quarta-feira, março 27, 2013

Da operação quase satírica, roçando o erótico e certamente burlesca da colheita de uma amostra de urina


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Eu assim, velho, velho, não sou. Mas ainda me lembro de, em jovem, ir a um qualquer laboratório de análises e ver gente com garrafas de refrigerante ou cerveja embrulhadas em folhas do Diário de Notícias encobrindo (muitas vezes, mal) a primeira urina da manhã de muita gente que, por isto ou por aquilo, tinha de fazer análises. Era o tempo da famosa Urina Tipo II, designação hoje vertida numa designação mais harmónica com os tempos modernos de análise sumária com análise de sedimento. E era assim que me recordo do par de vezes que fiz este tipo de análises que me vi rodeado de gente com garrafinhas de laranjina C semi-embrulhadas em papel de jornal que colocavam num cantinho de chão junto aos pés, enquanto liam uma revista com dois ou três anos de idade da sala de espera.

Com a modernização que assolou o país, auto-estradas e assim, também os laboratórios de análises acompanharam o passo do progresso e foi assim que perante a indicação do meu médico fui fazer um exame geral que inclui análises de sangue e urina. Pelo que me dirigi a um laboratório de análises e percebi que a velhinha Tipo II sofreu um adequado aggiornamento e me deram uma espécie de tubinho de ensaio para a colheita de urina. Hoje de manhã, obediente às instruções da menina do laboratório, acordei muito cedo e atirei-me à operação de colheita e aí a porca torceu o rabo. Eu sei que sou um homem dimensionado dentro dos parâmetros normais dos hominídeos, serve isto para dizer que não sou grande nem pequeno, sou assim a atirar para o normal, mas quando me vi obrigado a «acertar» (é o termo) com a primeira urina da manhã num tubinho de cerca de 10 cm de comprimento e não mais que 10 mm de diâmetro percebi que a «coisa» ia ser complicada. Começa porque um cidadão acorda como um exemplo acabado daquele princípio da física de que o calor dilata os corpos, uma saudável questão que eu espero ver continuada por muitos mais anos e deve haver um calor qualquer durante o sono que se encarrega de no-lo provar. Depois… pôr um cidadão a praticar tiro ao alvo ainda com sono, a veicular o tal princípio da física e com um potencial fluxo comparável às cheias da avenida de Ceuta no princípio dos Outonos de cada ano é realmente complicado. A gente segura no tubinho, obviamente estreito para colocar lá dentro seja qual for a peça anatómica do corpo e percebe que... não dá... a opção é acertar com o fluido corporal na abertura do tubo e é isso que faz. Depois de pormenores que me abstenho de esmiuçar, por decoro, lá acertamos com o alvo e quando pensamos que a operação vai levar alguns segundos, eis que o tubinho se enche num lapso inferior ao dos mecânicos da fórmula 1 a mudarem uma roda nos «pits»… ora o resultado de tudo isto é um tubinho cheio, molhado, para não falar noutras coisas que ficam molhadas também e não creio que haja forma de fugir a esta situação, considerado que seja o dimensionamento normal do nosso equipamento varonil (literalmente). Bom, mas lá acabamos com o tubinho cheio e quando pensamos que tudo o que resta é fechá-lo com aquela eficiente tampinha de borracha, percebemos que o tubinho está demasiado cheio. É aqui que a física entra de novo e percebo que na verdade não há como dois corpos ocuparem o mesmo espaço, independentemente de serem sólidos líquidos ou gasosos. Ou seja… tubinho cheio não dá… porque a tampa é de rosca interna e penetra um bom centímetro dentro do tubo. Que tem, assim, de ser esvaziado uns dois centímetros para a tampa penetrar o tubo e cumprir a sua missão.

Acaba tudo numa profusa lavagem exterior do tubo, das mãos e de outras coisas que não vêm ao caso. É no que dão estas modernices. Não digo que voltemos à era de irmos para uma sala de espera com uma garrafinha de mini embrulhada numa folha do Correio da Manhã ou me expliquem, finalmente, o que era aquilo da Urina tipo II. Mas, sinceramente, não há como providenciar uns tubinhos um pouco maiores? Digamos… uns tubos, tubos… juro que isto não é publicidade enganosa, este desabafo decorre de serem ainda cinco e meia da manhã, eu ter de estar no consultório às oito e recear ir para a cama de novo, pelo que me atirei ao duche, olhei de soslaio para o tubinho (inho, inho, inho), lavado, seco e depositado num cantinho da pedra do lavatório e lembrar-me que a melhor maneira de passar este bocadinho era vir aqui desabafar e apelar ao ministério da saúde que em vez de andar para aí preocupado com problemas menores como as dívidas às farmácias, médicos a menos, enfermeiros a mais e tempo de espera das cirurgias se lembrasse de propôr ao parlamento a adopção de tubos de colheita de urina, em vez deste material liliputiano que se por um lado nos dá uma sensação de vincada manhood (a dificuldade de coordenarmos a nossa dimensão à coisa ou, porque não, coordenarmos a coisa à dimensão…), por outra nos conduz àquele velho conceito das mulheres, segundo o qual os homens são uns descuidados e raramente conseguem acertar na sanita.
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4 Comments:

At 10:24 da manhã, Blogger Isto e aquilo disse...

Muito bom! Fartei-me de rir a ler o seu post! E tem toda a razão :)

Isabel Mouzinho

 
At 3:25 da tarde, Anonymous Anónimo disse...

só tu :()

IL

 
At 5:48 da tarde, Blogger ana disse...

Agora imagina nós... eu cá nestas situações invejo-vos sempre...

 
At 6:05 da tarde, Blogger Nelson Reprezas disse...

Ana, agora que falas nisso... :)

 

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