terça-feira, junho 27, 2017

O meu pai é farmacêutico, passa a vida a fazer pírulas. E eu, só pró chatear, vou à gaveta e tiro-las





O menino de oiro, apresentado pela menina de oiro da TVI

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1 - Não sou uma figura pública. O meu pai sabia pouco de finanças, mas tinha uma razoável biblioteca. Já a minha mãe lia nos livros do meu pai e confiava, fiel e amante, nele. Mas não eram comunistas. Quiçá isso me terá privado dum futuro brilhante (!!!) como o do menino de oiro.

Mesmo assim, os meus pais fizeram, criaram e educaram quatro filhos dando a cada um deles um curso superior, o que nos possibilitou ir para o mercado de trabalho sem termos de recorrer a qualquer enfeite político.

2 – Não sou uma figura pública (lá está…) por isso as pessoas não têm obrigação de saber que fui um razoável (ia a dizer bom, mas sem a costela comunista ganhei alguma modéstia) pescador desportivo. Para quem não saiba (é caro, é preciso mar fértil e barco apropriado e bem aparelhado), há dois tipos de pescadores desportivos. Os que usam “lure” (sometinhg that attracts, entices, or allures) e que consiste num dispositivo colorido e com um jogo de espelhos que, reflectindo o sol, acaba por funcionar como chamariz do peixe graúdo. E os que não usam lure, uma espécie de pescadores virtuosos que acham que um marlin, um veleiro ou um veloz wahoo devem ser apanhados sem lure.

Posto isto, tenho de admitir que viver num país em que:

Primo: Ter sangue comunista é um item importante no currículo de um cidadão;

Secundo: Que ter sangue comunista ainda hoje funciona como lure e é a prova acabada que vivemos ainda num país cheio de complexos contextos e mecanismos que promovem e agraciam currículos baseados na ascendência comunista de cada qual. O que provoca uma sensação de lástima pelo reconhecimento que vivemos num terceiro-mundismo com pretensões mas, ao mesmo tempo, no seio de um número de exemplos que fazem brilhar de orgulho e realização pessoal todos os que não precisam de lure para atrair seja o que for e apresentam currículos limpos e reveladores do seu talento e valia. Sem precisar de patetices, pantominas e manipulações para atingir o Nirvana.


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Cheira a sangue quente


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Aqueles que já tenham ido a um Safari, poderão ter tido a oportunidade de ver uma alcateia de leões (juro que aprendi hoje que um colectivo de leões se chama alcateia, como os lobos e as hienas…) atacando um javali. Cerca de uma dezena de leoas e um macho imobilizam o bicho e com uma voracidade de descrição só possível a alguém com génio e arte para o fazer. O bicho guincha, debate-se e os felinos vão abocanhando as partes mais sensíveis, arrancando partes do corpo e a tragédia arrasta-se por alguns minutos, não tão escassos como se possa pensar, espalhando um cheiro quente a sangue até o javali se render e definitivamente se imobilizar, à medida que vai sendo mastigado vivo e escorrendo o sangue que tinge os focinhos dos felinos esfaimados.

Não sou muito de caças…sou até mais de pescas. Mas sempre tive a mania de mostrar tudo aos meus filhos, o bom e o mau e calhou um de par de vezes levá-los a safaris. E uma vez assisti a uma cena destas que acabei de descrever. E porque falo nisso? Porque é exactamente o que me ocorre, desde que o inábil Passos Coelho se pôs à mercê da alcateia, com a história do suicídio. E a alcateia lusa pode até ser amestrada e sofrer de nepotismo crónico e irreversível. Mas não é por isso que rejeita o sangue. E Passos Coelho será o javali da história, sendo verdade que frequentemente se põe a jeito para isso. E daí o recente banquete em que a alcateia rugiu, correu, abocanhou e mordeu e mastigou. E andam ainda por aí com os narizes cheios de sangue viscoso a cheirar a quente. As televisões então, impressionam. O pobre “javali” até pediu desculpa, mas a alcateia não aceita. Gosta mais de ser embrulhada na javardice em curso que se prepara com afinco para se reunir e “discutir” a desgraça de Pedrógão cuja responsabilidade há-de cair inevitavelmente “no governo anterior”.

Entretanto, o pobre javali ainda mexe. Mas está quase exangue, moribundo. Não sei se desta ele escapa.


