sexta-feira, julho 24, 2009

Iupiiii! já reclamámos 500.000 vezes


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Ouvi há pouco que os portugueses apresentaram 500.000 queixas por escrito no ano passado. Curiosamente esta notícia é dada com um ar de júbilo que não entendo muito bem. A sensação é de que é óptimo haver tantas reclamações e que, com jeitinho e esperança, o número de reclamações para 2009 vai aumentar substancialmente.

Salvo melhor opinião, eu fico chateado com tanta reclamação. No plano teórico, o ideal seria que as reclamações fossem zero, era sinal de que tudo estava a correr bem na paróquia. Mas o que sinto é que para nós o fundamental é reclamar. É sentirmos que agora o podemos fazer sem vir a Pide ou outro exemplo de malfeitores rasgar-nos o livro de reclamações e sujeitar-nos à tortura do sono. Haver 500.000 razões para reclamar parece coisa sem importância, boa, por sinal, para que possamos, democraticamente, reclamar. Com jeitinho, o Grande Líder ainda junta as quinhentas mil reclamações ao acervo político do seu mandato.

Há coisas que não entendo. Mas, se calhar (esta do se calhar «ficou-se-me» do Artur Jorge), tudo se explica com exemplos simples. Ainda ontem entrei no carro e o rádio, sempre ligado, invadiu-me o espaço com uma entrevista a Vasco Lourenço e a pergunta, circunspecta, que lhe estavam a fazer era: Acha que alguma vez duvidou do êxito da revolução do 25 de Abril?

Quando trinta e cinco depois ainda martelamos a grei, na rádio, na televisão e nos jornais, com a presença diária de um golpe militar, é sinal de que nunca mais fizemos nada que se visse ou, tendo-o feito, consubstanciamos um caso de incontornável patologia, alimentada pela inteligentzia que continua a andar por aí. E que não há meio de nos desamparar a loja. E esta alegria com o português reclamante afina pelo mesmo diapasão. Por mim, acho tudo isto uma paranóia, independentemente do direito de todos nós usarmos um livro de reclamações. Como se impõe, afinal.

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