sábado, julho 30, 2011

São uns chatos




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Agora é o Chipre! Para quem tem um conhecimento frugal de finanças, confinado ao mero orçamento familiar e, com umas piruetas pelo meio, acudir às contas do fim do mês, a ideia que se tinha é que o mundo «ia vivendo» e isso de finanças era lá com os bancos, os governos, as bolsas e outros conceitos mais ou menos longínquos de quem se habitua a pensar em bancos para receber salários e pedir dinheiro emprestado, em governos para fazer as leis, as estradas e receber os impostos e as bolsas um corpo mais ou menos estranho ao comum dos cidadãos onde parece que as pessoas compram e vendem acções.

Num cômputo geral, as pessoas viviam embrenhadas nesta visão simplista daquilo que eram as finanças, sobretudo as finanças dos Estados. Mas eis que, de repente, tudo parece ter mudado. É a Grécia falida, Portugal a ouvir os finlandeses mandarem-nos trabalhar e que não têm nada que pagar as nossas contas, a Espanha «desempregada», a Irlanda, a Islândia, as ricas Itália e a Bélgica parecem estarem «tesas» e até o Obama apareceu na televisão a dizer que não sabia se na próxima terça-feira vai haver dinheiro para pagar salários e pensões. Poucos minutos depois fala-se no Chipre, também. Parece aquelas notícias sobre as gripes que começam aqui, passam para ali, chegaram acolá, os governos compram vacinas (aqui em Portugal, com a nossa tradicional peculiaridade, deitámos fora há dias dez milhões de Euros de vacinas, qualquer coisa ligada a uma ministra de saúde que tivemos, muito preocupada com os portugueses e as portuguesas e mandou vir vacinas com o mesmo à vontade com que vamos à despensa e percebemos que o esparguete acabou) e a grei vai percebendo que qualquer coisa não está bem.

Mal comparado, faz-me lembrar aqueles tempos de liceu em que fazíamos a maior confusão na sala de aula, tudo em pé, a gritar, correr entre as carteiras, rir e, de repente, chega o professor e tudo se aquieta e percebe que a brincadeira acabou. Com as finanças mundiais, tem-se a mesma sensação. Parece que andámos todos a brincar até que apareceram as agências de rating com umas manias esquisitas, põem-nos em vigilância, baixam-nos as notas e desconfiam de nós. As pessoas ouviam falar vagamente de défice, percentagem do PIB, dívida externa, dívida pública e outros palavrões, mas apareciam sempre uns «Jorges Sampaios» salvíficos e sábios que nos acalmavam. Que havia vida para além do défice e que as pessoas e as políticas de proximidade é que contavam. Nunca me interroguei se os Jorges Sampaios do nosso descontentamento acreditavam bem no que diziam, mas acho que sim, que genuinamente boiavam de costas na utopia idiota dos socialismos regeneradores do mal das pessoas, tal como boiamos numa piscina ensolarada ou numa praia romântica do litoral alentejano. E abria-se postos de saúde à esquina das pessoas, escolas onde quer que um pastor de ovelhas tivesse mais de três criancinhas, dava-se emprego toda a gente atafulhando o Estado com funcionários (muitos deles não têm NADA que fazer, literalmente, dito pelos próprios) e criava-se fundações, instituições, organismos, parcerias, centenas (milhares?) de empresas estatais, autárquicas, pulverizou-se o território em freguesias, as vilas passavam a cidades, as cidades eram geminadas e um mundo de servidores do Estado serviam-se no lauto banquete que lhes era servido. Porque havia que sossegar as pessoas com estas tretas dos défices, que para isso é que se inventou o socialismo. O democrático, porque o outro provou-se que era um exagero. Prendia-se, matava-se, reeducava-se, enfim, «aquilo» era um bocado exagerado, até que a esquerda moderna resolveu a coisa com a proximidade, as pessoas e a vida além do défice, para ser paga com o dinheiro dos outros, claro, porque o socialismo sempre achou que há muito dinheiro nos cofres dos ricos e dos poderosos e que a distribuição da riqueza é que estava mal feita. Jorge Sampaio, entretanto, verificou que há vida para além do «há vida para além do défice». É vê-lo a tratar da cultura para Guimarães e percebe-se.