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segunda-feira, junho 26, 2017

A D. Natércia



Serra do Caldeirão - 2012. A D. Natércia não aparece, devia estar em ensaios

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Por duas vezes, em poucas horas, a SicN transmitiu um compacto de largos minutos sobre um “grande incêndio” na Serra do Caldeirão.

Fui ouvindo, incomodado, pensando que ali estaria outro incêndio com consequências imprevisíveis. O compacto era razoavelmente longo e o cenário era o habitual, gente a chorar, as labaredas altaneiras cumprindo a sua destruidora missão e gente a apagar o fogo com os baldes da ordem e mangueiras de jardim. Vários populares se queixavam sobre a falta de bombeiros, desorganização, matas por limpar e dificuldades de ligação. Não se falava em mortos. Mas as reclamações sobre a desorganização e incúria continuavam e há uma D. Natércia (nome real) que gritava, e cito, “este governo é uma merda, este governo é uma merda”. Depois de largos minutos, a SicN (porque é da SicN que se trata, acabou por dizer que este incêndio era de 2012 e que, imagine-se já em 2012 havia incêndios com deficiências deste género. Não morreu ninguém mas havia uma D. Natércia aos gritos “este governo é uma merda, este governo é uma merda”.

Fiz umas contas de cabeça e percebi que em 2012, o governo era o de Passos Coelho. Porque é que a SicN passava aquela longa peça aos gritos é que não percebi. Mas cerca de duas horas depois, quando a estação repetiu a pantomina com a D. Natércia, percebi.

Fiquei sem saber se a pobre da D. Natércia recebeu algum pagamento pelo serviço e se passou recibo, mas se não recebeu devia ter recebido, já que os seus “este governo é uma merda” foram repetidos à exaustão de forma convincente e assinalável competência.

A SicN perdeu o resto da vergonha que tinha. E uma vez mais fico sem perceber esta sanha contra Passos Coelho (não se confunda o que digo com partidarite. É factual). E quanto ao Partido Socialista, bem nutrido com estes mimos da comunicação social, continua a usar técnicas comunicacionais que eu julgava de há muito expurgadas, desde a queda do muro de Berlim. Pelo visto, aqui em Portugal ainda não. Continuam de boa saúde e recomendam-se. O que é, no mínimo, confrangedor. E reflectem fielmente como é possível que em Portugal estas técnicas ainda funcionem.

Nota: Esta preciosidade de comunicação teve lugar ontem, no período da tarde. Desconheço se durante a manhã houve mais “este país é uma merda”.


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sábado, junho 24, 2017

Andava distraído




Recomenda-se a leitura deste post com o vídeo "on". Fica a pieguice completa...

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A vida trepidante e os mil assuntos que nos ocupam as meninges a todo o tempo fazem de nós seres lamentavelmente diminuídos da sensibilidade que, acredito, nasce com todos nós, mas vamos perdendo ou desgastando à medida que o tempo passa.

O meu apartamento ardeu há cerca de um ano e, em consequência, aluguei um apartamento num local maravilhoso aqui em Cascais (donde só algum dia me tirarão a tiro). Tenho um escritório com uma grande superfície vidrada que dá para um jardim público muito bonito. É, ainda, um local muito sereno, silencioso e, repito, muito bonito. Pois… não é que só ao fim de um ano percebi que nestes dias de sol e com as vidraças abertas tenho uma afinada orquestra de passarinhos que cantam em permanência TODA a manhã?

Desse canto sobressai um mais forte, mas maravilhoso. Não percebo nada de pássaros, mas alguém que conhece me garantiu que esse canto era de melros. Intrigado, fiz hoje uma espécie de espera até descobrir dois magníficos exemplares, muito pretos, muito bonitos e harmoniosos nas suas formas. Mais harmoniosos se tornam quando comecei a ouvi-los a cantar. Mantive-me a olhar pela vidraça aberta e contemplei o casal (presumo…) na esperança até de ver se saia dali algum ritual de acasalamento. Não saiu. Apenas cantavam, o que prova que se pode cantar só porque sim, sem ideias pré-concebidas, tal qual se ouve no vídeo. Curiosamente, havia um coro de pequenos cantares de outras aves que não sei se têm algum significado.

