quarta-feira, julho 29, 2009

Desfocado


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Posso estar enganado mas começo a ter a sensação de que a BlogConf foi uma operação de charme lançada com mestria e eficácia sobre um número de bloggers, que começa a pagar dividendos. Só assim se explica a ideia generalizada de que o homem é um sedutor nato, de que a reunião de bloggers teve um mérito incontestável, não importando nem o conteúdo nem a forma como a mesma decorreu e a oportunidade de ouro que lhe foi dada, a Sócrates, de utilizar este precioso tempo de antena para repisar as linhas mestras do seu modus operandi - falar indefinidamente sobre coisa nenhuma, desta vez com a especiaria recentemente adquirida e consubstanciada na fórmula português suave.

No essencial teria sido bom que não se tivesse desfocado a questão principal, qual fosse a de não saltar as múltiplas facetas do percurso de um primeiro-ministro claramente ligado a uma legislatura muito má, com a particularidade de ele próprio não poder furtar-se a uma apreciação muito crítica às inúmeras situações pouco claras em que se viu envolvido. Mas o que observei nos vídeos disponíveis (há que fazer pesquiza em blogconf) foi um exercício de retórica mais ou menos estéril, uma ou outra tentativa mal sucedida de fazer humor, um ror de perguntas encomendadas. Salvou-se o voluntarismo do João Maria, mesmo assim condicionado pelo desconforto de perceber que estava a ser mais ou menos manipulado pelo sorriso e experiência dos cinquenta (cinquenta e um, peço desculpa…) anos do seu interlocutor.
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sexta-feira, janeiro 25, 2008

Atchim



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O capitalismo, de vez em quando, espirra. O que é um bom sintoma. Não gosto de gente nem coisas tão assépticas que se tornam imunes a um simples espirro. Mas o que me diverte é que com cada espirro aparece invariavelmente um batalhão excitado de economistas internacionais (e alguns nacionais, claro) como cogumelos, cumprindo as suas atribuições naturais, quais sejam a de se alimentar dos seus próprios hospedeiros.
As crises recentes que se tem sentido aqui e ali nas economias mundiais têm sido um campo fértil aos tortulhos da desgraça que se locupletam com o fim, enfim, anunciado e há muito, do capitalismo. Arranjam (ou dão-lhes) tribunas sérias, jornais de referência e vai de explicar à plebe os malefícios do sistema e a forma como os capitalistas selvagens deveriam ser todos presos, amarrados pelos pés e mergulhados num tanque de piranhas. E escrevem, escrevem, escrevem, e os jornais e muitos blogues, pressurosos, transcrevem-nos glosam-nos e, confortadamente dizem ámen.

Entretanto o espirro passa, o capitalismo funga e as coisas voltam ao rego outra vez. Até novo espirro eu sei. Mas conforta saber que o sistema mantém anticorpos que o livram da morte anunciada. Há dois dias, por exemplo, as bolsas internacionais anunciavam o cataclismo final. Os media espumaram de economistas marca "eu não te disse?". Poucos horas depois as coisas parecem compor-se e o danado do sistema parece estar em franca recuperação. E, desta vez, ao que parece, sem doses exageradas de medicamento algum.

O gozo que isto me dá. Ainda se a cada espirro do capitalismo correspondesse uma ideia válida e que me fizesse acreditar em "planos B" que pudessem minorar a pobreza e as injustiças, eu ainda me calaria. Mas, de um modo geral, todos as ideias decorrem de um conservadorismo atroz, misturando economia com ideologias já roídas pelos bichos. Ámen.
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