quinta-feira, agosto 26, 2010

Comer bem, apesar de


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Um dos insondáveis mistérios da vida portuguesa é a nossa extraordinária capacidade para cozinharmos bem, transformando qualquer prato trivial num pitéu. Mistério porque se analisarmos o circuito «peça a peça» tudo parece conjugado para que a coisa corra mal. Falando de restaurantes do tipo «porta sim porta não» que abundam pela cidade e onde diariamente milhares de lisboetas como eu têm compulsivamente de almoçar, é de registar como na maioria deles se come bem e barato. Há meias doses a €6 e mini pratos a €5. Comida caseira, bem apaladada, tempero ajustado e… fiquemos por aqui porque se começarmos a reparar «peça a peça», como dizia lá trás, não dá para entender. Espaços exíguos, extracção de fumos deficiente, calor opressivo (há sempre um mastigante preocupado com a corrente do ar condicionado e respectivos ácaros), atoalhados de papel, lavabos a centímetros de uma mesa, cadeiras encavalitadas em espaços a lembrar os voos «low cost», barulho infernal de vozes misturadas com toques de telemóvel que vão desde a Cavalaria Rusticana ao último êxito do José Carreira, passando por trovoadas tropicais ou orgasmos lancinantes, som estilhaçante de pires e chávenas em permanente choque a serem depositados no topo de máquinas de café, gente em pé à espera que acabemos de comer para assaltarem as mesas, enfim, um cenário que me levou seguramente dez anos a entender, quando percebi que dali para a frente seria assim, teria de almoçar todos os dias fora. Mas depois… vem a patanisca com o arroz de feijão, a alheira… o bitoque da vazia, as favas à portuguesa, a feijoada, as iscas com elas, o bacalhau ou o polvo a murro e toda uma série de iguarias que tivemos a dita de saber manipular ao ponto do resto ser mais ou menos suportável. Mas que dá que pensar, dá. Como é possível que do verdadeiro caos que é hoje um restaurante barato em Lisboa saia um prato de boa comida, mesmo que não devamos eventualmente fazer muitas perguntas de como é que ela feita, é, para mim, um verdadeiro mistério.

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quarta-feira, julho 29, 2009

Em Lisboa, obra-se profusamente neste Verão


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Lisboa está insuportável. Obras, buracos, bandeirinhas, montes de areia, montes dessas indizíveis e malfadadas pedras da indizível e malfadada calçada portuguesa, sinais de trabalhos, desvios, poeira (nuvens de pó, uma das razões porque me questiono como é passa pela cabeça de alguém comprar um descapotável em Lisboa…), tambores vazios, ruas esventradas com uns cabos a aparecer que alguns operários me disseram ser fibra óptica, um mundo de incómodos, barulho, poluição, tudo refogado na caldeirada do desleixo, gritaria, palavrões, carrinhas estacionadas a esmo, de gente que está a trabalhar e total desorganização – uma imagem de marca afinal.

É assim que ao tradicional período de férias, em que Lisboa se torna mais ou menos habitável pelo notório decréscimo de trânsito automóvel, aconteceu este ano uma autêntica praga de obras e obrinhas que fazem desesperar um cidadão. Na parte que me toca, há uma inacabável obra na recta do Dafundo, onde se arranca a pedra da calçada, se faz valas, se tapa valas, se estaciona tractores e escavadoras ao longo do passeio. Certamente que a obra deve servir para alguma coisa, mas começou há cerca de um mês e pelo andar da carruagem deve haver ali marmelada para mais um mês ou dois. Ou seja, para quando toda a gente vier de férias.

Decidi-me a passar a usar a A5. O problema é que há sempre um acidente junto à pimenteira, ou junto à saída para Carnaxide, ou junto a uma treta qualquer que obriga a circular só numa faixa, provocando uma bicha (na rádio, cuidadosos e reverentes, os locutores dizem fila) que começa no viaduto Duarte Pacheco. Será que me acabaram com um dos pouco prazeres lisboetas que sobreviviam ao caos – leia-se circular, comer e ir ao cinema no Verão?
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quinta-feira, julho 02, 2009

Lisboa SOS


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O Lisboa SOS completou um ano. Tanto quanto felicitá-lo, importa agradecer o excelente serviço que tem vindo a prestar, na denúncia das situações mais bizarras de Lisboa e que espelham bem a forma como esta cidade é tratada, sem respeito pelos munícipes, sem respeito por ela própria – hoje por hoje uma das mais belas capitais europeias, mas num lamentável estado de decrepitude e sujeira, muitas vezes por pura negligência e incompetência por parte de quem tem a obrigação estrita de o fazer.

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quarta-feira, junho 25, 2008

A extraordinária leveza das coisas boas da parte boa das rotinas


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O meu itinerário a caminho do trabalho inclui uma passagem rente ao rio, desde Algés até ao viaduto da Infante Santo e é uma das coisas incluídas na parte boa das rotinas. Ontem, a rotina foi enriquecida pela presença do maior, mais pesado e, na minha opinião, mais bonito navio do mundo. O QM2 lá estava, magnífico, atracado junto ao Salsa Latina, tornando Lisboa ainda mais bonita.

Quem terá tido a sorte de se cruzar com ele, como eu?

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quarta-feira, agosto 29, 2007

O estrugido nacional



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O refogado é, certamente, o cheiro nacional. Não haverá um português que não tenha alguma vez identificado este odor. Muitos prédios em Lisboa oferecem o cheiro a refogado de brinde a quem quer que neles penetre. É uma daquelas coisas inexplicáveis – o resultado da utilização de um punhado de ingredientes naturais, como o azeite, a cebola, o alho e o tomate, que deveriam cheirar da mesma forma aqui, na Alemanha, no Chile ou na Austrália. Mas não. Desafio alguém que me diga que alguma vez tenha cheirado um refogado como “o nosso” fora das nossas fronteiras.

Por outro lado todos sabemos que o ritmo trepidante da vida dos nossos dias não se condoeu com a sacralização do "almocinho português". Portugal deve ser o único país do Mundo que pára para almoçar. É o motorista de táxi com a tabuleta no vidro a dizer – almoço, são os vários serviços que não atendem porque estão na hora de almoço, são mesmo aquelas consequências mais graves de episódios que correram mal porque "A" estava a almoçar. Mas, numa universidade, Senhor?

Daí que este post no 31 não me surpreenda. O cheiro a refogado da faculdade de letras é conhecido e uma filha de pituitária afinada e sensibilidade apurada já me tinha dito isso mesmo. Que a faculdade cheira frequentemente a refogado e que o bar serve de cenário, com regularidade, aos tais churrascos de fêveras.

Por razões diversas já visitei algumas universidades em países diferentes. Em nenhuma delas me ocorre ter visto churrascos ou cheirado a refogado. É uma daquelas coisas em que somos especialistas. Situações únicas. Neste caso, levar à Academia o odor do estrugido nacional. Com jeito, o Zé ainda repara e propõe mais uma marca: - Refogado Académico Lisboeta.
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