domingo, novembro 09, 2014

Acreditar na liberdade e na «free will»


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Faz hoje vinte e cinco anos que me sentei a bordo de um avião da SAA para me deslocar a Joanesburgo, coisa que, de resto, eu fazia todos os meses uma ou duas vezes, quando vivia em Maputo.

Mal o avião descolou começou a circular a notícia da queda do muro de Berlim. São os mistérios da propagação das notícias, sobretudo se pensarmos que a net nessa altura era ainda um brinquedo de tempos livres, mas a verdade é que as notícias se propagam um pouco como a fé. Sem a gente perceber bem como.

Em Joanesburgo, tive acesso à confirmação da notícia, já com algum detalhe. Foi, sem receio de errar, um dos dias mais marcantes da minha vida. Para quem como eu, juntou ao que lera e estudara sobre os regimes comunistas as «aulas práticas» que a vivência em alguns países sob domínio da União Soviética me proporcionou, o derrube do muro constituiu um facto inesquecível e uma reconciliação com a espécie, no caso, a minha.

Com o derrube do muro instalou-se em mim, mais do que a noção de que passariam a existir novos rumos de economia e desenvolvimento, o respeito pelo primado do individualismo e da liberdade, coisa que os cidadãos desses países não tinham. Pior: liberdade, julgavam que tinham. Individualismo era, um fenómeno reservado aos cidadãos do mundo ocidental que não haviam tido a fortuna de ser doutrinados nas premissas básicas do homem novo, cheio de amigos a cada esquina e enformado no espírito universal e internacionalista.

Vinte e cinco anos depois, há ainda muita gente que sonha com o regresso do muro. Feliz e saudavelmente, os comunistas foram desaparecendo do horizonte político da Europa e mesmo do mundo. Mas em Portugal existe esta espécie de indomável aldeia gaulesa que continua a pugnar pelo retorno das liberdades e pela aniquilação do grande capital e dos poderosos (ou, para citar Mário Soares, dos magnatas do petróleo) – vale a pena ler o último Avante. Uma situação que contribui decisivamente para este limbo em que ainda nos encontramos e que é mesmo motivo de chacota na opinião das democracias europeias. E como se isso não bastasse existe mesmo, para usar um termo do futebol, uma vaga de «segundas bolas» manejada pelo chamado «socialismo democrático» que nos coloca periodicamente na penúria, na bancarrota e mantém um inqualificável regime de doutrinação junto dos mais desfavorecidos e da juventude, por via de sistemas que aprenderam e sublimaram no marxismo.

Mas hoje é dia de celebração de «muro abaixo». E isso devia ser motivo de imensa felicidade para todos os amantes da liberdade. A RTP devia fazer serviço público e, no mínimo, passar o filme Good Bye Lenine.

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segunda-feira, novembro 09, 2009

Pudessem eles...


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O muro de Berlim era o que a maioria das pessoas sabe. Ainda que muitas dessas pessoas, por mais novas, tenham uma imagem algo distorcida da realidade e outras se tenham rápida e convenientemente travestido de esquerda moderna perante a impossibilidade de reformar o comunismo (esta do comunismo reformável ouvi ao Daniel Oliveira no Eixo do Mal, quando afirmou que o dia da queda do muro foi o dia mais feliz da vida dele).

Com o muro terá caído um regime, mas não terão caído muitas pessoas que o tornaram possível. Pessoas perfeitas, iluminadas e a quem lhes foi consignado o privilégio de indução de comportamentos para uma sociedade perfeita. É dessas pessoas que eu ainda hoje tenho medo. Porque foram elas que alimentaram o mais cruel e sanguinário dos regimes, não só pela perda trágica de milhões de vidas como pelo estabelecimento de uma sociedade castrada a que nada era permitido senão comer, ver, ler e ouvir exactamente e apenas o que lhes era autorizado. Era, possivelmente, o lado mais trágico do regime que aguardava, guloso, o avanço de gerações já nascidas sob a pata socialista e que nada mais conheciam que não fosse a geometria fixa da sua existência. Dessas pessoas iluminadas, dizia eu, tenho medo ainda hoje. Porque estão despeitadas pela derrota, porque perderam privilégios e porque possuem um ADN incompatível com a liberdade. Porque ainda não perceberam que as pessoas preferem o primado da liberdade e a individualização da vontade, mesmo que para isso tenham de pagar preços tão elevados como a corrupção e as injustiças sociais. Porque podem pelo menos, lutar contra elas. Ao contrário das sociedades comunistas que não podiam lutar por nada, a não ser pelo que lhes mandassem.

Vinte anos depois da queda do muro, sinto uma grande alegria porque as pessoas conseguiram deitá-lo abaixo. Fica-me a saber a pouco, já que há um punhado de gente que merecia um real enxerto de porrada. Mas o tempo passa e os ódios diluem-se. Mesmo por aqueles que ainda hoje acham, que a queda do muro foi uma catástrofe. Desses, pudessem eles, ainda poderíamos vir a ouvir falar. Pudessem eles…

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