terça-feira, fevereiro 11, 2014

E não há quem lhe mostre o cartão vermelho


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O «Zé faz falta» não faz falta nenhuma. Sobretudo, sai caro. Mas há quem goste, como um tal José Caetano que é presidente da Federação Portuguesa do Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta, um organismo que me faz tanta falta como o Zé.

Convenhamos que é demais. Ele é o túnel do Marquês (custou-nos milhões A MAIS) ele é searas em Sete Rios, ele é pavimentos especiais de corrida no Príncipe Real ele é, claramente, um subproduto da nossa atávica propensão para o disparate e emulação. Uma espécie de bolo daqueles em que vamos dispondo os ingredientes em camadas. No nosso caso, uma camada de gente, uma camada de iluminados que acham que vieram ai mundo para nos ensinar a viver como deve ser, outra camada de dirigentes probos e vanguardistas, que acham que o que faz falta à malta são os Zés que fazem falta. E por aí fora. Normalmente sai um bolo chocho, mal cozido, mal parido. E caro.

E com tanta falta que o Zé faz, não há quem lhe mostre o cartão vermelho!

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quarta-feira, julho 13, 2011

Dótores



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Saí do escritório mal disposto. O dia correra mal. Cheguei ao carro e irritei-me. O carro estava coberto por uma desusada camada de pó que me fez odiar carros pretos. Entrei e arranquei. A TSF dizia uma barbaridade qualquer que me provocou azia. Mudei para a Renascença que dá terços e novenas àquela hora, mas já tinham acabado e emitia uma repousante «chuva de prata» da Gal que me reconciliou um bocadinho com o mundo. E de tal maneira que, ao descer a João de Deus e após quase parar para deixar passar um homem idoso meio descuidado a atravessar a rua, comecei a sentir-me melhor. O portão principal do Jardim da Estrela reconciliou-me com o Universo e foi já razoavelmente invadido por aquela sensação de homem justo que parei o carro antes da passadeira de peões entre a paragem do eléctrico e o portão do jardim. O sol batia de frente e a minha reconversão ao bem-estar era de tal maneira que até gostei. Gostei do brilho, do calor e quase achei graça ao facto do vidro dianteiro estar muito sujo com o pó que o cobria. Reconciliado com a vida, com a Gal ainda a cantar, o sol a bater, o jardim à direita, a magnífica fachada da Basílica à esquerda, esguichei o vidro para o lavar. Gostei particularmente de perceber que o líquido continha uma espuma eficiente e perfumada, o que indicava que a revisão recente ao carro tinha sido cuidada. Definitivamente rendi-me à vida que é bela e eu é que nem sempre caibo nela.

Pensei cedo demais. Neste preciso momento ouvi um piiiiiiiiiii estridente atrás de mim. Um taxista fazia gestos estranhos tipo «ande para a frente»… mas eu tinha carros em bicha à minha frente. É certo que tinha o espaço da passadeira e nesse momento não passava ninguém, mas naquele sítio está sempre gente a passar. E eu percebi, então, que o taxista apoplético atrás de mim, achava que eu estava a desperdiçar seguramente uns três metros de via, eu devia andar para a frente porque não estava a passar ninguém. Pensei em fazer-lhe um manguito pelo retrovisor, mas reparei que tinha a mão ocupada a premir ainda o dispositivo do lavador de vidros, quando…

- pumpumpumpumpumpum (um som semelhante a uma mula aos coices, tipo cascos almofadados, no vidro do lado direito).

Olhei para o lado, estupefacto, meio atordoado, e vejo outro taxista (reparei depois que há ali uma paragem de táxis), metro e meio de gente, barba de três dias e bigode daqueles que dão a ideia de cheirarem a azedo, olhos pequeninos envolvidos por uma espécie de pálpebras inchadas e ar de besta cavalar abortada num campo de urtigas, esbracejando e berrando. Abri o vidro com a mão esquerda (a direita continuava premindo o esguicho…) e perguntei:

- O que se passa?
- Que se passa? Então bócê não bê o que está a fazer ao meu carro, c…?
- Fazer ao seu carro? Bati-lhe? Que aconteceu?
- Num bateu nada porra, bocê está, a molhar-me o carro todo, não está ber?

Reparei então que o esguicho do meu carro, que tem quatro saídas, realmente lhe molhava o táxi estacionado, já que estava um dia particularmente ventoso.

- Ó amigo, desculpe lá, tenha calma, não reparei que…
- Desculpa o c…. então beija lá cuméque o meu carro está, c…
- Ó homem, vá lá tomar os comprimidos, você está é nervoso.
- Nervoso o c… bocê bê o que fez ao meu carro? Bocê é mas é um lorpa, c…
- Olhe lá, lorpa era o seu segundo hiperbólico ancestral em linha directa com o exemplo acabado das leis de Mendell de que você é um infeliz exemplo.
- Olhó dótor, dótor do c… este país está cheio de dótores, é por isso que este país…


As palavras foram ficando para trás, mais pequeninas, até se tornarem inaudíveis à medida que, entretanto, fui arrancando e a figura grotesca do homenzinho continuava aos pulos a chamar-me nomes. Vacilei de novo entre a irritação e o bem-estar de que estava invadido quando esguichei o lavador de vidros e acabei por ficar bem disposto outra vez. É a vida, dizia o Guterres. Às vezes é chata mas, aqui e ali, tempera-nos o astral.

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