domingo, julho 24, 2016

Kurikutela




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Há dias passei debaixo do Kurikutela. Não sei se era o “mala”, se era o “cama-couve” mas que era o kurikutela, era. Entrei pela estrada que vem da Chipipa, atravessei o Bairro de S. João (agora espalhado) e entrei na 5 de Outubro, passando por debaixo da ponte da linha. No exacto momento em que o comboio passava. E não há como apartar uma certa nostalgia, sobretudo se um dos nossos filhos nasceu ali, a metros da ponte, no Hospital do Caminho de Ferro de Benguela que, de resto, ainda existe.

Passei a ponte e trauteei mentalmente esta deliciosa canção. Ainda hoje não percebo porque se fala tão pouco do “Ouro Negro”. Afinal, intérpretes de música angolana em todo o seu esplendor, sentido e poesia.


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sexta-feira, julho 22, 2016

To be or not to be



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Longe de mim ter a veleidade de ser professor de inglês de alguém. Por outro lado, ser ou não ser fluente em inglês não é nada que acrescente ou reduza a dignidade de quem quer que seja. E, registe-se, a língua inglesa é hoje falada por uma apreciável fatia da população portuguesa. E, naturalmente, por vezes comete-se erros de interpretação já que, sabemo-lo também, as chamadas «traduções à letra» têm rasteiras a que nem sempre escapamos.

Acontece que um jornalista tem de ter mais cuidado. E nem sempre aquilo que parece, é. Ferreira Fernandes, um conhecido jornalista do Diário de Notícias foi descuidado e traduziu um I let him speak de Trump referindo-se ao discurso de Ted Cruz por um deixei-o falar. E este deixei-o falar prestou-se a uma exercício de opiniões sobre Trump e seus correligionários que poderiam (e deveriam) ter sido evitadas se FF percebesse que este I let him talk tem um sentido muito diferente. Trump queria dizer qualquer coisa como ele que fale para ali… estou-me nas tintas para o que ele disser… qualquer coisa por aí. E não um deixei-o falar no sentido de autorizei-o a falar. Isso teria exigido o uso do verbo to allow, no tempo adequado, no caso, o pretérito.

Portanto e sem embargo das opiniões que se possa ter sobre Trump, que isso não seja pelo facto de ele se arvorar em manda-chuva que deixa ou proíbe os outros de falar. O que, a ser o caso, espoleta logo uma cascata de comentários á la mode de chez nous



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O Tó-tem no quintal, uma rosa cor-de-rosa a que nunca fará mal… (la-lari-lala



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Em traços largos, poder-se-á dizer que uma democracia assenta numa matriz básica de funcionamento - o Poder e a Oposição. O Poder governa e legisla, A Oposição opõe-se, critica, combate.

Em Portugal, como em muitas outras coisas, até neste desiderato tínhamos de ser originais. Em Portugal, o Poder governa, legisla, em última análise, pode. Já a Oposição faz o que lhe compete. Opõe-se. Só que, ao contrário do que seria de esperar, a Oposição opõe-se a ela própria. Não por via dos Partidos com assento na Assembleia, mas através de uma teia difícil de definir de órgãos de comunicação social, redes socais e uma parafernália de meios que sistemática e ferozmente a combatem. Os pivots de televisão, os comentadores, “paineleiros”, enviados especiais, os jornalistas em geral, os humoristas, os artistas (?), os intelectuais (??), os professores, os sindicatos e os próprios Partidos no poder e inúmeros outros agentes fazem uma permanente e agressiva oposição à Oposição. O que era suposto (expressão muito em voga no léxico socialista) era que que a Oposição fizesse oposição ao Poder. Em Portugal é o contrário. Os últimos dias têm sido um exemplo raro disto mesmo. A Oposição é acusada de tudo e um par de botas, muitas vezes de uma forma tosca mas, surpreendentemente, eficaz. Ainda ontem a Quadratura do Círculo (uma tortura que me auto-inflijo sem eu perceber bem porquê) foi um bom exemplo, quando o governo anterior parece amarrado a um totem com os “quadraturos” dançando, ululantes, à sua volta, prontos para lhe arrancarem o escalpe, ao mesmo tempo que mantêm um regiso encomiástico e laudatório, em regime permanente, ao Poder. Mesmo que este seja um exemplo trágico de uma via trágica para um desfecho que facilmente se adivinha trágico. Também impressiona Jorge Coelho, um lídimo exemplo da nossa classe política que consegue debitar vacuidades tipo «…o céu deve ser azul, porque assim não há nuvens e não havendo nuvens não chove e os portugueses precisam de sol tanto como as culturas, especialmente na nossa agricultura que precisa que tudo esteja bem e que principalmente não discutamos e deixemos o governo trabalhar…». Ontem foi mais ou menos assim, quando Jorge Coelho depois de dar uma tremenda sova no PSD acabou a rogar aos portugueses uma trégua de uma semana porque, confiemos, o governo vai resolver a CGD.

