quinta-feira, setembro 03, 2015

A cartilha


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Confrange a simples ideia de o meu possível próximo primeiro-ministro revelar uma preparação de cartilha, uma participação de discurso estereotipado em que o sumo se traduz na ideia de dizer mal. Uma cultura de reviralho que verdadeiramente foi a única coisa que tocou as sensibilidades dos socialistas no poder, não lhes restando espaço para mais nada de útil, salvo ir espatifando a economia ciclicamente.

Costa, aqui, lembrou-se que a floresta arde muito em Portugal e como os sírios têm muita vocação agrícola e uma sólida experiência florestal, os refugiados poderão muito bem vir a ser aproveitados para limpar as nossas florestas. É uma tirada demagógica de quem não tem a mínima noção do que é a Síria, da sua geografia física ou da sua distribuição demográfica. Mas fica bem dizer estas coisas. Sobretudo, pensará Costa, porque a coligação nunca se lembrou disto. Ele foi o primeiro.

Costa é um triste exemplo da nossa classe política



Um sírio, a cerca de 50 km de Damasco, limpando a floresta.

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segunda-feira, agosto 31, 2015

Deu-me uma saudade fininha



Boia 2 N - cerca de 35 milhas marítimas de Maputo (clic the pic)

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Faz hoje sensivelmente um mês, por esta hora, e estava eu assim. No mar alto, com o frio do Julho do Índico a roçar-me a face, o cabelo desgrenhado (ele já é pouco, mas ainda desgrenha…) e aquele gosto salgado que nos impregna não mais que cinco minutos depois de nos fazermos ao mar.

Na ponta da linha (uma condescendente 0,6), uma rapala prateada e, preso na rapala, um peixe-serra que me veio matar a saudade (pelo menos duas *) e esculpir no rosto o sorriso que me acompanhou para o resto do dia.

Hoje estou sentado a um computador a fazer o costume e a pensar que no fundo não há forma de viver sem o costume – única via de o podermos quebrar de vez em quando.

Como nota final, o facto (meio selvático) de que à noite comi este serra. Especificamente este, porque apanhámos um total de seis peixes. Se eu fosse um facebookiano de causas diria que soltei o peixe e marcava o post com um libelo acusatório contra todos os pescadores. Mas se o fizesse, perderia o conforto da companhia de um grupo de amigos ao jantar, quando a mulher de um deles simpaticamente fez questão de mandar cozinhar aquele peixe. Coisas que sabem bem e confortam igualmente a alma e o palato.

E depois desta variação, vou continuar a trabalhar, enquanto oiço as notícias em mode de música de fundo, em que já ouvi qualquer coisa como um grupo da Guiné Bissau que quer voltar a instituir a excisão feminina no país. Questionado pelo repórter sobre como é que ele se sentiria se lhe cortassem o órgão genital, o homem (?) disse que não era comparável porque às mulheres corta-se só um bocadinho pequenino (ipsis verbis).

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domingo, agosto 30, 2015

À la mode de chez nous



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Almoço na Ericeira com amigos e regresso sereno e reconciliado com um país que nos oferece este mar, a foz do Lizandro, a Adraga, o marisco e bons amigos.

E é em pleno gozo deste conforto espiritual que me entra no habitáculo a voz saltitante de uma apresentadora da RR que, aparentemente, tem um programa diário no qual questiona crianças de cinco a seis anos sobre coisas da vida. E ouvi o seguinte (nas respostas das crianças há que imaginar aquele tom e ritmo de uma criança de 6 anos a falar):

- Então e sabes o que são os impostos?

- Sim.

- E para que servem os impostos?

- Para comprar carros e coisas.

- Olha, o governo compra muitos carros?

- Sim.

- E achas que eles deviam comprar assim tantos carros?

- Nãããão, eles não precisam de tantos carros.

- E quem paga os impostos?

- Somos nós, mas não podemos pagar tantos.

- Se fosses tu a mandar o que fazias com o dinheiro dos impostos?

- Eu não comprava tantos carros

O diálogo continuou e fico por aqui, com receio de me enganar, por pudor e por respeito por mim próprio. Pervertendo maldosamente o poeta, pensei e disse para mim:

- Pobres filhos que tal Pátria (não tão ditosa assim) têm.

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Mas o que disse Rangel de falso?


