quinta-feira, Agosto 14, 2014

Pelo menos até chegar a casa...


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Por entre algumas qualidades de razoável amplitude, os portugueses têm um tremendo defeito, porventura inigualável noutros povos. E na síndrome, para usar uma expressão de uso corrente e recente de Dono Disto Tudo, somos imparáveis, sempre que que nos convencemos atingir esta condição e fruir este desiderato. Frequentemente isto costuma dar em gente que noutras condições não manda em coisa nenhuma, tipo o chefe de secção que lá em casa lava os pratos senão a mulher manda-lhe com um à cabeça, mas chega ao escritório e arreganha-se contra toda a gente e exerce a autoridade no único sítio onde consegue exercê-la.

Longe de mim, mas muito longe de mim, mesmo, estabelecer comparações com a condição do presidente Joaquim Sousa Ribeiro, não sei sequer se é casado ou se come em casa, mas que o seu semblante me traz à ideia o que acabei de escrever, traz. Só comparável, talvez, àqueles árbitros que levam os jogos de futebol a apitar a toda a hora e distribuir amarelos, antes de chegarem a casa e terem de ir passear o cão.

Joaquim Sousa Ribeiro uma vez mais conseguiu dar-me azia. Sobretudo, pondo de parte outras minudências, quando consegue atirar com o princípio de confiança e de igualdade lá para 2016.

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domingo, Agosto 10, 2014

Espero que existam mais razões…


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Provavelmente existirão mil razões para os pilotos da TAP fazerem greve. Mas há uma que me faz muita impressão. O piloto porta-voz, um tal Pietra, afirmou repetidamente que uma das razões era a gestão ruinosa da companhia. Por outras palavras, temos que um piloto, que deve perceber imenso de flaps e outras particularidades de um comando de um avião, que acha que a gestão da empresa está a ser ruinosa e, por tal, nada como uma greve para pôr a coisa nos eixos.

Eu imagino um episódio através do qual Fernando Pinto ou um dos vários gestores da TAP viesse para o cockpit interferir com a velocidade de aproximação à pista, oportunidade de baixar o trem de aterragem, regulação da pressão da cabine e dissesse: Meus amigos: Esta aterragem está a ser ruinosa e vamos fazer uma greve até que vocês aprendam verdadeiramente a lidar com estes «zingarelhos».

O exemplo é extremo, eu sei, mas faz-me muita impressão ver pilotos a meter o bedelho nas estratégias de gestão de uma empresa como a TAP, para além de que não creio que isso tenha a ver seja o que for com a génese de uma greve.

Reflectia eu sobre isto, aparece o Tó Zé dizendo que o segredo estaria na privatização da companhia, mas só de 49%, entre os países lusófonos. Para fazer da TAP uma espaço de lusofonia. Os outros 51% deveriam permanecer, como é óbvio, nas mãos do Estado, que é assim que diz a cartilha socialista.

Num quadro destes não consigo perceber bem as razões da greve. Muito menos das intenções lusófonas do socialista Tó Zé. A única coisa que sei é que tenho um incontável número de viagens na TAP, médio e longo, e sempre gostei, tirando uma ou outra tripulação mais arrevesada. Mas com os incidentes recentes, o piloto Pietra a querer gerir a empresa e o TóZé a querer um espaço lusófono (mas só em 49%), não sei, não. Começo a gerar um sentimento genuíno de desconfiança e de que o nosso nível de desenvolvimento e razoabilidade anda da frente para trás, numa altura em que o resto do mundo anda de trás para a frente.

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sábado, Agosto 09, 2014

O nosso ADN por terras do Cuanza-Sul


Igreja do Waku-Kungo


Igreja de Santa Comba Dão


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Há muito pouco tempo estive no Waku-Kungo que é o nome actual de uma pequena cidade angolana que dava pelo nome de Cela no período colonial, ainda que o regime colonial se esforçasse por lhe chamar Santa Comba. De resto, como se esforçava por chamar Robert Williams à Caála, Mariano Machado à Ganda, Luso a Luena, Henrique de Carvalho ao Dundo ou Carmona ao Uíge. A verdade é que mesmo no regine colonial toda a gente se referia a esses locais pelos etnónimos, ninguém dizia que ia a Robert Williams ou, muito menos, passar o fim-de-semana a Mariano Machado.

Já em relação à Cela/Waku-Kungo nunca cheguei a saber as verdadeiras razões para alterarem o nome de Cela para Waku, mas existirão com certeza.

Mas voltando ao tema. Fiz questão de ir ver a igreja do Waku. Eu sabia que era uma réplica da igreja de Santa Comba Dão. Fiquei muito admirado por ter falado com muitas pessoas e ninguém sabia que a igreja era uma réplica da igreja de Santa Comba. E não só. Parte do lajedo teria sido mesmo transportado de Portugal para a Cela.

Independentemente da virtude do gesto, a verdade é que a igreja está lá e, como se pode ver pelas fotos, são gémeas. No Waku, não encontrei ninguém que soubesse. Provavelmente em Santa Comba Dão também muito poucos saberão. Que sirva este modesto post para que se saiba para o bem e para o mal, que há lajes de Santa Comba no Waku e a igreja é uma marca indelével da nossa presença pelos ermos do Kwanza-Sul. E que os angolanos, muito apropriadamente, a respeitaram.

Só falta dizer que a igreja está erigida no topo de um morro que dá pelo nome de Senhora do Monte (É incrível a quantidade de locais em Angola que dão pelo nome de Senhora do Monte, assim de repente, lembro-me da Caála, do Lubango, etc.) e proporciona um panorama admirável por uma das mais belas regiões angolanas. Vasta planície recortada por rios e dezenas de maciços rochosos, enormes, de muitas centenas de metros de altura. Se há paraíso, ali deve ser uma das entradas.

