segunda-feira, outubro 15, 2012

Domingos no aeroporto





Aeroporto de Lisboa - Anos 50

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Tropecei nesta notícia sobre os setenta anos do aeroporto de Lisboa.

Foi num pinhal junto à gare que o meu pai me fotografou todo nu, 3 dias depois de eu nascer, ao sol daquele dia de Verão. Três ou quatro anos mais tarde, já o aeroporto se tornava destino obrigatório dos meus passeios de domingo. O meu pai, eu e o meu irmão ainda mais novo. E o sabor da aventura nascia poucos metros depois de sairmos de casa, ali ao Bairro da Encarnação. Porque cada passeio era uma série desfiada de acontecimentos fantásticos, todos eles novidades, repetidos quase todos os domingos mas sempre novidades, ou não fosse o meu pai verdadeiramente exímio em fazer de um acto banal uma espantosa novidade. Atravessávamos o pinhal, hoje cortado pela 2ª circular e íamos ver os aviões num aeroporto quase deserto, nos anos cinquenta, mas com o fascínio dos aviões ali pertinho, onde entrava e saía gente engravatada, sabe-se lá de ou para onde. A varanda descoberta permitia a proximidade e cada avião que descolava ou aterrava servia de mote a mais uma das incontáveis histórias do meu pai. Acho que foi ali, no aeroporto, que comecei a perceber o que era ter um pai. Tanto nas explicações sobre os aviões, de onde vinham, para onde iam, como voavam, de que «marca» eram (muito miúdo eu sabia que a Douglas tinha o DC3, Dakota, o DC4, Skymaster, o DC6, o DC7 e o DC7–C, a maravilha dos aviões. E a Lockheed tinha os veneráveis Constellation), como na suprema aventura de nos colocarmos no topo sul da pista (à altura, a única, por debaixo da sebe mesmo contígua à rotunda do relógio), ouvir e sentir os motores, um por um, em teste, acelerados ao máximo, até o avião rolar pela pista fora. Depois, era o «Buraco dos Bichos», uns montes de areia feios e amarelados, penso que seja onde se situa hoje a Alta de Lisboa, onde a fealdade dos morros se transformava na beleza aventureira do desconhecido, já que o meu pai chamava à zona o «Buraco dos Bichos», um sítio ermo onde nós pisávamos o solo com respeito e esperando que a todo o momento aparecesse um bicho que jamais apareceu, mas de cuja existência nunca duvidávamos, pois se o meu o dizia, era porque os havia.

Era extraordinária esta relação com o aeroporto. Durante anos seguidos me entreguei com deleite ao passeio ao «Buraco dos Bichos», não só pela secreta esperança e aventura de um dia saber que bichos eram aqueles, como pelas peripécias acontecidas até lá chegarmos. Para além do dia de permanente folguedo de um pai enorme, bonito, paizão, mas tão miúdo como nós quando brincava connosco.

Mais tarde, o aeroporto serviu-me de porta de entrada e de saída por inúmeras vezes, pela frequência com que eu me deslocava a Lisboa, durante o ano e durante anos. Em quase todas elas, o meu pai lá estava. Ou vestindo um sobretudo, se fosse Inverno, ou trajando um fato claro de Verão. Era a figura habitual da minha chegada, ele sabia que eu saía do avião e ia directo à Avis levantar um carro, mas queria estar sempre presente. E quando eu me ia embora, era ele que me deixava à porta e ia depois entregar a viatura.

Esta pequena história serve para dizer que foi ali, também, que vi o meu pai pela última vez. Deixou-me à porta das «partidas» mas, dessa vez, vá lá saber-se porquê, ele saiu do carro. Olhei para trás e vi a sua figura imponente e elegante fora do carro atirando um «boa viagem, meu rapaz», enquanto acenava lentamente a sua mão direita. Uma cena que hoje se mantém viva na minha memória, ao pormenor da roupa que ele vestia, incluindo uma gravata vermelha com umas pintas douradas ou amareladas. E lembro-me porque nunca mais o vi. Vi-o ali, no aeroporto, pela última vez, tanto como pela primeira vez. Porque foi ali, no aeroporto, que, como disse atrás, eu «comecei» a ver o pai que tinha.
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3 Comments:

At 4:48 da tarde, Blogger papoila disse...

Nelson, Gostei muito deste post porque também para mim o Aeroporto foi lugar onde fui muitas vezes com o meu pai. Lembro-me bem da varanda e deste gradeamento. No meu Papoila com a data de Domingo 12 de Fevereiro 2012 podes ver-me pela mão da minha mãe subindo as escadas da porta principal...adoro aquela foto!
xx

 
At 5:36 da tarde, Blogger MargaridaCF disse...

Grande filho!

 
At 2:41 da tarde, Blogger joao alfaro disse...

Adorei. É um hino ao amor. Ao amor de um filho pelo pai que já partiu. É, também, um olhar pela magia de ser pai.

 

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