terça-feira, junho 20, 2017

O Rio dos Medos de Ouro



Clicar na foto

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Poucos dias depois do 25 de Abril, nos meus verdes vinte e poucos anos e numa altura em que não dava para ir para a frente do ministério com uma tabuleta a reclamar pelo facto de o Governo ainda não me ter arranjado emprego depois de sair da faculdade, fui parar a Durban, como technical assistant duma empresa de produtos químicos para a agricultura e indústria.

Tive uma relativa facilidade em arranjar emprego porque já dominava o inglês, graças a uma prestimosa, linda e louríssima namorada de Sheffield, Yorkshire, UK (Hi, Janet!) razoavelmente mais velha do que eu e que me ensinou uma data de coisas e, de caminho, o inglês falado e escrito.

Entregaram-me o Northern Natal, uma vasta zona do Kwazulu Natal onde eu deveria visitar os mais importantes municípios, como Dundee, Vryheid, Newcastle, Ladysmith, Harrismith, Pietermaritzburg e vender o meu peixe, incluindo a utilização de produtos arbusticidas e de longa acção residual para controle total em refinarias, auto-estradas, etc. (que falta fazia o “macabro” RoundUp da “maléfica” Monsanto, que ainda não tinha sido inventado), para além de produtos de acção selectiva em relvados desportivos, jardins e onde houvesse relva em geral.

Nestas andanças conheci uma das mais fantásticas regiões naturais e hoje, reclamo-me um homem de sorte por isso. Conheci St Lucia, uma extensa zona do estuário do rio Tugela, em que as águas do mar e do rio se misturam, formando um caldo ecológico onde os crocodilos, os hipopótamos e os tubarões convivem (e respeitam-se), o mesmo não se podendo dizer em relação a muitos incautos que antigamente lá se banhavam e eram disputados à dentada entre um faminto crocodilo e um azougado tubarão, isto se não levasse uma patada dum  hipopótamo que ocasionalmente passasse.

St Lucia é um local paradisíaco, em que a beleza natural se funde com uma auréola de mistério e de lendas abundantes, naturalmente devidas às pessoas que pereceram a crocodilos que não tinham nada que andar ali e, igualmente, de tubarões que tinham um mar inteiro para andar e ai se alimentavam à babugem dos alimentos que o Tugela prodigamente lhes ofertava.

St Lucia começou por se chamar Rio dos Medos do Ouro, cuja alusão aos trágicos e frequentes acontecimentos de gente atacada se fundia à cor única, dourada, das suas dunas. Foram os portugueses (quem mais????) que lhe deram o nome, sobreviventes de um navio português naufragado e que dava pelo nome de S. Bento, em 1554. Mais tarde, em 1575, no dia de Santa Lucia, o nome de St Lucia foi outorgado à região completa, incluindo o estuário do Tugela e a zona marítima.

Fiquei a saber isto a primeira vez que lá fui, num “lodge” onde acabei por ficar algumas vezes nas minhas viagens de trabalho e onde me entretinha a ler a história e a origem de St. Lucia.

O meu filho, bem mais inteligente do que eu mas que gosta mais de ler sobre “bikes” do que sobre navegação do século XVI, passou aqui em trabalho há dias e mandou-me esta foto. Fiquei contente por me lembrar disto tim-tim por tim-tim. E, ainda, para calar a boca a alguns amigos que me acusam de só escrever sobre o sorridente Costa. Criatura que eu poderia mesmo convidar a tomar banho em St Lucia, tendo o cuidado, possivelmente, de retirar primeiro a tabuleta de aviso.


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sábado, junho 03, 2017

Faz hoje anos...



Clicar na foto. É... overhead projector, mapas na parede... é isso, ainda não havia power point...

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3 de Junho de um ano da década de 80. O excelso professor Kern, da Universidade de Berna, um homem que só punha gravata em funerais e casamentos e comia dois a três croissants a meio duma manhã de trabalho, com o café, inicia-me na minha recente promoção a country manager de um país africano. Estava eu pela casa dos trinta…

Tropecei nesta foto e não resisti, por hoje ser 3 de Junho. Foi uma aprendizagem excelente de que obtive resultados excelentes e conhecimentos que me apoiaram para o resto da vida.

Era o capitalismo em estado puro em que se gerava lucros que serviam para custear um excelente departamento de R&D, desenvolver novas moléculas, dar formação, contribuir para o desenvolvimento de muitas regiões de fome e pagar excelentes salários. Já agora, que eram confidenciais e assentes no princípio simples do acordo entre o empregado e a entidade empregadora.

Em 1997 vim circunstancialmente para Portugal, onde nunca tinha trabalhado, mas onde me deslocava duas a três vezes por ano em trabalho e em férias. Achei e amei Portugal, pelo melhor clima do mundo, a melhor comida do mundo e pelos belos cenários oferecidos. Já os portugueses, foi mais difícil. Está a ser. E desconfio que já desisti.

