Invernias

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Uma vez, estava eu numa sessão da tarde de cinema que, para quem não saiba, é quando eu gosto de ir ao cinema, de tarde e em dias de semana, levantei-me afogueado de calor e perguntei a um dos jovens arrumadores da sala porque é que o ar condicionado estava desligado. A resposta veio célere e carregada da lógica da minha terra e de espanto pelo facto de ser possível fazer-se perguntas estúpidas. Primeiro, porque estava a chover lá fora e segundo porque só estávamos cinco pessoas na sala.
São momentos destes, tesourinhos da nossa idiossincrasia, roubando o termo aos Gatos, que contribuem para estados perigosamente perto da apoplexia ou, numa versão mais branda, para o arrebentamento da úlcera do duodeno. É, sobretudo a lógica da coisa que faz com que iniciemos o processo de descarga biliar, pelo menos os que ainda temos bílis e um neurónio a comandá-la.
Hoje fui às Amoreiras. Assunto de somenos levou-me àquele centro comercial à hora do almoço. Chovia razoavelmente, como chove desde ontem, thank god que até me andava a envergonhar de ver a Euronews, tudo a bater o dente pela Europa fora e nós em mangas de camisa e a apagar fogos no Portugal profundo. Mas a temperatura ronda os 20 graus. Mesmo que o não tivessem dito de manhã, sentia-se que a temperatura devia andar por aí.
Entro no parque e, em passo estugado, dirijo-me ao elevador, onde apanho o primeiro choque. Três senhoras abafadas em roupas quentes e escuras dão uma corridinha (aquele tipo de corridinhas que só as mulheres sabem dar, tirando a Vanessa Fernandes e assim...) e pedem-me para segurar a porta. Segurei. Entram. Suspiram e uma diz com ar pungente: Aiiiiii que frio!
Do elevador saltei para o interior do centro comercial. Quase toda gente, eu seja ceguinho, de botas altas, roupa apropriada aos Himalaias e expressão dorida do Inverno horroroso que já aí está. Chove desde ontem e parece que estamos debaixo de chuva há um mês. Não faltou mesmo uma idosa (gosto deste termo, uma idosa...) a dizer para uma filha, "que horror, tem feito um tempo horroroso".
Sentei-me no Portugália para almoçar. Tirei de imediato o casaco e arregacei os punhos que é uma mania que eu tenho desde que uso gravata e faço sempre que almoço sozinho ou com alguém com quem não faça cerimónia. Nas mesas contíguas, as pessoas renasciam com o aquecimento do centro, esfregavam as mãos e lançavam os olhos ao alto naquilo que me pareceu uma manifestação de reconhecimento ao Altissimo, que nos concedeu a graça do calorzinho dos (seguramente) 30 graus de sauna que nos proporcionaram.
Não resisti em perguntar a uma das empregadas por que carga de água é que o aquecimento estava tão forte. Está a chover lá fora, não viu?
Eu vi. Tinha visto. Percebido é que nem por isso. Mas vou-me habituando, que há coisas nesta paróquia que nem os priores percebem. Um ou outro paroquiano percebe e reage. Mas esse é, frequentemente, esconjurado, arrenegado e remetido para as profundezas do mafarrico. Não tem nada que perceber coisa nenhuma. E, neste caso particular, está a chover lá fora, aquece-se o centro. E mainada.
Só falta dizer que o bifinho estava razoável, o molhinho com aquele travo da mostardinha estava bom e as batatinhas é que já estavam morninhas. E eu que gosto delas quentinhas...
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