sexta-feira, agosto 17, 2007

Todos iguais



[1951]

E quando eu pensava que uma unha encravada era uma expressão apropriada apenas aos sem-abrigo, patos-bravos com muitos fios de ouro ao pescoço, motoristas de táxi com bigode e em fim de carreira, gente obesa e com caspa e vendedeiras de tremoços no Sítio da Nazaré, eis que sou apanhado pela maleita.

Sem saber bem o que era (para mim, tudo se resumia a uma infecção provocada por uma picadela do alicate de unhas) e porque já nem andar conseguia, para não falar do ritmo impressionante de um pontapé por minuto que eu dava em tudo o que estivesse á mão, que é como quem diz ao pé, dirigi-me ao Centro de Saúde da Lapa. Não moro na Lapa, mas trabalho na Lapa, pelo que achei o mais lógico.

Ao mesmo tempo que ouvi uma missa cantada por um senhor enfermeiro cinquentão e de barriga sobre os procedimentos normais nestes casos, ou seja, médico de família, guias, horários de atendimento e apesar das interrupções que eu ia fazendo sobre a minha relativa ignorância destes assuntos mas que estaria disposto a pagar, eis que o senhor enfermeiro me arranca (a-rran-ca é o termo) um pedaço de unha que estava realmente mergulhada no tecido.

Foi uma das maiores dores que tive na minha vida. Eu sei que esta é aquela parte em que qualquer mulher me diria “pois, nunca pariste”, mas eu não quero nem saber. A dor foi… excruciating, só mesmo este termo define exactamente a dor que senti. E eu fiquei a saber que mesmo aqueles que não são vendedeiras de tremoços no Sítio da Nazaré, motoristas de táxi em fim de carreira ou patos bravos com fios de ouro também podem ter uma unha encravada. Pode-se ter de esperar uma vida, mas a unha encravada chega a todos. Será outra das situações em que somos todos iguais.
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