quarta-feira, agosto 26, 2009

Pensar nas pessoas


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Pensar nas pessoas – aqui está uma expressão querida à esquerda moderna que não percebe que de tanto pensar nas pessoas acabam por chateá-las até ao tutano e prejudicá-las consideravelmente. A esquerda pensa nas pessoas quando projecta aeroportos, TGV´s, aumenta o défice, corta o tráfego automóvel, condiciona acessos ou visita bairros problemáticos de cada vez que alguns dos seus moradores assaltam, roubam ou molestam outras pessoas (por acaso também pessoas, mas não servem tão bem o propósito).

António Costa deve ter pensado pelo menos em dez pessoas que estão a precisar de fazer exercício. Elas terão, a breve trecho, uma ciclo via onde poderão derreter lípidos e colesterol, desentupir artérias e enrijecer os gémeos. Em breve teremos dez pessoas mais saudáveis e que, eventualmente, viverão mais tempo (se, lagarto, lagarto, não caírem da bicicleta).

O custo desta medida será o aniquilamento de 400 a 500 lugares de estacionamento no Bairro Azul. Mas também, por que diabo é que esta gente se havia de lembrar de ter carro? Costa já disse que quer acabar com os carros em Lisboa, uma tirada que lhe vai muito bem com a gravata e muito em uso nesta repartição. Cai mal a toda e gente que tem e precisa de carro para se deslocar mas cai-lhe bem a ele mai-los seus correligionários.

Não caírem eles da bicicleta…
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quinta-feira, março 22, 2007

Ler à mão...



Gerard TERBORCH
Woman Writing a Letter
Mauritshuis, The Hague


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Chego a casa e abro, maquinalmente, a caixa do correio. Três envelopes com contas para pagar, um envelope duma loja de marca com um cartão lá dentro que me garante um desconto qualquer (não me lembro de alguma vez lá ter comprado alguma coisa, mas deve ser a famosa “base de dados”…), o jornal da região, um postal da PSP a dizer que tenho de ir à esquadra para apresentar os papeis do carro, uma circular assinada por um senhor Ferreira que faz trabalhos em estuque, pinturas e pequenos arranjos e que se eu estiver interessado que telefone para um número qualquer, uma carta-menu de refeições já cozinhadas e mais um punhado de lixo do género.

Tenho saudades do tempo em que me sentia um ser humano quando abria a caixa, reconhecia três ou quatro cartas de amigos ou familiares, me sentava na sala e as lia. Eu sei que é o progresso, a facilidade de abrir o computador ter o correio ali à disposição para ser lido e “movido para a pasta x", mas palavra de honra que me apetecia receber uma carta genuína, daquelas escritas à mão, a começar chamando-me pelo nome e, numa caligrafia familiar, me proporcione o intimismo próprio duma conversa com alguém que conhecemos e apreciamos. É que dou comigo a pensar que com o advento do e-mail tenho inúmeros amigos que me escrevem e acreditam que não lhes conheço a letra? Não é exagero, eu conheço pessoas com quem mantenho contacto mais ou menos regular e cuja caligrafia é para mim totalmente desconhecida. Conhecê-la seria coisa, suponho, que não devia ferir os grandes princípios gerais da modernidade.

E fico-me por aqui. Porque com tantas contas e circulares que recebi na caixa do correio está, finalmente na hora de abrir os e-mail. Gente diferente, toda com a mesma letra…


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