve ter andado por lá perto...

Foto, com a devida vénia, do We Have Kaos in the Garden
[1796]
Gerou-se por aí a história sinistra de uma professora que foi assassinada pela ministra de educação. Pois, como? Simples. A professora em questão estava de atestado médico porque sofria de leucemia e Maria de Lurdes Rodrigues ordenou que ela fosse trabalhar 31 dias, em resultado do que a infeliz professora, de 63 anos, morreu.
À partida, a ligeireza do enredo aconselhava a que mantivéssemos um pé atrás. Mas não foi isso que aconteceu. Muitos blogues embarcaram na história e solidarizaram-se naturalmente, com a defunta, ao mesmo tempo que um grupo de blogues mais activos e que se têm notabilizado por uma forte componente corporativa numa luta sem tréguas à ministra, fizeram posts atrás de posts, relatando o assassinato da professora e exprobrando a acção e o carácter da ministra. Expressões e trechos como assassina, criminosa, homicídio (in)voluntário, "executada" por acto administrativo, vérmina, escória humana, que sejas Lurdes maldita e conduzida às penas mais dolorosas que nem Dante ousou prever no seu inferno, homicida povoaram a blogoesfera, num dos mais característicos exemplos de boato organizado. A cereja em cima do bolo foi a composição fotográfica que aparece lá em cima, com a ministra entretida a enterrar professoras com leucemia, que ela acabou de executar.
Acontece que nestas coisas de boatos nem sempre as coisas correm como se pensa e/ou se deseja e qualquer areia na engrenagem fez com que um dos bloggers do Braganzza (que entretanto, de boa-fé se solidarizara com outros blogues) exigisse publicamente explicações e evidência que sustentasse a história do "homicídio", sob pena de se demarcar do festim.
Nada disto seria muito grave, no fundo é a blogoesfera no seu pior e quem cá anda já há cerca de três anos sabe das panelas com que se fazem alguns cozidos. O que acho verdadeiramente grave é que pelo meio dos “implicados” no guião, há professores. Alguns deles, aparentemente mestres na manipulação (veja-se hoje, aqui, e noutro registo, uma foto com cerca de… 500 pessoas, talvez ???, e um título de ajuntamento de 100.000 pessoas à espera da reunião do G8, sem violência, sem violência, lê-se, para que se saiba que a mais que provável violência que vai existir amanhã será sempre por culpa da brutalidade policial ou, ainda, aqui, “pegando”numa notícia do Avante sobre a adesão de 1.400.000 trabalhadores à greve geral, seguida por mais fontes de informação – recortes de imprensa, diz a blogger, e um punhado de notícias que têm a ver com tudo menos com o número de adesões à greve, tudo isto em tons de capital letter e vermelhos gritantes, de papalvos), o que me leva a pensar na reserva desejável na assunção de comportamentos públicos, sempre que sujeitos ao escrutínio de crianças e adolescentes.
O Rodrigo Adão da Fonseca, ilustre blogger portuense do Blue Lounge Café, fez uma vez, há cerca de um ano, um post brilhante sobre um outro exemplo típico de manipulação corporativista, espelhada no SaúdeSA. E recordo-me dos métodos utilizados no SaúdeSA, sobretudo quando os vejo agora vertidos, à vírgula, no Sinistra Ministra.
A blogoesfera é uma tribuna livre de opinião, disse-me este prezado confrade, na forma mais ou menos dissimulada de um ralhete público. Ainda que feérico. É evidente que concordo com ele, a questão é, apenas, tratar-se de professores, como aliás já aqui o referi. E não se caia na tentação de se dizer que estas linhas relevam, quiçá, de uma saudade dissimulada de censura. Seria o recurso fácil a lugares comuns sem qualquer valor para debate. O que se passa é que não consigo dissociar a imagem de um adolescente, provavelmente aluno de algum destes professores dos blogues a que me referi, a ler a história do homicídio de Cacia. Como se pode esperar que este adolescente venha a gerar qualquer tipo de respeito pelo seu professor, em vez do espírito de guerrilha que lhe começa a ser instilado ainda ele não conhece bem as regras da ortografia?
E, depois, há a questão da seriedade. No fundo é isso, uma questão de seriedade. Que é um assunto tão sério como a liberdade.
.
Etiquetas: me worry?, ministros homicidas, política, professores


