Afonia

Resignei-me ao veredicto final – estava rouco, melhor dizendo, afónico, totalmente afónico como totalmente quadrúpede era o leão de Rio Maior! Como já estava vestido, barbeado, banhado, “cafezado” e prontinho para a labuta, fiquei meio aparvalhado sem saber o que fazer. Se me meteria no carro para ir trabalhar ou se puxava por um plano B qualquer que me ocorresse na emergência. Pigarreei mais um par de vezes, a locomotiva a vapor voltou a fazer-se ouvir… e decidi-me. Sofá, filmes e mais uns cafés para acelerar os riachos. Claro que ao fim de cinco minutos eu já estava inquieto. Não faz sentido ver filmes ás 9 da manhã e, pormenor não despiciendo, gerei um sentimento de culpa pelo facto de pensar que o patrão me estava a pagar para eu ver filmes às nove da manhã – sem possibilidades, sequer de lhe pedir desculpa, pela simples razão de que não conseguiria falar.
O resto da manhã tem pouca história. Lembrei-me, entretanto, que para mandar uns mails não era preciso voz, bastava uns quantos dedos (Deus não dorme, é bem certo, e deve ter pensado em tudo quando nos fez com dedos...) e foi isso que fiz. Descobri também que o Face Book pode operar maravilhas nestas emergências e até isso eu usei para contactar o escritório. Há ainda o pormenor de ter tentado encomendar almoço pelo telefone, o que originou um dos mais patéticos diálogos de que tenho memória, de um lado uma menina brasileira, simpática e colaborante a tentar perceber aquilo que, do lado de cá, eu NÃO era capaz de falar. Fiz mais um grunhido que pretendia significar desculpa pelo incómodo e fui eu buscar um franguinho da guia, assadinho com batatinhas fritas na hora e que muita inveja deverá fazer aos meus confrades habituais de almoço que, aposto, hoje terça-feira, devem estar a oscilar entre o caril de galinha, filetes de peixe ou, “xacaver”, caril de frango. Ou talvez mesmo filetes de peixe. Com sorte, o caril. Sei lá… os filetes, pronto.
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