Resumindo. O PAF não é governo há cerca de um ano e após um período tremendamente difícil em que, apesar de tudo, conseguiu endireitar a nau e, não menos louvável, recuperou a confiança dos portugueses que lhe deram a vitória eleitoral, continua sujeito a uma barragem de críticas na comunicação social. Já a chamada “geringonça”, apesar de ter consubstanciado uma autêntica fraude pela forma como surripiou o Poder pelas vias tortuosas de uma Constituição ínvia, que não sei bem como alguma vez poderá ser revista e alterada, continua a merecer os favores do rebanho que apascenta.

Um «case study», diria eu.


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quarta-feira, julho 20, 2016

Nogueira rapidamente e em força para a Turquia



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Tenho esperado, sentado, uma reacção adequada da nossa Esquerda atenta e veneradora dos trâmites da liberdade, no que se refere aos recentes acontecimentos na Turquia. Quanto a professores, parece que pelo menos 15.000 foram ou estão a ser considerados perigosos reaccionários e, como o vírus que Erdogan refere, têm de ser expurgados. Senão mesmo decapitados, sabe-se lá se «Deus quando deu o recado ao presidente sobre a purga pós “golpe de estado”» não lhe terá dito que a decapitação é o castigo justo. Desgraçadamente os professores turcos não contam com o nosso Nogueira, senão outro galo cantaria.

Por muito respeito que me mereçam os infelizes que estão presos e provavelmente morrerão, tenho de reconhecer a parte positiva da questão. Qual seja a de que agora me parece mais plausível que o romantismo que envolvia a possível integração da Turquia na UE possa de uma vez por todas ser remetido para a reciclagem, como “spam”.


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terça-feira, julho 19, 2016

Relativizemos, para não nos sentirmos envergonhados



[5421]

A culpa é nossa. Da Europa, do ocidente e da forma deficiente como aplicamos o multiculturalismo. A maneira como desrespeitamos esta gente que procura na Europa um clima eventualmente melhor, quem sabe uma reforma, um médico ou uma casa, não pode estar sujeita a que se coma uma bifana à frente deles, que uma mulher guie um automóvel ou, imagine-se, pratique descaradamente o adultério. E isso de se vestirem pouco abala qualquer fiel. Alá é grande, mas a testosterona pode muito e não podemos esperar milagres. Temos, assim, que a interactividade e o multiculturalismo míope são uma vergonha. Já Sua Santidade o disse a propósitos das centenas de milhar de refugiados a desembarcarem diariamente na Grécia e na Itália. Sua Santidade zangou-se imenso e achou que nos devíamos envergonhar todos. Menos aqueles que vão bolçando umas tretas por cá, Rosas, Boaventuras, Ramos e demais palhaçóides que não se calam.

Entretanto, umas machadadas, punhaladas, catanadas, tiros, violações, bombas e camiões devem ser naturalmente relativizados, antes que Sua Santidade venha por aí outra vez dizer que nos devíamos envergonhar. Por acaso, eu também acho que sim. Certamente não pelas mesmas razões do Papa.


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Já fazia falta


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Não consigo entender porque tenho de estar sujeito a um Zé Sá Fernandes qualquer, aka Zé Faz Falta, cujo ressabiamento desemboca no mais bacoco primitivismo de ideias, vergonhas camufladas e um complexo de qualquer coisa disfarçado em preconceito ideológico, que o faz perder o respeito pelos seus concidadãos, pela sua História e pelas suas tradições. Porque não há História boa e História má. Há História tout court e é com ela que temos de viver. E não é um fabiano qualquer que se entretém a complicar a vida a quem está, que a vai mudar. O facto de Zé Sá Fernandes embirrar com as colónias não lhe dá o direito de tentar moldar a História à medida das suas idiossincrasias ou, talvez mais fácil de perceber, à sua cretinice e parolice.

Todavia, ele não é o único culpado. Culpados são todos aqueles que não só acham muito bem como ainda batem palmas. E o que arrelia é que eles são poucos. Mas com uma militância admirável, já que normalmente levam a sua avante. E ficam impantes de alegria. Mesmo custando uma pipa de massa, como nos custaram os atrasos do túnel do Marquês, hoje por hoje um notabilíssimo melhoramento no trânsito da urbe e que o Zé Faz Falta tentou impedir a todo o (nosso) custo.


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sábado, julho 16, 2016

United idiotic will always be patriotic





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Acordei, vim ao laptop e choquei com a defesa encarniçada do assassino que se entreteve a matar gente em Nice com o camião. Do que li, a «técnica» era apurada e em estrita concordância com os ditames da animalidade islâmica que quer acabar com os infiéis que vieram ao mundo para chatear o profeta.

A defesa vem da esquerda superior (isto da estrutura moral é um bocadinho como o futebol antigo, peão, superior e bancada, o peão para a Direita bronca e reaccionária, a superior para a Esquerda diligente que escreve em blogues e a bancada para a Esquerda no poder) que se permite até comparar a acção de Mohamed (sim, parece que o camionista se chamava Mohamed) com torcionários da direita extrema. O que é uma comparação que faz todo o sentido. Porque Mohamed precisava de ajuda, coitado. E não a obteve. Ao que parece, tinha família, emprego e vivia num país onde podia fazer o que lhe apetecia. Mas o homem tinha “issues”. Batia na mulher, tinha uns quantos probleminhas com a polícia e ninguém se lhe veio ao caminho oara o auxiliar.

