segunda-feira, janeiro 27, 2014

Ainda a praxe


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O fenómeno da chamada praxe académica não me parece muito difícil de entender. Nem fácil de resolver.

Li com atenção os excelentes artigos de Pulido Valente e Pacheco Pereira sobre o assunto e acho que foram tratados com a inteligência esperada. Pouco haverá a acrescentar ao que eles escreveram.

Por mim, atenho-me a uma opinião mais chã, provavelmente mais comezinha, mas sobre a qual estou firmemente convicto. A praxe, mau grado provir de uma longa tradição da academia coimbrã, não é mais que uma manifestação da nossa particular pequenez, sempre que se trata de exercício do poder. Poderes pequeninos em gente pequena sempre foram grandes poderes com grandes repercussões e devidamente aproveitados por instituições do poder político.

Os portugueses sempre se ofuscaram e rejubilaram com o exercício do poder e da humilhação. Os mais velhos lembram-se dos contínuos das universidades, dos célebres fiscais de licenças de isqueiro, os condutores da Carris, dos revisores da CP, dos guarda nocturnos, dos bufos. Dos polícias sinaleiros e, por fim, dos próprios polícias, quase sempre identificados como inimigos, ao invés do que se passava noutras latitudes em que a polícia era sempre vista como uma instituição de utilidade pública e, assim, merecedora de respeito.

Uma sociedade como a nossa, em que um simples fiscal de licenças de isqueiro se sentia impante de poder, teria forçosamente de gerar filhos de fiscais, de polícias, revisores da CP e condutores da Carris, passe o exemplo simplista. E é nessa dinâmica que se formam grupos, associações e códigos de secretismo (no fundo, assim uma espécie de maçonaria júnior) que se completam e realizam no exercício do poder, tráfico de influências e práticas de humilhação nas Universidades. Tudo sob uma marca distintamente déspota e onde o nepotismo claramente se instalava, também.

Acresce que à tradição mais ou menos provinciana da academia coimbrã se observou o aparecimento de inúmeras Universidades privadas em várias cidades, onde à tendência inata da usança do poder se juntou a mesquinha angústia de os estudantes não quererem ficar atrás dos estudantes de Coimbra. Universidades que só por si já deixam muito a desejar pelas instalações e campus, tipo barracões com um terreiro para umas futeboladas, onde os alunos se sentiam despeitados e naturalmente ainda mais espevitados para estabelecerem as suas próprias regras.

Pessoalmente, fui praxado e praxei em Coimbra, nos anos sessenta. E desiludam-se aqueles que pensam que em Coimbra a praxe era mais séria. Havia já os mesmos desmandos, o mesmo uso indiscriminado do poder, ainda que a situação política contribuísse para o seu enfraquecimento e desagregação. Mas, só a título de exemplo, lembro-me de uma abominável prática de se decretar «incomunicáveis» aqueles que não aceitavam a praxe. É uma falácia dizer-se que os alunos só aceitam a praxe se quiserem. Talvez agora. No meu tempo, lembro-me bem de um incomunicável. Que não só não podia falar com NENHUM estudante como aqueles que fossem apanhados a falar com ele seriam rapados ou levavam, sem remissão, umas palmatoadas, num recinto próprio para esse cerimonial (havia mesmo um «carrasco»). Mais ou menos o mesmo estilo de palmatoadas que exportámos para Angola e Moçambique para punir, por exemplo, alguns camponeses que não queriam cultivar algodão. Por via de uns cipaios, eles próprios diligentes herdeiros da grunhisse lusitana.

A praxe não é assim tão difícil de entender.

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quinta-feira, outubro 22, 2009

O Bloco e o Colégio Militar


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Em boa verdade não sou contra a praxe académica. Sou é contra a forma como a praxe académica é generalizadamente exercida, porque muitos dos nossos jovens se embebeda pelo poder efémero advindo da antiguidade e especificidade ambiental do momento e o exercem com aqueles resquícios de malvadez de quem sabe que mais cedo o mais tarde o perderá. De resto, esta é a matriz comportamental de muitos estudantes que exorbitam do poder, sem saberem bem como lhes veio parar às mãos, que frequentemente se reflecte na forma como esses estudantes, mais tarde vêm a apurar as suas atitudes de comando na vida profissional. Não por acaso, o nosso país é muito dado ao caciquismo, ao abuso do poder e, em última análise, à entrada no campo da ilegalidade por força do poder que se detém. Autarcas, deputados, membros do governo, chefes de repartições, burocratas, gestores ou simples motoristas de transportes públicos demonstram cabalmente como o poder pode ser mal exercido, dependendo da formação de cada qual. E aqui é que reside o problema porque a tentação é grande, sobretudo para os fracos.

Isto, na minha opinião, é o que se passa no Colégio Militar. Penso que não será nem mais nem menos do que se passa noutras instituições de ensino. Talvez com mais visibilidade, por ser um colégio com uma pesada herança de tradição secular. E, tanto quanto julgo saber, os excessos praticados são detectados, investigados e punidos. Mas daí a aparecerem Rosas e Louçãs armados nos justiceiros do costume a usarem, eles próprios, uma linguagem de violência e de abuso de poder (à partida acusando a instituição militar de sabotagem organizada) deveria ir uma grande distância que o Bloco, normalmente, não respeita. Por um lado porque chama um doce a qualquer causa que lhe traga visibilidade, Por outro, porque o tempo que lhe sobra do tempo que ele próprio utiliza na manipulação de jovens estudantes do secundário e do superior, através de brigadas específicas para o efeito, fomentando a rebelião, a desobediência civil e instituindo o medo em todos os que não aderirem às suas nobres causas, o tempo que lhe sobra, dizia eu, é muito pouco para que ele se detenha numa análise séria das praxes académicas. Isto se o Bloco fosse capaz de fazer análises sérias sobre o que quer que seja.
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