segunda-feira, julho 09, 2012

Greves de luxo

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As greves, na maioria dos casos, tornaram-se numa forma violenta de exercer direitos mais ou menos inexequíveis e com um lastro ideológico por parte de quem não sabe, não pode ou não quer aceitar o jogo da democracia. Digo maioria dos casos porque há, certamente, casos em que a greve é justificada e enformada por razões atendíveis.

Mas independentemente desse desiderato, constato que há greves a que eu chamaria greves de luxo. Porque há corporações que não se misturam com a plebe e, mais do que exigirem a observação das suas exigências, acham que têm a prerrogativa de escolher o respectivo ministro da tutela.

Eu não sei bem o que pretendem os médicos com a sua anunciada greve. Sei que ouvi o responsável pelo sindicato dos médicos e o bastonário da Ordem recusarem liminarmente discutir com o actual ministro. Discutem, sim, mas só se for com o primeiro-ministro. Esta é uma forma de pressão que reputo de inadmissível e que reflecte claramente uma síndrome de petulância. Que como qualquer síndrome, requer tratamento. Que para isso é que os médicos se fizeram. Para tratar síndromes.
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terça-feira, julho 05, 2011

A sardinha este ano não presta



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Já comi sardinhas umas quantas vezes este Verão. Curioso, quis perceber até que ponto as sardinhas não prestavam. Porque a sardinha este ano não presta. O povo decidiu, o povo decretou. A sardinha não presta. Porquê? Porque a primavera foi muito quente. O mar não está bem azul. Houve muito vento. Não fez vento. O plâncton está diferente. O bioplâncton está a desaparecer. Há muito menos zooplâncton porque o bioplancton está a desaparecer. Há muita poluição.

Das vezes que, desconfiado e curioso, fui comer sardinhas, não me apercebi destas versões catastrofistas do povo. Em Alfama comi sardinhas na rua, e aí foi onde verdadeiramente comecei a ouvir dizer que as sardinhas não eram boas. Estavam magras e não tinham sabor. O povo é sábio, percebe destas coisas. E enquanto celebrava o Santo António, degustando milhares de sardinhas deitadas numa fatia de pão casqueiro, ia dizendo que este ano a sardinha não prestava. Mais. Que a petinga, não a pequenina, aquela maiorzinha, é que era boa. Dá para questionar porque é que a petinga, que é uma sardinha pequenina, está boa e a irmã mais velha não presta. Mas estas coisas não se discutem assim a céu aberto. Muito menos se discute. Essa sim. A petinga, estava uma especialidade. Curiosamente, esta onda de maledicência apareceu depois de uma notícia em várias televisões de que a sardinha este ano era congelada. Em todo o caso, as sardinhas da Alfama souberam-me pela vida. Apesar do preço estar pelas horas da morte. Fora da Alfama, já por um par de vezes fui a restaurantes comer sardinhas. Em qualquer dos casos me serviram umas sardinhas gostosas e apetitosas, gordas e de pele destacável, libertando o Ómega 3 que acumularam no mar entre o bioplâncton e zooplâncton que o povo este ano decretou estar a desaparecer.

O povo é assim. Sábio, conhecedor e inflexível. Tal como um chefe de família escolhendo o melhor melão, este ano decidimos parametrizar a sardinha, desqualificando-a por força da quantidade de plâncton no mar, horas de sol, temperatura da água e, quem sabe, aumento de votos no PSD. É uma lei dura, cega e que não admite tergiversações. Sempre assim fomos e assim seremos. Enquanto houver sardinhas, melões, enchidos, vinhos, castanhas e cerejas. Se um dia decidimos que a sardinha não presta, ai daquele que ouse questionar os porquês. E tratemos de comer sardinhas a recato de olhares críticos. Ou, a céu aberto, deveremos sempre trocá-las por petinga. A pequenina, não. Daquela maiorzinha.
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