Não sei bem o que isto vai dar. Já vi guerras por menos. Resta-me a esperança de que a Europa está seguir por um caminho mais confiável. Não há líderes, diz-se por aí. Pode não haver mas, à falta deles, parece que os eleitores se vão encarregando de corrigir o tiro e começaram a votar em gente mais realista e, sobretudo, com mais competência e mais respeito pelas pessoas, preocupando-se em resolver os enormes problemas criados pela ingenuidade de muitos e a idiotia de…muitos também, infelizmente. Espero bem que a Espanha se integre no «mainstream» actual da Europa e mande os prosélitos de Zapatero pregar para outra freguesia. São o último baluarte socialista na Europa e estimo e venero que a Europa se aguente assim por uns tempos. Pelo menos até «esta cena das finanças» se compor. Depois, já se sabe, o povo é sábio, vai achar que a direita está há muito no poder, isso e mais uns quantos casos de corrupção que vão certamente aparecer farão o resto. E o resto será mais gente a pensar mais nas pessoas e numa mais equitativa distribuição da riqueza. A tal, dos ricos e dos poderosos.
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terça-feira, novembro 13, 2007

A Rua dos Muros descendo à cidade



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Ou há mesmo uma crise financeira a nível internacional ou o meu portfolio se enriquece de per se nos data base de algumas investment companies. Mas deve ser só o portfolio porque continuo a ter o mesmo (pouco) dinheiro que tinha, não fui promovido, não concluí nenhum super deal como a Airbus fez agora no Dubai, não tenho um pai rico, nem conta no BES. A verdade é que com uma regularidade quase diária estou a receber telefonemas de várias Miss so and so, do Japão, de Londres, dos Emiratos, de Frankfurt e até do Panamá, anunciando-se senior investment officers que se propõem administrar os meus assets segundo um US investment plan que me trará lucros garantidos e gordos ao fim de um certo período de tempo e free da voracidade do regisme fiscal europeu.

Claro que estes telefonemas diários quase me convencem que estou a ser visto como um verdadeiro hotshot da Lusoland, de tal modo que toca o telemóvel e quando eu vejo que a origem das chamadas é estranhíssima, ranging from Panama to The Emirates, como já disse, até já encolho a barriga, ponho o peito para fora e, após um conveniente pigarreio, digo Hi, What can I do for you? Vem a lenga lenga do costume e eu saboreio então o tal hotshot treatment que nos aquece o ego e nos faz feel self confident, wearing a silk tie, a fancy blazer e uma fat wallet (este inglesamento de algumas expressões tem a ver com os dois telefonemas que só esta manhã já recebi).

As chamadas têm sido tantas que eu já me divirto com a coisa. Já me fazem simulações ao telefone de investimentos de 25.000, 50.000 e, até, 100.000 Euros plus. Claro que o tom se altera um pouco quando eu pergunto what about fifteen hundred dollars to start with? A coisa aí abranda um pouco e sabe-me assim a uma espécie de wireless erection que, de repente, faints for no visible reason to a non visible shape.

Às vezes telefonam-me homens, também. Imagine-se! Mas o mundo das finanças deve continuar cheio de pecadilhos sexistas porque quando o climax se aproxima, entenda-se I finally agree to disclose my e-mail adress to get a suitable and comprehensive portfolio eles dizem-me: - Ok I will put you through now to Miss so and so and she will finalize the details. O resultado é que agora que estou a ficar um expert em ser consultado por investment companies, sempre que recebo uma chamada de um homem, deixo-me de preliminares e peço logo: - Listen, thank you very much for calling. Can you put me through your portfolio officer? Singelo contra dobrado que me sai logo o gineceu na rifa.

Pronto já fiz o post da terça. Esparso e desligado como avisei. Porque “ele” continua out of order. E há por aí tanto por onde pegar... imagine-se que o ministro do jamé agora anda a organizar um conciliábulo (esta ouvi hoje algures no carro, depois de ouvir um senhor psicólogo a informar que era preciso vivenciar a situação – chiça, antes os investment officers...) para, pouco a pouco, se ir convencendo o rebanho de que o estudo de Alcochete foi mal feito. Caso para dizer, Ota escondida com Alcochete de fora. Mas já me vai faltando a paciência para este patuscos. Mesmo que engenheiros inscritos na Ordem...
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