Cá para mim a culpa é da Europa, do Bush, Barroso, Aznar, da chuva ácida, do deboche capitalista, do Goldman Sachs e da guetazição destes infelizes que se cansam das moscas de África e vêm para o fresquinho asseado europeu. Ah! E do Passos Coelho, Cavaco e Relvas, já me ia passando. As louras decotadas também podem ter a sua culpa. Mas culpa a sério tiveram aqueles que não se aperceberam que o homem precisava era de apoio psicológico. Vejam lá que ele até batia na mulher o que é um claro indício de que precisava de ser ajudado. Quem sabe a mulher até merecia uns estalos aqui e ali. E mais. Não era como aquele bandidote de extrema direita, o Breivik... O que vale é que o Papa anda muito calado, um dia destes sua Santidade vem pôr os pontos nos ii.

E, entretanto, a Esquerda superior vai-se confortando e ocupando o tempo à procura de criminosos de estrema direita para provar que este é um caso bem diferente, o que devia, indubitavelmente, envergonhar os europeus. Que se esquecem que há assassinos maus e assassinos bons.


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sexta-feira, julho 15, 2016

Relativizemos




[5418]

Há que relativizar os acontecimentos de Nice. Afinal, porque não pegar num camião e desatar a matar famílias com aqueles hábitos estranhos, festivos e infiéis de irem comemorar um feriado nacional e ver o fogo de artifício? Ainda por cima estava uma noite de calor. Calor de Verão, cheio de tentações espúrias para as mulheres de carne fraca que vão para a rua a mostrar os joelhos e os cotovelos ou, ainda, sabe-se lá, acabando a beber uma cerveja numa decadente esplanada?

O camionista, coitado, parece que era francês, natural de Nice. Veio da Tunísia porque talvez não gostasse do clima de Tunes e achou que em França fazia mais fresco. Além disso, dormir com uma francesa seria algo que até o profeta lhe desculparia, mesmo não sendo a francesa virgem e o jovem camionista sabia que o faria em nome da decadência da cultura ocidental, porque Alá é grande. O problema é que chegou a França e não é que os franceses mandam os emigrantes todos para guetos? Usam cruzes, fazem desenhos e anedotas sobre o profeta e os emigrantes não interagem com os franceses de França?

Esta será pelo menos, a ideia com que se fica, depois de ouvir as continuadas intervenções nas nossas TV’s, sobretudo a de serviço público. Que nos vai desbobinando estes temas e as idiossincrasias dos franceses como quem discute um off-side do Ronaldo. Alguns deles, jovens, que deixam a dúvida de que alguma vez passaram ”inda além da Trafaria”… jovens nascidos e formatados num Portugal cheio de aleijões e de jargões políticos que eles padronizam para darmos lições ao mundo de como as coisas devem ser feitas, em se tratando de emigrantes. Parece que a formatação não terá servido de muito. E por isso temos uma soberania limitada, devemos dinheiro a meio mundo e temos um governo à la Maduro, que um dia destes nos obrigará a atravessar o  Minho ou o Guadiana para irmos comprar esparguete, pasta de dentes, aspirinas e outros artigos de luxo, tal como os venezuelanos o fazem na vizinha Colômbia. Mas temos sempre esta superioridade moral que nos permite explicar aos franceses como é que eles deviam fazer com os emigrantes para eles não se sentirem excluídos e não irem para o promenade des anglais (que raio de nomes que os infiéis arranjam...) matar criancinhas. É só ouvir na televisão.


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quinta-feira, julho 14, 2016

E o tempo vai passando



[5417]

No passado dia 7, o Espumadamente fez 12 anos. Cerca de 5500 posts, muitas alegrias e algumas arrelias enquadram a existência deste blogue que, independentemente da sua qualidade, é, por certo, um dos mais antigos.

Contrariamente ao habitual, não fiz alusão ao aniversário por ter estado ausente em viagem pontilhada por frequentes lapsos na Internet.

Sem embargo de reconhecer que a assiduidade e, quiçá, o interesse e qualidade dos posts poderão ter decaído num passado recente, não posso deixar de acusar a geringonça e o seu rubicundo e ridente mentor como causas próximas desse desiderato. A verdade é que muitas vezes começo na disposição de escrever sobre coisas interessantes e gostosas e acabo no desinteresse e mau gosto de falar na criatura mai-lo seu esgar sorridente e a sua inominável conduta (esta é a parte em que, estou certo, alguém, pensará: -  “deixa lá o homem”).

Já algumas vezes pensei em fechar a loja. Mas com 12 anos de activo, confesso que tal me soaria a «bloguicídio». Assim sendo, vamos continuando e prometo procurar remeter o geringonço-mor para a irrelevância a que ele, efectivamente, deveria estar votado.


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Back in business



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Soft landing. Becagueine. Safe, sleepy and sound.


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