domingo, agosto 30, 2015

À la mode de chez nous



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Almoço na Ericeira com amigos e regresso sereno e reconciliado com um país que nos oferece este mar, a foz do Lizandro, a Adraga, o marisco e bons amigos.

E é em pleno gozo deste conforto espiritual que me entra no habitáculo a voz saltitante de uma apresentadora da RR que, aparentemente, tem um programa diário no qual questiona crianças de cinco a seis anos sobre coisas da vida. E ouvi o seguinte (nas respostas das crianças há que imaginar aquele tom e ritmo de uma criança de 6 anos a falar):

- Então e sabes o que são os impostos?

- Sim.

- E para que servem os impostos?

- Para comprar carros e coisas.

- Olha, o governo compra muitos carros?

- Sim.

- E achas que eles deviam comprar assim tantos carros?

- Nãããão, eles não precisam de tantos carros.

- E quem paga os impostos?

- Somos nós, mas não podemos pagar tantos.

- Se fosses tu a mandar o que fazias com o dinheiro dos impostos?

- Eu não comprava tantos carros

O diálogo continuou e fico por aqui, com receio de me enganar, por pudor e por respeito por mim próprio. Pervertendo maldosamente o poeta, pensei e disse para mim:

- Pobres filhos que tal Pátria (não tão ditosa assim) têm.

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quinta-feira, agosto 11, 2011

Não se faz. Andarmos mais de 30 anos a enganar as crianças...





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Isto da verdade é como o azeite. Vem sempre à tona. O Egas e o Becas, duas das mais conhecidas personagens da série americana eram gays. Desde 1969 que os dois viviam sob a mesma telha e no mesmo quarto e mesmo em 1989, quando a RTP iniciou a produção portuguesa da série, eles mantiveram o mesmo regime de habitação, mas só agora se concluiu que eram gays. Foi uma violência o que se fez às crianças dos anos setenta e oitenta, ao não se desvendar a orientação sexual dos bonecos. Imagino o trauma de muita gente, hoje com trinta e quarenta anos a quem se negou o direito à verdade em nome de pruridos idiotas. Felizmente que corre já uma petição para que os dois se casem. Já leva 1300 assinaturas e isso evitará que as crianças de hoje sejam logradas como foram as de sessenta e oitenta.

Resta a esperança que os mesmos desenvolvimentos ocorram agora em relação a Branca de Neve e ao Capitão Haddock. As suspeitas de que Branca de Neve era lésbica relevam de se saber de fonte segura que o final do príncipe beijando a princesa foi um arranjo para que as crianças não soubessem a verdade. Qual seja a da bruxa má não ter morrido no tal penhasco, ter ela própria beijado a princesa para a despertar do sono, pedir-lhe desculpa pelos ciúmes que tinha sentido (Branca de Neve tinha tido uns devaneios com um cavaleiro do reino antes de ser expulsa, que ela era assim um bocadinho folgada. Uma questão de ciúmes lá entre elas, portanto, sabe-se agora) e levá-la de novo para o castelo. Onde casaram, não tiveram filhos, que ainda não havia procriação assistida, mas viveram muito felizes.

Já sobre o Capitão Haddock, apesar da virulência do seu carácter, investigações recentes concluem que ele tenha sido um gay passivo que obrigava o professor Tornesol a concubinato episódico nos intervalos das suas experiências científicas. Estranha-se que Tin-Tin nunca tenha desconfiado, o que não abona muito as suas cantadas capacidades de jornalista arguto, apesar de insistentemente alertado por Milu.

Enfim, felizmente que a nossa sociedade se vai libertando destes tabus que durante anos condicionaram e mal conduziram o imaginário das pobres crianças entregues ao breu da ignorância e dos preconceitos. Hoje é-lhes possível ler as histórias e ver os filmes com uma total abrangência, sem aleijões da verdade. Pela parte que me toca eu tinha algumas desconfianças do capitão Haddock. Já sobre a Branca de Neve… nunca tal me passara pela cabeça, confesso. Os meus netos podem agora crescer mais descansados. Informados. Escovados. Descomplexados.
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