Um filme de terror


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Francisco Assis, assim de repente e, que me lembre, juntamente com Sampaio e Guterres, um dos três socialistas que se expressam em português com sintaxe escorreita, enervou-se porque Rangel fez um par de afirmações óbvias e que são do conhecimento geral.

Pergunto-me o que é que Rangel terá dito de falso quando singelamente perguntou se com um governo socialista estariam um ex-primeiro-ministro e o mais influente banqueiro português detidos e em investigação. O que é que isto tem de errado? É mentira? É especulativo? Um moderado esforço de memória leva-nos a um passado recente em que só um distraído não recorda um período de inaceitável pressão sobre o poder judicial e que espoletou situações espúrias como a libertação de Paulo Pedroso (e aquele indigno espectáculo de glorificação na Assembleia da República), a exoneração de magistrados que se permitiam agitar em demasia as águas turvas de Sócrates, a inutilização e proibição de uso de escutas comprometedoras e aquele posicionamento tandem de muitas personalidades em defesa de Sócrates e muitos dos seus sequazes.

Estou com Rangel. Uma coisa é a campanha de se estar contra tudo o que mexa, que é o que acontece quando se trata de Partidos que não têm mais nada que nos oferecer senão estar contra qualquer coisa, outra, bem diferente, é chamar a atenção das pessoas para FACTOS. Não para atoardas ou suspeitas, mas para factos. E factos são coisa que, tragicamente, o PS nos deixou em abundância, pelas piores razões.

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sábado, agosto 29, 2015

Se calhar, são mesmo assim...


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Quando leio, via Lusa, as afirmações de Ferro Rodrigues segundo as quais «…qualquer pessoa inteligente percebe que a posição do PS nada tem que ver com a posição do Syriza desde o princípio, desde antes de o processo grego ter começado…» e que «…foi uma posição suicidária, que levou a que o próprio Syriza esteja neste momento completamente esfrangalhado…» e me recordo perfeitamente das declarações do mesmo Ferro Rodrigues em Janeiro deste ano, segundo as quais «…o resultado das eleições na Grécia é a primeira demonstração de que há um consenso alargado nos países que são vítimas do fracasso estrondoso das políticas de austeridade, no sentido da mudança…» e que «…qualquer ameaça à Grécia deve ser considerada antidemocrática e antieuropeia…» isto para não falar da histeria colectiva que atingiu, entre outros, o próprio A. Costa, Isabel Moreira e Manuel Pizarro, sou obrigado a formular as seguintes questões:

1 – Ferro Rodrigues acha que está a cumprir o seu papel cabal de oposição... ou é mesmo assim?

2 – Eu sei que o PS navega em águas turbulentas, mas não há ninguém com o decoro ajustado aos níveis de exigência mínima que ponha cobro a estes dislates?

3 – Quando, em jornais, TV's ou rádios, não aparece um (unzinho) jornalista ou um comentador/analista/paineleiro/politólogo que confronte Ferro Rodrigues com esta agressiva falta de escrúpulos pela forma como ele ofende a inteligência dos cidadãos, isso deve-se a mera incúria, rematada incompetência ou um sinal inequívoco de cumplicidade com a mentira, a bandalheira e ausência de sentido cívico?

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sexta-feira, agosto 28, 2015

A desejada fossilização a prazo


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O poeta divide os socialistas entre os genuínos e os outros. E depois debita mais um rol de vulgaridades de onde releva o ferrete desta gente. Nascem no «reviralho», aderem à conveniência benfazeja do socialismo quando crescem, mesmo que para isso tenham de fazer uma série de condenáveis tropelias e usar um hediondo oportunismo, e envelhecem a berrar, na secreta esperança de terem um funeral na Basílica da Estrela com uma série de notáveis em arenga apropriada no velório, com muitas televisões a filmar. Quem sabe, até, ser levados para o Panteão.

Desde que comecei a entender minimamente a política e me concedi os meios para isso, eu concluí que a única forma de nos vermos livres destes puros (e então quando são poetas ou escritores, mais ainda) é que eles acabem por se extinguir, mais ou menos assim ao estilo do lince da Malcata. Serenamente, sem dor, dando lugar a estas gerações novas que, saudavelmente, andam já por aí e que encolhem os ombros com a indiferença que os Alegres e correlativos lhes merecem. Provavelmente extingo-me eu primeiro, mas guardo ciosamente esta esperança que estas criaturas atinjam com celeridade a fase de extinção. Mesmo que fique por aí um ou outro celacanto que, mais não seja, terá sempre a virtude de proporcionar uma ou outra prédica vagamente científica, do tipo «no tempo em havia socialistas».

