quinta-feira, agosto 11, 2011

Não se faz. Andarmos mais de 30 anos a enganar as crianças...





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Isto da verdade é como o azeite. Vem sempre à tona. O Egas e o Becas, duas das mais conhecidas personagens da série americana eram gays. Desde 1969 que os dois viviam sob a mesma telha e no mesmo quarto e mesmo em 1989, quando a RTP iniciou a produção portuguesa da série, eles mantiveram o mesmo regime de habitação, mas só agora se concluiu que eram gays. Foi uma violência o que se fez às crianças dos anos setenta e oitenta, ao não se desvendar a orientação sexual dos bonecos. Imagino o trauma de muita gente, hoje com trinta e quarenta anos a quem se negou o direito à verdade em nome de pruridos idiotas. Felizmente que corre já uma petição para que os dois se casem. Já leva 1300 assinaturas e isso evitará que as crianças de hoje sejam logradas como foram as de sessenta e oitenta.

Resta a esperança que os mesmos desenvolvimentos ocorram agora em relação a Branca de Neve e ao Capitão Haddock. As suspeitas de que Branca de Neve era lésbica relevam de se saber de fonte segura que o final do príncipe beijando a princesa foi um arranjo para que as crianças não soubessem a verdade. Qual seja a da bruxa má não ter morrido no tal penhasco, ter ela própria beijado a princesa para a despertar do sono, pedir-lhe desculpa pelos ciúmes que tinha sentido (Branca de Neve tinha tido uns devaneios com um cavaleiro do reino antes de ser expulsa, que ela era assim um bocadinho folgada. Uma questão de ciúmes lá entre elas, portanto, sabe-se agora) e levá-la de novo para o castelo. Onde casaram, não tiveram filhos, que ainda não havia procriação assistida, mas viveram muito felizes.

Já sobre o Capitão Haddock, apesar da virulência do seu carácter, investigações recentes concluem que ele tenha sido um gay passivo que obrigava o professor Tornesol a concubinato episódico nos intervalos das suas experiências científicas. Estranha-se que Tin-Tin nunca tenha desconfiado, o que não abona muito as suas cantadas capacidades de jornalista arguto, apesar de insistentemente alertado por Milu.

Enfim, felizmente que a nossa sociedade se vai libertando destes tabus que durante anos condicionaram e mal conduziram o imaginário das pobres crianças entregues ao breu da ignorância e dos preconceitos. Hoje é-lhes possível ler as histórias e ver os filmes com uma total abrangência, sem aleijões da verdade. Pela parte que me toca eu tinha algumas desconfianças do capitão Haddock. Já sobre a Branca de Neve… nunca tal me passara pela cabeça, confesso. Os meus netos podem agora crescer mais descansados. Informados. Escovados. Descomplexados.
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sexta-feira, abril 08, 2011

Espero não levar com um telemóvel na cabeça

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Aqui está uma coisa que me apetecia dizer há um ror de tempo. Por isto ou por aquilo, não o tenho feito. Provavelmente com o receio subconsciente de levar com um telemóvel na cabeça, entre o bife e o leite-creme.

Mas já que a Luísa aflorou o assunto e porque eu nunca o faria com o brilho que ela empresta a qualquer sentença que contenha mais de duas palavras, aqui fica este texto. Que tomo até a liberdade de dedicar. Só não digo à Luísa a quem o dedico porque não a quero pôr em risco de levar também com um «gadget» na cabeça.

Embora se atribua ao Renascimento o grande salto civilizacional «à table», «l’Histoire» comprova que remontam às «trevas» medievais as primeiras orientações sobre boas maneiras. Assim, já nos finais do século XI ou princípios do século XII, Pedro Afonso, judeu espanhol convertido ao cristianismo, aconselhava, em obra escrita sob a forma de diálogo entre pai e filho, que não se falasse com a boca cheia e se lavassem as mãos antes e depois das refeições. E um pouco mais tarde, Hugues de Saint-Victor, monge de uma abadia parisiense, condenava o que «fazem uns quantos que, uma vez sentados à mesa, denunciam a anarquia dos seus espíritos pela agitação e a desordem febril dos seus membros», recomendando discrição, moderação e asseio. O século XIII veio estigmatizar as posturas grotescas: o comensal devia manter o aprumo e não cruzar as pernas, nem pôr os cotovelos na mesa. E os séculos XIV e XV vieram repudiar os comportamentos anti-higiénicos, inestéticos e incómodos, como respingar sopa sobre o vestuário, demolhar o pão no prato do vizinho (sem prévia autorização deste), palitar os dentes com a faca ou deixar-se embriagar. Finalmente, no século XVI, Erasmo, em «A Civilidade Pueril», considerava de mau tom que se mergulhassem os dedos nos molhos, que se vasculhassem as travessas em busca dos melhores pedaços e que se limpassem os dedos engordurados à roupa ou à língua. A estes e outros preceitos de sã sociabilidade, que ainda hoje se mantêm em vigor, cumpriria adicionar, no nosso século, mais um, que os excessos de modernidade nos têm feito ignorar: é ele evitar a todo o custo o que fazem uns quantos que, imiscuindo o telemóvel no convívio entre pratos e talheres, denunciam o cerceamento dos seus espíritos pela dependência obsessiva de gadgets.

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