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sexta-feira, Agosto 08, 2014

Deputar noutra freguesia


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Estamos perante um caso de clara hermenêutica tântrica, um exemplo vivo de yoga transposto para além do bife mal passado ou das moules com frites. O homem não gostou do clima, o homem pensou, a criatura meditou e achava que tudo aquilo era dinheiro a mais. Vai daí, entendeu deputar. E aí vem ele, deputa, não deputa, logo se vê, O que ele não pode é pactuar com um meio onde só o dinheiro conta, havendo tanto para deputar no torrão pátrio. Quem sabe até pelo muito deputar ele chega um dia a presidir. Ele não diz bem a quê, se é presidir à República ou se ao Grupo Desportivo Penelense ou mesmo o União de Coimbra. Logo se vê. Para já, deputa. Presidir, depende de onde ele se sentir necessário e/ou achar que o meio está já suficientemente deputado e não necessite de deputância acrescida.

Entretanto, a Europa perde um deputado. Só me admira é o homem ter levado sete dias a perceber isto tudo. Sobretudo em concluir que entre deputar em Bruxelas ou deputar em Portugal, deputa-se com mais eficácia aqui na terra.

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quinta-feira, Agosto 07, 2014

Muita gente votou em mim, nas autárquicas, para me dar força para assumir outras responsabilidades.


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Esta será a mais lamentável «blague» de um protocandidato a primeiro-ministro que me ocorre nos últimos tempos. Este homem tem claramente um problema mas que não me cabe a mim nem a muitos milhares como eu resolver.

Estou cansado desta gente que se guinda à ribalta e, sem que se saiba exactamente porquê, acha que seja o que for que lhe saia da glote tem o efeito desejado, para que nele se veja e pressinta o Sebastião que todos desejamos apareça numa manhã de nevoeiro. Ocorre-me um humorista inglês que num show a que assisti em Joanesburgo tinha um número em que gritava: Eu sou eu, viva eu, ninguém é melhor do que eu, eu sou eu, viva eu. Cai-lhe o reposteiro em cima, o homem morre, vai-se a ver e não era ele, era o primo dele.

A diferença é que toda a gente riu. Com este Costa já ninguém ri. É uma sensação de desgaste pela mediocridade reinante e pelo convencimento de que, no fundo, este discurso pega. Muita gente vai para a cama a pensar que votou no homem para autarca para que um dia ele pudesse assumir outras responsabilidades. E adormece na paz do Senhor.

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quinta-feira, Julho 24, 2014

Também querem


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Ana Drago e Daniel Oliveira são dois exemplos felizes de como a coisa política funciona aqui na paróquia. Ganhar protagonismo em causas e políticas que sabem não chegar alguma vez ao poder. Porque o povo português pode ser politicamente inculto mas não é totalmente estúpido. E isso favorece as Anas e os Daniéis que se vão notabilizando na esquadria mediática onde, queiramos ou não, estamos enfiados. Já que é fácil manter uma berraria mais ou menos controlada sobre o que está mal, havendo tanto o que está mal e sabendo-se como a grei gosta de ouvir essa berraria, ao mesmo tempo que dispomos de uma importante percentagem (sem paralelo?) dos chamados idiotas úteis que ajudam à formatação das personagens.

No caso de Ana (uma cara laroca e simpática e de verbo escorreito) e de Daniel (grosseirão mas hábil na manipulação por via de ideias que ele sabe caírem bem), notava-se algum desgaste de imagem e de ideias. Quer pelas suas frequentes aparições na comunicação social, quer porque ambos perceberam que o terreno lhes fugia debaixo dos seus determinados pés. Daí se terem atirado a um «Manifesto» que pouca gente saberá verdadeiramente o que vai manifestar. Basta-lhes saber que os dois se meteram noutra «estrangeirinha» em que a nossa política é fértil.

Vale-nos que muitos de nós percebemos que o que verdadeiramente os move é a necessidade imperiosa de «irem ao pote», expressão que qualquer deles usou com profusão desde aquela tirada tosca de Passos Coelho, pois Ana e Daniel querem ir ao pote também. Fizeram as contas e acham que o PS será a via mais indicada. Por mim… quantos mais Anas e Daniéis engrossarem as alas socialistas melhor. O problema, esse sim, o problema é eu saber que vou ter de levar com mais uma série de sessões contínuas de Ana Lourenço sobre o assunto – ela própria devota no cumprimento do seu mister, que isto de potes não está fácil e Lourenço não quererá perder o seu.

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quarta-feira, Julho 23, 2014

Conversa tão arrepiante como a cerimónia


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Passam-me ali pelas costas os comentários da cerimónia da chegada de quarenta corpos a Eindhoven. É na SIC-N. Eu sei que nestas coisas nem sempre é fácil conjugar um improviso escorreito com a demora de uma cerimónia como esta. Mas o nível do comentador é confrangedor. Não há na estação quem tenha um nível de fluência e aceitável sintaxe para fazer a reportagem? O homem não sabe bem o que diz, vai balbuciando o que lhe vem à cabeça desde que tenha a ver com o ataque ao avião malaio. E perde-se num «mundo» de banalidades, muitas delas sem fazer o menor sentido e num português arrevesado de arrepiar. Uma das expressões que o homem repete vezes sem conta é de que «…ao que parece, o avião foi abatido por um guerrilheiro com falta de treino e falta de habilidade…» (ipsis verbis). Imagino o estrago que teria sido se o atirador tivesse treino e habilidade. Era bem capaz de ter abatido dois aviões com uma tacada. O nosso repórter é que teria a tarefa provavelmente mais complicada.

Triste, mas é a matéria que temos em comunicação social.

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