terça-feira, março 09, 2010

Afonia


Corda vocal (ou prega vocal). Seja ceguinho se eu sabia que tínhamos "disto" na garganta. Ver aqui

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Esta manhã acordei e tudo parecia normal. Como normalmente só faço uso da fala depois das ablações matinais, café fresquinho, torradas e queijo, barba a preceito e duche que faria o senhor Ferreira da Querqus dar-lhe um enfarte a ele e ordem de prisão a mim, não dei por nada. Assim, só depois de pegar no telefone para fazer uma chamada (se tivesse aqui uma das filhas diria, com aquele arzinho irónico que eu sei de onde elas herdaram, mas não digo: - Pegaste no telefone para… fazer uma chamada? Ah! Claro, podias pegar no telefone para fazer a barba ou para mexer o café…) é que reparei. É que quando falei (!!!), a única coisa que consegui ouvir foi um ruído mais ou menos semelhante àquilo que julgo ser o som ambiente de uma fábrica de pregos ou, ainda, uma nora de ferrugentas alcatruzes a tirar água do poço ou, no extremo, uma “javalia” com cio no Kruger Park. Primeiro assustei-me, pigarreei (tentei…) e a única coisa que o pigarro acrescentou foi assim uma espécie de silvos de comboio a vapor ou de um velhinho com enfisema em estado terminal.

Resignei-me ao veredicto final – estava rouco, melhor dizendo, afónico, totalmente afónico como totalmente quadrúpede era o leão de Rio Maior! Como já estava vestido, barbeado, banhado, “cafezado” e prontinho para a labuta, fiquei meio aparvalhado sem saber o que fazer. Se me meteria no carro para ir trabalhar ou se puxava por um plano B qualquer que me ocorresse na emergência. Pigarreei mais um par de vezes, a locomotiva a vapor voltou a fazer-se ouvir… e decidi-me. Sofá, filmes e mais uns cafés para acelerar os riachos. Claro que ao fim de cinco minutos eu já estava inquieto. Não faz sentido ver filmes ás 9 da manhã e, pormenor não despiciendo, gerei um sentimento de culpa pelo facto de pensar que o patrão me estava a pagar para eu ver filmes às nove da manhã – sem possibilidades, sequer de lhe pedir desculpa, pela simples razão de que não conseguiria falar.

O resto da manhã tem pouca história. Lembrei-me, entretanto, que para mandar uns mails não era preciso voz, bastava uns quantos dedos (Deus não dorme, é bem certo, e deve ter pensado em tudo quando nos fez com dedos...) e foi isso que fiz. Descobri também que o Face Book pode operar maravilhas nestas emergências e até isso eu usei para contactar o escritório. Há ainda o pormenor de ter tentado encomendar almoço pelo telefone, o que originou um dos mais patéticos diálogos de que tenho memória, de um lado uma menina brasileira, simpática e colaborante a tentar perceber aquilo que, do lado de cá, eu NÃO era capaz de falar. Fiz mais um grunhido que pretendia significar desculpa pelo incómodo e fui eu buscar um franguinho da guia, assadinho com batatinhas fritas na hora e que muita inveja deverá fazer aos meus confrades habituais de almoço que, aposto, hoje terça-feira, devem estar a oscilar entre o caril de galinha, filetes de peixe ou, “xacaver”, caril de frango. Ou talvez mesmo filetes de peixe. Com sorte, o caril. Sei lá… os filetes, pronto.

Agora vou continuar a sensação de ser pago para me esticar no sofá a ver as notícias e ver mais 120 filmes e entretanto vou rezar a uma santa que eu cá sei para que me dê uma chazinho de casca de romã e mais umas ervas de um jardim aparentado às fantasias do Harry Potter. E ficarei melhor com certeza.
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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Impróprio para consumo


As mulheres são terríveis. Qualquer coisa lhes fica bem. Até uma vulgar gripe. Havia de ser eu a tirar uma fotografia nestes preparos, cheio de lenços de papel enrodilhados á frente e havia de ser bonito. Coisa mais sem graça...

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Juro que tentei levantar-me. Tinha assim um molho de coisas para tratar logo que chegasse ao escritório e, por isso, tentei. Mas a cabeça parecia uma melancia do Entroncamento, enorme e prestes a rachar de tensão interior, as pálpebras pesavam toneladas, o peito lembrava-me o cavername rangedor dum galeão espanhol com três meses de mar alto, as pernas tremiam como dois vimes novinhos açoitados pelas brisas agrestes dos invernos antigos, os dedos sentia-os inchados como paiolas da Serra da Estrela, a tosse soltava-se garganta fora que nem as ondas a bater nas rochas da Boca do Inferno e a voz… a voz, meu deus, era qualquer coisa a meio caminho entre um daqueles moínhos de papel que comprávamos em miúdos e rodavam furiosamente quando os púnhamos contra o vento e a estridência da Júlia Pinheiro.

Ponderados estes factores, optei por ficar em casa. Não que me apetecesse, mas porque me senti absolutamente incapaz de funcionar. E quando, numa atitude de "do mal o menos", pensei deixa-me lá dormir mais um par de horas, eis que me atiro para o sofá da sala a ver séries americanas requentadas (que a grave dos guionistas ainda não acabou) que são a única coisa que consigo discernir e digerir, no estado em que me encontro, ao mesmo tempo que penso o que é que vou fazer o resto do dia. Talvez… não, nada disso, à uma porque não gosto do Abrunhosa, à outra porque estou um farrapo. Uma espécie de ser humano afogado num mar de vírus, ou de bactérias, germes cabeçudos e sanguinolentos, que me levarão a fazer jus à proverbial mariquice dos homens. Doentinho, resta-me fazer uns telefonemas e suscitar a piedade do próximo. E esperar que fique bem, depressa.
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