quarta-feira, junho 21, 2017

Não sei que título hei-de dar a isto...



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Começam a surgir alguns vultos por aí, que se auto-avaliam em supra-sumos da iluminação cerebral com que cada um de nós é dotado ao nascer, clamando pela inevitável queda da plebe cultural na politiquice baixa, usando o rescaldo (literalmente) da tragédia que nos bateu à porta.

Não há como convencer esta gentinha de que a politiquice baixa está precisamente em achar politiquice baixa a enumeração de alguns dos mais elucidativos exemplos da nossa peculiar desorganização, ânsia de protagonismo e absoluta falta de sentido de responsabilidade nas diferentes tarefas que nos são cometidas. Um pais como o nosso só podia mesmo ter uma multitude de organismos, organizações, comissões, institutos, presidentes disto, daquilo e daqueloutro, centros de decisão (bombeiros profissionais é que nem por isso), numa variedade, enfim, de gente que ganha o seu minuto de ouro em vir a uma qualquer televisão botar uma faladura qualquer, dizendo nada, antes exibindo uma forma pueril de estar que nos envergonha e atrofia a réstia de sentido cívico que não fazíamos mais que a nossa obrigação em ter.

Ele é o SIRESP (que nem sei bem o que é) que não funciona, ele é o camião frigorífico que avariou (obrigando ao aluguer de uma camião de transporte de peixe…), ele é o avião que caiu mas que afinal era uma roulotte com gás, ele é um  secretário de estado com uma deplorável dicção e que vai debitando umas tretas, ele é uma ministra que fala como se estivesse a fazer um grande frete e lhe devêssemos dinheiro, ele é o IPMA (isto sei o que é…) a explicar o que é uma trovoada seca, ele é a jornalista que noticia já se ter encontrado a árvore que apanhou com um raio (atingida por um relâmpago, segundo o Paulo Baldaia) ele é a GNR que nem percebe bem o que está a acontecer e dá indicações erradas, ele é os Kamov que não voam, ele é o atropelo geral das pobres pessoas despojadas, feridas ou mortas em sessões contínuas duma tragédia que tem como único responsável um chamado estado social que de social não tem porra nenhuma a não ser o desfile idiota de figurinhas inoperantes e patéticas que vão dizendo o que podem, mal, ele é um presidente da República estranho que vai ensaiando a sua comoção e coração destroçado por via de abraços e beijinhos enquanto brada, poucos minutos depois do início da tragédia, que era impossível fazer melhor, ele é, enfim, uma comunicação social espúria e venal que se desdobra numa acção indescritível de desculpabilização de um governo não eleito, onde não se vislumbra competência para além dos pontapés gerais na gramática e no bom senso, sem qualquer sentido de Estado que não seja bater na Oposição (como o inenarrável Capoulas Santos), uma comunicação social que leva já dias seguidos de transmissão ininterrupta com tantos momentos idiotas e estupidificantes (como a Judite de Sousa a mostrar um cadáver, acho que faltou pouco para levantar uma pontinha do lençol), como o número de especialistas que surgem do nada para explicar ao rebanho meio estupidificado uma série de vulgaridades, desde o acompanhamento psicológico até às verdadeiras razões dos incêndios, onde não podiam faltar especialistas silvícolas, como aquele estranho Miguel Sousa Tavares que fala de eucaliptos com a mesma segurança e assertividade com que eu falo das diferentes técnicas de hibridação de aves canoras.

Uma lástima. E um desrespeito condenável pelos mortos. Pelos cidadãos. Pelos eleitores que ciclicamente vão depositar um voto que permite a esta gentinha continuar a não perceber nada do assunto e a passear a sua arrogância e insignificância, de repente transformada numa significância que não merecem.

Passos Coelho tem passado ao largo e faz muito bem. Um deputado do CDS por ter falado em “beijinho no doi-dói” ia sendo esfolado vivo. Também já houve um, do milhão de especialistas e comentadores, que já experimentou trazer à liça o facto de Passos Coelho andar muito calado. Não teve grande êxito, provavelmente porque há outros que há bem pouco tempo se desfizeram em dislates idiotas e hoje andam calados como ratos. Refiro-me, naturalmente, àquele rancho pateta de gente que dá pelo nome de “esquerda” não sei das quantas a quem Costa deu o respaldo e o quentinho de uma coisa que nunca tinham experimentado e que lhes está a proporcionar sensações orgásticas que não esperavam – o Poder. E aqui refiro-me, naturalmente, a essa gentinha do Bloco e do PC, um grupo de gente anquilosada, sentada em teorias anquilosadas que nos vão tolhendo o progresso.

E pronto, apeteceu-me dizer isso. Dificilmente voltarei a falar no assunto. Faltou dizer que corre à boca cheia que estão a ”tratar” o número real de mortos, que parece ser bem superior à realidade. Mas admito que seja boato da reacção.


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5 Comments:

At 9:55 da manhã, Blogger José Pimentel Teixeira disse...

Palavra por palavra. Aplauso

 
At 10:16 da manhã, Blogger Carlos Oliveira disse...

Sempre, comentário lucido e correcto, sempre.
Agrada-me muito saber que não estou só na analise desta pulhice humana que nos rodeia e "governa".
Aplauso por todos os comentários publicados que leio religiosamente.

 
At 10:17 da manhã, Blogger Carlos Oliveira disse...

Sempre, comentário lucido e correcto, sempre.
Agrada-me muito saber que não estou só na analise desta pulhice humana que nos rodeia e "governa".
Aplauso por todos os comentários publicados que leio religiosamente.

 
At 1:29 da tarde, Blogger Nelson Reprezas disse...

JOSÉ PIMENTEL TEIXEIRA

Um comentário num blog,pelo menos no meu, tornou-se uma coisa rara... nest época de "likes" :) Um abraço pela cortesia e acredite que não está só, não senhor.

 
At 1:30 da tarde, Blogger Nelson Reprezas disse...

CARLOS OLIVEIRA

Muito obrrigado pela cortesia. É bom saber que nos lêem... mas ainda quando vemos que concordam com o que dizemos. Um abraço

 

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