Basileia, Suíça, 3 de Junho.  Eu e o professor Kern. Aquele que mais tarde me haveria ainda de levar para a Universidade de Berna para uma especialização em crop protection.


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segunda-feira, maio 29, 2017

Olá mãe, parabéns



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Cá estás de novo para apagar as velas. Desta vez nem o FaceBook se esqueceu.

Andei toda a manhã pertinho da tua casa. Imagina que deixei caducar a minha carta de condução e lá fui eu àquela sítio mágico que a Nucha descobriu e onde tratamos da revalidação da carta em três minutos, em vez de estarmos três horas numa daquelas repartições esquisitas em que somos exímios, lembras-te?

Por aqui está tudo na mesma, adivinhas que continuo a aturar aquela gentinha que sabes que abomino e desprezo, cheia de mentiras e vitórias políticas, mas não te vou falar disso. Vou antes dizer que continuas bonita como sempre foste e manténs aquele estilo classy que sempre adorei. Os manos estão bem e continuamos unidos, apesar das duas equipas bem diferenciadas que tu e o pai decidiram por bem produzir. Dois sempre a refilar e os outros dois mais bem dispostinhos. Os teus netos estão lindos como as mães e inteligentes como os pais (!!!) mas isso runs in the family, né?

Vá, sopra então as velas e vamos comer uma fatia de bolo, daquele que a Nucha faz sem açúcar (por causa da diabetes que ela acha que tens) e a que nós nos sujeitamos antes e depois de nos empanturrarmos com uma tonelada de açúcar de outros bolos, pudins e gulodices acessórias, daquele açúcar de cana sacarina e tudo. Mas o bolo, fica descansada. É sem açúcar.

Parabéns, mãe. Um beijo cheio de saudade e até para o ano. Já viajaste quase há três anos, mas sei que chegas sempre a horas do bolo sem açúcar e que trazes aquele sorriso lindo a que nos habituaste desde que éramos pequeninos.


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domingo, julho 24, 2016

Kurikutela




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Há dias passei debaixo do Kurikutela. Não sei se era o “mala”, se era o “cama-couve” mas que era o kurikutela, era. Entrei pela estrada que vem da Chipipa, atravessei o Bairro de S. João (agora espalhado) e entrei na 5 de Outubro, passando por debaixo da ponte da linha. No exacto momento em que o comboio passava. E não há como apartar uma certa nostalgia, sobretudo se um dos nossos filhos nasceu ali, a metros da ponte, no Hospital do Caminho de Ferro de Benguela que, de resto, ainda existe.

Passei a ponte e trauteei mentalmente esta deliciosa canção. Ainda hoje não percebo porque se fala tão pouco do “Ouro Negro”. Afinal, intérpretes de música angolana em todo o seu esplendor, sentido e poesia.


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quinta-feira, abril 28, 2016

Bequinbize




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"Sabeis decerto que o maior amor não é aquele que a palavra suave puramente exprime. Nem é aquele que o olhar diz, nem aquele que a mão comunica tocando levemente n'outra mão. É aquele que quando dois seres estão juntos, não se olhando nem tocando os envolve como uma nuvem, que lhes (...) 
Esse amor não se deve dizer nem revelar. Não se pode falar dele." Fernando Pessoa

Just landed on reality airstrip. Safe, happy and sound. Back to basics.

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quarta-feira, novembro 18, 2015

Faz anos, pai



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Alô pai. Faz hoje vinte e quatro anos que, mais ou menos por esta hora, recebi um telefonema, numa vila moçambicana onde me encontrava em trabalho, a comunicar que nos tinhas deixado.

Foi uma noite longa, eu estava sozinho e, em silêncio, vi toda a vivência contigo, com uma minuciosa nitidez. Já de madrugada, lembrei-me que o teu último desejo ficou por cumprir. Fazer por estrada o percurso Joanesburgo - Cidade do Cabo, já que estava combinado que passássemos lá o Natal. E tive a sensação penosa de perceber como perdeste a oportunidade de cruzar o Karoo, o Vale de Ceres, atravessar o último sistema montanhoso das Hawequas, Paarl e, finalmente, desembocar no panorama ímpar da Table Mountain.

Já passaram 24 anos, pai. Nesta foto, última tirada antes de partires, estavas já dominado pelas coronárias roídas pelo tabaco que fumaste até ao último dia, após uma bica na Mexicana e eras tão jovem. E eu não sabia. Só soube, pelo telefonema a comunicar-me que nos tinhas deixado. E eu não poderia levar-te de carro até Cape Town.