Voltei para o computador. Contente por ver os melros, contente por serem melros, contente por haver pássaros que cantam assim. E vai outro “post” (inho) sem falar mal do  outro... cujo nome não posso dizer!

NOTA: Custa a acreditar, mas pus o som do computador no máximo e posso garantir que o canto dos pássaros lá fora redobrou. De ritmo e de intensidade. Ai que mariconço (pode-se dizer, né?) que eu estou hoje…



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sexta-feira, junho 23, 2017

Algaraviada



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A propósito deste meu post sobre florestação na Swazilândia, recebi um telefonema de um professor com larga experiência em silvicultura, no qual fui diplomaticamente considerado um razoável ignorante sobre floresta e sobre a realidade da situação da floresta dos privados. Sobre isso, e porque o telefonema foi correcto e construtivo, vou responder correcta e construtivamente, também:

1 – Não sou especialista em floresta;

2 – Tenho perfeita noção que as grandes empresas de produção de pasta de papel têm mecanismos de procedimento que praticamente inviabilizam os incêndios;

3 – Sobre a acção nefasta do eucalipto, tenho as minhas opiniões. Sei que esta árvore (uma mirtácea) tem grande poder invasor devido à sua sôfrega necessidade de água e à sua capacidade de regeneração mas que, em exploração, pode e deve ser sujeita a uma criteriosa gestão, proporcionando um equilíbrio estável ao solo em matéria de nutrientes e de água. Nada, afinal, que não se passe com a gestão dos oligoelementos (trace elements) que têm de ser regularmente compensados durante a exploração continuada dos solos, sobretudo se tratarmos de culturas muito exigentes em alguns micronutrientes específicos.

4 – Também tenho uma razoável noção do, provavelmente, sector mais nefasto da gestão dos eucaliptais privados. Pequenas áreas, baixa rentabilidade, e a peculiar tendência dos portugueses para se excluírem de condutas cívicas, sempre que os problemas os atingem não só a eles como ao próximo. Um pequeno quintal de 1 ha de floresta não limpa pode fazer perigar muitos milhares de hectares à volta, por muito limpos que estejam. Acresce que à falta de sentido cívico dos cidadãos reina a mais completa confusão na aplicação da profusa legislação em que os portugueses se realizam. Há leis para tudo. E para nada. Um português feliz é um português que legisla. Dêem-lhe uma pontinha de poder e ele legisla sobre o número de borboletas no quintal. E, finalmente, a confusão generalizada de magotes de gente a mandar, a deliberar, a fazer favores, a falar às TV’s, a perorar sobre isto, aquilo e aqueloutro. 

Qualquer português num país estrangeiro, confrontado com uma lei que diga que não pode ter eucaliptos a menos de “x” metros de uma estrada ou de uma residência, cumpre. Em Portugal, discute, protesta, zanga-se imenso, fala com o presidente da junta, refila com o presidente da Câmara e presta-se a jogos de poder tão estúpidos como pueris que só complicam a questão e que são o espelho fiel de nós próprios.

Professor, como vê, conheço a diferença entre as florestinhas e as grandes explorações silvícolas. Não nos ponhamos à espera que um português espere uma vida pelo desenvolvimento de um azinho, de um sobreiro ou de um mero bosque de prazer e bem-estar, antes limitemo-nos a cumprir a basta legislação existente. E, sobretudo, que os autarcas e outras forças de comando se tornem realmente efectivos em vez de forças de bloqueio ou ninhos de inconfessados interesses. Pela sua estupidez, pelo seu nepotismo ou por pura parolice.

De tudo isto, o governo (qualquer governo) não sai ileso. Muito menos quando se gastam 500.000 euros num sistema que não se sabe bem o que é e que avaria quando se precisa dele, ou não há o cuidado de regularmente, ver se um camião frigorífico funciona em condições, em vez de estar anos parado à espera que morra alguém. Ou que ninguém se entenda quando é preciso abrir ou fechar uma estrada. E, neste particular, a geringonça é um bom exemplo de inoperância, ignorância e desorganização. Representa bem a falência geral do Estado, pelo menos do Estado que se deseja A MAI aflige só de ouvi-la ou olhar para ela, Costa faz-nos ferver por dentro e até Marcelo nos faz pensar, ao vê-lo por aí aos beijinhos e abraços. E depois, há toda aquela multidão que aparece, ao minuto, a botar faladura e que ninguém entende. Ou que interessa, já, entender. Da Comunicação Social já nem falo. Pacheco Pereira ontem deu bons exemplos sobre o quilate da comunicação social.


