quarta-feira, agosto 10, 2016

Oui. Ou a vã glória de mandar




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Este deveria ter sido o título do filme de Manuel de Oliveira (de resto, um filme que tentei compreender, sem resultado, e me fez duvidar da minha inteligência, face à torrente encomiástica que já na altura corria impetuosa pelo leito da fama) e não o “Non”.

Porque mandar, para os portugueses, é um artefacto mental só ao alcance de certos funcionários que vêem no mando a afirmação antagónica à sua pequenez. Essa terá sido, por exemplo, uma razão do êxito rotundo dos fiscais das licenças de isqueiro, nos idos de cinquenta e sessenta, para proteger a indústria dos amorfos. E era vê-los, disfarçados e sub-reptícios numa mesa de café, aguardando pelo gesto descuidado de um cidadão acendendo um cigarro com isqueiro para se levantarem, impantes, da cadeira e exigir a necessária licença de isqueiro. Os contínuos das universidades eram outro exemplo categórico da êxtase do "poder".

Esta cena das bolas de Berlim é muito semelhante. Não consigo estimar quantas bolas de Berlim se vende nas praias, mas consigo adivinhar que os réditos são exíguos e sem qualquer expressão nas receitas do erário público. Mas sei imaginar o gáudio de um “fiscalete” das finanças e a sensação orgástica de um yes-man durante as quarenta horas semanais (quase a serem trinta e cinco) a passar uma multa a um homem que numa manhã de árduas caminhadas na praia trabalha mais que o fiscal durante o mês todo. Ah! E com a virtude de, ao contrário destes tiranetes de esferovite, tornarem muita gente satisfeita.

NOTA: este post incluia uma foto de um repórter do JN que foi erradamente tomado como um fiscal de finanças multando um vendedor de bolas de Belim. A Alexandra Sobral chamou-me a atenção para o facto pelo que de imediato retirei a foto e peço desculpas.. E agradeço sinceramente à Alexandra.




Peço desculpa


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sexta-feira, maio 22, 2009

Flirt com selo branco em uso nesta repartição. Ou, hormonas de serviço público


É aqui. Na porta 1.08.01, não esquecer

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Deveres de ofício levam-me a Angola e, concomitantemente, a cumprir um processo kafkiano de exigências, algumas das quais presenciais.

Uma das exigências é, agora, um registo criminal que me levou, naturalmente, a duas lojas do cidadão, onde percebi que os interessados se postam em bicha ordeira ainda antes das portas abrirem, para obterem uma senha mágica que lhes permite ser atendidos para o fim em vista. Essas senhas esgotam ao fim de cerca de duas horas e não há simplex que valha a esta realidade. Depois de visitar duas lojas, acabei por ser aconselhado por uma funcionária simpática que o local menos sobrecarregado era no Parque das Nações, num departamento do Ministério da Justiça. Lá fui e reconheço ter ficado surpreendido com o ar funcional e moderno do edifico, enquadrado num cenário moderno e arejado. Só não gostei da porta 1.08.01, continuo a achar que as portas devem ser 1, 2, 3, 4 ou, quando muito, A, B, C, D e por aí adiante. Um edifício na rua D. João II, nr. 1.08.01 (endereço real) só pode resultar do engenho português.

Numa sala com quatro balcões de atendimento, lá me dispus a esperar a minha vez que era o D 62, numa altura em que o atendimento ia no C quarenta e qualquer coisa. Daqui resultou uma espera de cerca de duas horas e meia para um assunto que levou dois minutos a resolver. Mas isto, sou eu, que cheguei ao balcão, disse que queria um registo criminal e mo deram, sem mais delongas, após pagar não € 3,50, mas sim € 1,75 de requerimento mais € 1,75 de emissão, o que faz toda a diferença e me levou a entender que deve ser possível fazer um requerimento (e pagar) e depois não querer o certificado para nada ou, outra hipótese, que as receitas caibam depois em rubricas diferentes, o que poderá ser outra virtualidade do simplex.

Sentado, aguardando, entretive-me a observar um fenómeno curioso e que julgo extensivo a outras repartições, porque já o vi. É que a maioria de quem nos atende são mulheres. Algumas são, até, atraentes. E é aqui que está o busílis. Quando reparamos que a numeração das senhas está a andar depressa, há sempre um macho latino que começa a circular entre as colegas funcionárias e deve ter mil assuntos para tratar com elas, porque todas elas param e são, naturalmente, obrigadas a responder e a alimentar um diálogo de sorrisos, risinhos e dichotes mais ou menos ininteligíveis ao rebanho em espera. Isto aconteceu umas quatro ou cinco vezes enquanto esperei, sobretudo junto de uma das funcionárias, por coincidência a mais atraente, uma mulheraça de trinta e poucos anos, morena e com uns olhos enormes, impossíveis de passar despercebidos, depois, claro, de observadas outras minudências que o seu corpo generosamente mostrava. O macho, careca, alto e com ar de quem não sai de casa sem puir o espelho com a sua imagem por longos minutos, entrava pelo friso das atendedoras e falava e falava e falava e, às vezes, chegava a colocar a mão no ombro da mais bonita, certamente para lhe fazer sentir o espírito fraternal (paternal?) de que ele se deve sentir imbuído frequentemente e querendo significar que as mulheres podem confiar nele.

A irritação era grande e traduzia-se numa quase paralisação dos números de chamada de cada vez que o machão “atacava”. Sobretudo quando pensávamos que aquele exercício de flirt em directo terminava, enfim, e o macho acabava por se voltar, dar mais dois passos e regressar à pessoa de quem tinha uma evidente dificuldade em descolar. As pessoas, em espera, olhavam distraídas e acomodadas a este tipo de situações. Mas eu confesso-me invadido por um formigueiro tremendo que se não tinha nada a ver com facto de o homem se passear de plumas enfunadas junto do gineceu, tipo pombo a arrulhar, tinha, com certeza, a ver com o facto de que às duas e um quarto eu ainda não tinha um papel na mão a dizer “nada consta”, pelo qual eu iria pagar €1,75 pelo requerimento e €1,75 pela emissão.

Daqui deixo um aviso aos incautos. Quem se atrever a pedir um registo criminal no Ministério da Justiça ao Parque das Nações (porta 1.08.01, não esquecer o pormenor) deve manter-se calmo e frio com um senhor que deve ser chefe de secção, cá para mim, e que se acha irresistível perante as colegas. Porque se nos deixamos arrastar pela fúria ainda fazemos alguma que nos vai manchar o registo criminal. Que se quer limpinho, impoluto, senão não podemos ir a Angola.

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