Ainda cá andamos todos. Menos a mãe, que nos deixou o ano passado. Bem dizias tu que ela era do tipo de viver até aos cem anos. Estamos bem e mais quezília menos mania, continuamos a família unida que soubeste construir. Tenho a certeza que ficarias contente por sabê-lo.


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sexta-feira, outubro 30, 2015

Back to basics


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Just landed. Safe, happy and sound.

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A Oeste, nada (e sempre tudo) de novo


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«…Deus, ao mar, o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu…»

(Cabo da Roca, «finzinho» de Outubro de 2015) *

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terça-feira, outubro 20, 2015

Here and there


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Gone flying. Short-haul.

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segunda-feira, junho 22, 2015

Parabéns


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Oi Pai. Hoje farias anos. 94, uma idade bonita que poderias ter atingido não fossem os Camel e o stress que te toldavam a paciência e entupiam as veias de que precisavas para que o sangue te irrigasse convenientemente o coração.

A mãe já partiu, está quase a fazer um ano, já deves ter dado por isso, nessa vida «outra» em que nem tu nem eu acreditamos mas que dá jeito aceitar quando queremos pensar que é bonito a família se ir mantendo reunida, já que na vida «esta» nem sempre nos lembramos uns dos outros. E sabe bem acreditar que agora tens, de novo, quem te faça o chazinho, te recorde onde deixaste as chaves do carro e resmungue de vez em quando.

Por cá, pela vida terrena, as coisas vão cada vez mais na mesma. Ia a dizer pior mas quando penso no assunto acho que não está pior. Está como teria sempre de estar. Porque à medida que tenho crescido (o teu rapaz, eu, tenho crescido, sim) vou percebendo que a vida assenta numa dinâmica muito própria, numa girândola quiçá criada pelo deus em que nem tu nem eu acreditamos mas que dá jeito invocar de cada vez que não sabemos explicar algumas coisas. Mas que o absurdo tem tido lugar de bancada central, tem. Acontecem coisas que se tivesses a prerrogativa de optar pela ressurreição provavelmente a denegarias, mantendo-te no conforto e no sossego da alma.

Assim, muito pela rama, digo-te apenas que o Sócrates está (finalmente) preso, O Guterres anda pelo mundo de mão dada com a Angelina Jolie a dizer que o mundo está perigoso, na Europa vemo-nos gregos com os gregos, ainda há comunistas em Portugal, o PS continua na senda das suas atribuições escatológicas, o Mário Soares perdeu o resto da vergonha, as televisões tornaram-se impossíveis de seguir, a Internet tornou-se uma ferramenta indispensável, tivemos de pedir um resgate de novo (coisas de socialistas, tu bem dizias…), o Saramago morreu mas continua a publicar, o futebol está na mesma (o Eusébio morreu, é verdade), o Bush invadiu o Iraque depois de uns lunáticos perigosos deitarem as torres do World Trade Center abaixo, os americanos elegeram um presidente negro que recebeu logo um prémio Nobel, o novo Papa farta-se de ralhar com os europeus porque deviam ter vergonha de não saberem receber bem as centenas de milhar de refugiados que agora deram em atravessar o Mediterrâneo até Lampedusa, Cuba ainda existe como a conheceste e agora têm a Venezuela e a Bolívia a bater palmas (e uma tal de Dilma, brasileira, que já não é do teu tempo), enfim, nada que te espantasse muito, se ainda por cá andasses.

A família está bem. Não te digo o que faz nem por onde anda porque cada um dos nossos anjos da guarda te deve fazer relatórios periódicos. Toma cuidado com os relatórios que receberes de mim porque podem estar tendenciosos ou muito críticos, pela simples razão de que continuo a fazer algumas asneiras, mas sempre com aquele espírito que me ensinaste a cultivar e do qual não abdico, tomando-o como a mais rica herança que me poderias ter deixado. E o importante é saberes que sou, SEMPRE, um homem feliz.

Mas tenho saudade de ti, muita saudade. Logo à noite sou bem capaz de jantar sozinho, mas tenho ali um resto de uma garrafa de espumante que não te digo de onde trouxe porque o meu anjo da guarda deve ter-to dito. E vou beber um trago. Por ti, Pai. Parabéns. E envio uma mensagem dizendo, «Para ti, Pai, do Teu Rapaz».

A FOTO: A foto é de um dos teus recantos favoritos. Clica nela para veres grande. Onde nos levaste, algumas vezes a fazer campismo selvagem. Lá está o Poio do Judeu (nunca me conseguiste explicar a origem do nome), o Espinhaço do Cão e os Cântaros. Há muito poucos dias passei aqui e, finalmente com sol, pude referir pela enésima vez: - aqui, na Nave de Santo António, costumávamos acampar, uma vez o meu pai tirou uma foto a uma cabra a correr e pôs uma legenda dizendo «e nunca mais a vimos», lá em cima é o Poio do Judeu, subíamos o Espinhaço do Cão muitas vezes a pé e a montanha do meio é o Cântaro Magro que o meu pai escalou com a minha mãe… uma ladainha que só pára quando oiço: -Ui, já me contaste essa história mil vezes!