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quinta-feira, junho 22, 2017

In the present crisis, government is not the solution to our problem; government is the problem (Ronald Reagan)



Pinheiros, pinheiros, pinheiros, eucaliptos, eucaliptos, eucaliptos...

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Miguel Sousa Tavares afirmou ontem, na SIC, basicamente, o seguinte:

1 - A culpa da tragédia em Pedrogão Grande é de Cavaco SIlva e de Álvaro Barreto;

2 – Ele não diz, mas subentende-se que as culpas de Cavaco e de Álvaro Barreto se devem ao facto de ter acabado com a agricultura e com a pastorícia (um nome bonitinho mas cruelmente ligado ao atávico atraso em que vivíamos). Desde a "perniciosa" acção de Cavaco, a agricultura em Portugal deu um salto exponencial quer em qualidade, quer em quantidade. Inclui a chegada de muitos jovens qualificados que resolveram dedicar-se à agricultura como o tomate, o azeite, o vinho, as saladas, etc.. Reservo-me a maçada de vir com números, primeiro porque MST não me pareça que perceba alguma coisa de agricultura, segundo porque não sou jornalista e seria uma trabalheira;

3 – Ataca fortemente o pinheiro e o eucalipto. Não explica porquê, provavelmente porque não saberia como. Ouve falar constantemente no pinheiro e no eucalipto e aquilo é um bocadinho como o Round-Up que faz cancro, MST vai ouvindo falar na coisa mas não deve sequer conhecer a sistemática das árvores;

4 – Entre trejeitos e esgares, mantém a sua verve biliar contra Cavaco, Barreto, pinheiros, eucaliptos, admitindo, ainda assim, o reconhecimento de que há elementos naturais como as trovoadas secas. Uma admissão que, de resto, dá jeito, não vá a gente começar a embirrar com o sorridente Costa.

A SIC e, de um modo geral, todas as televisões deveriam ter um desejável pudor na escolha dos seus comentadores. Tanto quanto julgo saber, MST é um jurista, ganhou mediatismo por via de um romance que teve com uma actriz brasileira que embirrou com os Jerónimos e escreveu alguns livros, um deles, de resto, pouco fiável nas realidades de S. Tomé. Mas isso não vem ao caso. Porque é que um jurista com este currículo acessório e escreveu uns quantos livros (que me ocorra, nenhum deles tratava de resinosas) recebe um salvo-conduto para dizer disparates (repito, disparates), sobre coisas que não conhece, permanece para mim um insondável mistério.

Nota: Há um pequeno país (entre outros que conheço), rodeado de África do Sul por todos os lados e que tem mais de metade da área coberta de pinheiros e eucaliptos. Tudo sob o controle de uma empresa que dá pelo nome de Usutu Forestry Company, associada à SAPPI (South Africa Pulp and Paper Industries). Falo do que sei porque, circunstancialmente, desenvolvi lá durante cerca de seis meses um aturado programa de controle de infestantes que contemplava a optimização dos nutrientes do solo e a defesa contra o fogo. Essa empresa, só no território Swazi gera uma renda na produção de polpa de cerca 1 bilião (os tais nossos mil milhões) de dólares anuais. Nunca vi um incêndio na zona. Dormi regaladamente, várias vezes, num hotel no meio das matas, o “Usutu Foresters Arms” (vale a pena dar uma olhada a este hotel no seio de perigosos eucaliptos) sem ter medo de acordar esturricado. Claro que há um mundo de diferenças, mas mencionaria o principal:

1 - É uma organização privada;

2 – Não há presidentes de Câmara, de freguesia, de bombeiros, de protecção civil nem aquela multidão de responsáveis nem eu  sei bem de quê, quer dizer, há, mas mantém as suas funções institucionais sem meterem o nariz onde não são chamados. Eventualmente há um  Serviço Nacional de Meteorologia que faz o forecast da ordem. E se a Swaziland tem dias acima dos 35 graus… Quem manda ali são os donos e cada um com as suas específicas funções. Incluindo a segurança. Tudo em estrita obediência da lei, como é evidente. Ministros do Interior, o próprio Rei, as polícias, tudo tem as suas funções atribuídas mas cada um no seu galho. Ah! E não há peixe por aí além. Só importado. Mas tenho a certeza que se morrer alguém há um camião frigorífico decente para o levar a Mbabane ou a Manzini.