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quinta-feira, agosto 27, 2015

Mais tarde ou mais cedo acabava nisto...


[5284]

Posso até estar errado. Mas começa a intrigar-me o profissionalismo com que os protestos dos lesados do BES tem estado patente nas manifestações. Cada vez mais organizadas, mais agressivas, com um décor mais alinhavado e com palavras de ordem até aqui não usadas.

Que fique claro que tenho o maior respeito pelos lesados. Imagino-me no lugar deles e não sei bem como reagiria. Mas a verdade é que as manifestações de há um tempo atrás, com gente genuinamente revoltada mas com naturalidade de gestos e palavras, transformaram-se num folclore consistente com o estilo das manifestações e protestos alimentados pelos profissionais da coisa.

Seria um interessante trabalho jornalístico registar alguns dos manifestantes e perceber que muitos deles aparecem em várias manifestações de protesto. Muitas delas têm tanto a ver com o BES com o coiso com as calças. O que está mal. É o habitual grupelho de profissionais da truculência e da baderna que, quanto mais não seja, demonstra um total desrespeito pelos genuínos lesados do BES.

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quinta-feira, agosto 20, 2015

Da importância de não se chamar Cecil, nem ser leão



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Este homem era arqueólogo e director do Museu de Palmira e chamava-se Khaled Assad.

Pelo que li, tentou tudo para salvar as preciosidades do museu, no que foi tomado por um infiel ao serviço dos cães das Cruzadas. Daí a decapitá-lo e pendurá-lo como uma rês antes de ser tornada em bifes, foi um passo.

Pouca gente soube disto. As pessoas andavam demasiadamente ocupadas a falar num leão chamado Cecil, que tinha um irmão (que felizmente não morreu) e que foi abatido por um pateta qualquer americano.

Nota: Reparei há pouco que a Helena Matos escreveu um post semelhante a este, antes de mim. Ontem. Sinceramente, não reparei, apesar de, consabidamente, eu ler o Blasfémias todos os dias. Assim, este meu post parece um semi-plágio do da Helena. Não é. Mas para a Helena, as minhas desculpas pela infeliz coincidência.

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Quartel general em Abrantes...


[5282]

Entramos na fase do delírio. Costa desdobra-se em retórica, no que é secundado, de forma canina, pelo Expresso e pela SICNotícias que vão repetindo à exaustão tudo o que acham que causa impacto na grei. E aqui chegamos ao ponto. O que aterroriza não é o destempero de Costa e dos seus próceres (alinhados, desalinhados, ou nem por isso, mas todos eles focados num resultado que lhes traga as prebendas do costume) quando promete, ou melhor, assume o compromisso, não é bem uma promessa, da criação de 207.000 empregos, onde até o pormenor dos 7.000 pretende demonstrar o novo rigor do novo PS. Ou, ainda, quando afirma, por via do economista e putativo ministro de economia do devir socialista Centeno, que uma das maneiras de aumentar o emprego é eliminar a precariedade, ficando por dizer como é que a emulação da guarida à incompetência e ao garantismo produz investimento, ou que vai dar prioridade às pessoas e aumentar-lhes o rendimento disponível. Uma tirada de belo efeito mas que não se sabe bem o que pretende significar, pelo que se torna, por definição uma rematada tolice.

É a disseminação desta irresponsável série de balelas que se vai instalando no subconsciente das pessoas, com uma valiosa ajuda de alguns órgãos de comunicação social, que verdadeiramente me arrepia. Mais do que ouvir tudo isto, horroriza-me sentir que este tipo de mensagem ainda cola no subconsciente das pessoas que acabam por garantir o voto e democraticamente eleger um partido reconhecidamente venal, incompetente e irresponsável, que não dá qualquer sinal de que alguma coisa possa mudar. Mudar, entenda-se, entre eles, lá no Partido, já que no que respeita ao trilho que estamos a seguir nos últimos 4 anos, parece haver pouco a mudar, salvo melhorar e aligeirar o peso de um Estado inoperante e insaciável que a esquerda insiste em manter e engordar.


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