Riqueza


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quarta-feira, junho 21, 2017

Não sei que título hei-de dar a isto...



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Começam a surgir alguns vultos por aí, que se auto-avaliam em supra-sumos da iluminação cerebral com que cada um de nós é dotado ao nascer, clamando pela inevitável queda da plebe cultural na politiquice baixa, usando o rescaldo (literalmente) da tragédia que nos bateu à porta.

Não há como convencer esta gentinha de que a politiquice baixa está precisamente em achar politiquice baixa a enumeração de alguns dos mais elucidativos exemplos da nossa peculiar desorganização, ânsia de protagonismo e absoluta falta de sentido de responsabilidade nas diferentes tarefas que nos são cometidas. Um pais como o nosso só podia mesmo ter uma multitude de organismos, organizações, comissões, institutos, presidentes disto, daquilo e daqueloutro, centros de decisão (bombeiros profissionais é que nem por isso), numa variedade, enfim, de gente que ganha o seu minuto de ouro em vir a uma qualquer televisão botar uma faladura qualquer, dizendo nada, antes exibindo uma forma pueril de estar que nos envergonha e atrofia a réstia de sentido cívico que não fazíamos mais que a nossa obrigação em ter.

Ele é o SIRESP (que nem sei bem o que é) que não funciona, ele é o camião frigorífico que avariou (obrigando ao aluguer de uma camião de transporte de peixe…), ele é o avião que caiu mas que afinal era uma roulotte com gás, ele é um  secretário de estado com uma deplorável dicção e que vai debitando umas tretas, ele é uma ministra que fala como se estivesse a fazer um grande frete e lhe devêssemos dinheiro, ele é o IPMA (isto sei o que é…) a explicar o que é uma trovoada seca, ele é a jornalista que noticia já se ter encontrado a árvore que apanhou com um raio (atingida por um relâmpago, segundo o Paulo Baldaia) ele é a GNR que nem percebe bem o que está a acontecer e dá indicações erradas, ele é os Kamov que não voam, ele é o atropelo geral das pobres pessoas despojadas, feridas ou mortas em sessões contínuas duma tragédia que tem como único responsável um chamado estado social que de social não tem porra nenhuma a não ser o desfile idiota de figurinhas inoperantes e patéticas que vão dizendo o que podem, mal, ele é um presidente da República estranho que vai ensaiando a sua comoção e coração destroçado por via de abraços e beijinhos enquanto brada, poucos minutos depois do início da tragédia, que era impossível fazer melhor, ele é, enfim, uma comunicação social espúria e venal que se desdobra numa acção indescritível de desculpabilização de um governo não eleito, onde não se vislumbra competência para além dos pontapés gerais na gramática e no bom senso, sem qualquer sentido de Estado que não seja bater na Oposição (como o inenarrável Capoulas Santos), uma comunicação social que leva já dias seguidos de transmissão ininterrupta com tantos momentos idiotas e estupidificantes (como a Judite de Sousa a mostrar um cadáver, acho que faltou pouco para levantar uma pontinha do lençol), como o número de especialistas que surgem do nada para explicar ao rebanho meio estupidificado uma série de vulgaridades, desde o acompanhamento psicológico até às verdadeiras razões dos incêndios, onde não podiam faltar especialistas silvícolas, como aquele estranho Miguel Sousa Tavares que fala de eucaliptos com a mesma segurança e assertividade com que eu falo das diferentes técnicas de hibridação de aves canoras.

Uma lástima. E um desrespeito condenável pelos mortos. Pelos cidadãos. Pelos eleitores que ciclicamente vão depositar um voto que permite a esta gentinha continuar a não perceber nada do assunto e a passear a sua arrogância e insignificância, de repente transformada numa significância que não merecem.

Passos Coelho tem passado ao largo e faz muito bem. Um deputado do CDS por ter falado em “beijinho no doi-dói” ia sendo esfolado vivo. Também já houve um, do milhão de especialistas e comentadores, que já experimentou trazer à liça o facto de Passos Coelho andar muito calado. Não teve grande êxito, provavelmente porque há outros que há bem pouco tempo se desfizeram em dislates idiotas e hoje andam calados como ratos. Refiro-me, naturalmente, àquele rancho pateta de gente que dá pelo nome de “esquerda” não sei das quantas a quem Costa deu o respaldo e o quentinho de uma coisa que nunca tinham experimentado e que lhes está a proporcionar sensações orgásticas que não esperavam – o Poder. E aqui refiro-me, naturalmente, a essa gentinha do Bloco e do PC, um grupo de gente anquilosada, sentada em teorias anquilosadas que nos vão tolhendo o progresso.

E pronto, apeteceu-me dizer isso. Dificilmente voltarei a falar no assunto. Faltou dizer que corre à boca cheia que estão a ”tratar” o número real de mortos, que parece ser bem superior à realidade. Mas admito que seja boato da reacção.


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terça-feira, junho 20, 2017

O Rio dos Medos de Ouro



Clicar na foto

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Poucos dias depois do 25 de Abril, nos meus verdes vinte e poucos anos e numa altura em que não dava para ir para a frente do ministério com uma tabuleta a reclamar pelo facto de o Governo ainda não me ter arranjado emprego depois de sair da faculdade, fui parar a Durban, como technical assistant duma empresa de produtos químicos para a agricultura e indústria.

Tive uma relativa facilidade em arranjar emprego porque já dominava o inglês, graças a uma prestimosa, linda e louríssima namorada de Sheffield, Yorkshire, UK (Hi, Janet!) razoavelmente mais velha do que eu e que me ensinou uma data de coisas e, de caminho, o inglês falado e escrito.

Entregaram-me o Northern Natal, uma vasta zona do Kwazulu Natal onde eu deveria visitar os mais importantes municípios, como Dundee, Vryheid, Newcastle, Ladysmith, Harrismith, Pietermaritzburg e vender o meu peixe, incluindo a utilização de produtos arbusticidas e de longa acção residual para controle total em refinarias, auto-estradas, etc. (que falta fazia o “macabro” RoundUp da “maléfica” Monsanto, que ainda não tinha sido inventado), para além de produtos de acção selectiva em relvados desportivos, jardins e onde houvesse relva em geral.

Nestas andanças conheci uma das mais fantásticas regiões naturais e hoje, reclamo-me um homem de sorte por isso. Conheci St Lucia, uma extensa zona do estuário do rio Tugela, em que as águas do mar e do rio se misturam, formando um caldo ecológico onde os crocodilos, os hipopótamos e os tubarões convivem (e respeitam-se), o mesmo não se podendo dizer em relação a muitos incautos que antigamente lá se banhavam e eram disputados à dentada entre um faminto crocodilo e um azougado tubarão, isto se não levasse uma patada dum  hipopótamo que ocasionalmente passasse.

St Lucia é um local paradisíaco, em que a beleza natural se funde com uma auréola de mistério e de lendas abundantes, naturalmente devidas às pessoas que pereceram a crocodilos que não tinham nada que andar ali e, igualmente, de tubarões que tinham um mar inteiro para andar e ai se alimentavam à babugem dos alimentos que o Tugela prodigamente lhes ofertava.

St Lucia começou por se chamar Rio dos Medos do Ouro, cuja alusão aos trágicos e frequentes acontecimentos de gente atacada se fundia à cor única, dourada, das suas dunas. Foram os portugueses (quem mais????) que lhe deram o nome, sobreviventes de um navio português naufragado e que dava pelo nome de S. Bento, em 1554. Mais tarde, em 1575, no dia de Santa Lucia, o nome de St Lucia foi outorgado à região completa, incluindo o estuário do Tugela e a zona marítima.

Fiquei a saber isto a primeira vez que lá fui, num “lodge” onde acabei por ficar algumas vezes nas minhas viagens de trabalho e onde me entretinha a ler a história e a origem de St. Lucia.

O meu filho, bem mais inteligente do que eu mas que gosta mais de ler sobre “bikes” do que sobre navegação do século XVI, passou aqui em trabalho há dias e mandou-me esta foto. Fiquei contente por me lembrar disto tim-tim por tim-tim. E, ainda, para calar a boca a alguns amigos que me acusam de só escrever sobre o sorridente Costa. Criatura que eu poderia mesmo convidar a tomar banho em St Lucia, tendo o cuidado, possivelmente, de retirar primeiro a tabuleta de aviso.


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