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quinta-feira, dezembro 11, 2014

Carrossel da vida. Mais uma corrida, mais uma viagem


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A minha mãe, poucos dias antes de nos deixar, em Julho passado. E a minha irmã caçula que resolveu brincar aos casamentos com cinquenta e taaaaaais. Perdeu a cabeça, só pode. Mas  como ela é fixe, sem ser Soares, lá vou eu fazer um cabaz de quilómetros, porque ela resolveu casar em terras de Cid, El Campeador.

É assim, a mãe foi e a filha mais nova é como se começasse agora. É o carrossel em que todos giramos e a que todos nós pertencemos.

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quarta-feira, julho 16, 2014

Pronto,mãe. Partiste


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Pronto, mãe. Partiste. Serena e bonita, com os filhos todos a mimar-te até aos últimos momentos.

Até há poucas semanas atrás, dizias que um dia destes ias ter com o pai que estava à tua espera. Falavas com a grandiloquência da tua simplicidade e com tanta sinceridade como quando dizias que não eras capaz de terminar uma refeição sem sobremesa. Pois, lá foste tu, mãe. Por isso escolhi esta foto, de resto a foto que fizeste questão de me oferecer como prenda do meu aniversário, há poucos dias atrás, e porque nada, como ela, ilustra o desejo que ias manifestando nos últimos tempos.

Tenho a certeza que foste ao cabeleireiro tratar do cabelo e das unhas, maquilhares-te e pores-te bonita como fizeste durante toda a vida enquanto o pai foi vivo. Não me lembro, jamais, de uma tarde em que não aguardasses por ele, bonita, produzida, «arranjada» como dizias. E assim foste. Arranjada, ter com ele. Porque é que devia ser diferente agora?

Eu cá fico a tentar a veracidade daquela máxima que diz que um homem não chora. Mas sabes? Uma vez por outra, vem uma lágrima por ali abaixo, sem pedir licença, como esta manhã, quando voei para o hospital tentando apanhar-te ainda com vida.

Fica também o legado sem preço que nos deixaste, tu e o pai. Porque esse, por muito que aconteça, ninguém no-lo tira. E a ti e ao pai o devemos.

Descansa em paz, mãezinha (lembras-te que só aos meus cinquenta anos deixei de te chamar mãezinha?)

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segunda-feira, março 24, 2014

Go. Went, gone


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Safe landing! *

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terça-feira, abril 16, 2013

Nuvem branca



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A vida tem destas coisas. Não te posso dar flores. Ou uma jóia com a pureza dos diamantes. Não posso sequer oferecer-te um jantar mimento e confortável, num restaurante com varanda solarenga, debruçada sobre o casario de Lisboa, apetecido com as iguarias que gostas ou, sequer, um simples café, numa pastelaria acolhedora, com uma daquelas tartelettes de maçã que adoras.

Pensei e resolvi dar-te uma nuvem. Branca como a candura do teu espírito e fofa como o teu corpo. E vou soltá-la pelo ar, porque ela sabe o caminho e tu sabes que ela não se engana nem se desvia um milímetro da trilha que, afinal, é de ambos, nossa. Por isso, quando ao longo do dia sentires uma suave carícia no corpo, foi a nuvem que te viu lá de cima e se desfez em mil gotículas que te vão beijar a pele e desejar toda a felicidade do mundo. E nessas gotículas, o único pouquinho de mim que te posso dar neste momento.
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segunda-feira, outubro 15, 2012

Domingos no aeroporto





Aeroporto de Lisboa - Anos 50

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Tropecei nesta notícia sobre os setenta anos do aeroporto de Lisboa.

Foi num pinhal junto à gare que o meu pai me fotografou todo nu, 3 dias depois de eu nascer, ao sol daquele dia de Verão. Três ou quatro anos mais tarde, já o aeroporto se tornava destino obrigatório dos meus passeios de domingo. O meu pai, eu e o meu irmão ainda mais novo. E o sabor da aventura nascia poucos metros depois de sairmos de casa, ali ao Bairro da Encarnação. Porque cada passeio era uma série desfiada de acontecimentos fantásticos, todos eles novidades, repetidos quase todos os domingos mas sempre novidades, ou não fosse o meu pai verdadeiramente exímio em fazer de um acto banal uma espantosa novidade. Atravessávamos o pinhal, hoje cortado pela 2ª circular e íamos ver os aviões num aeroporto quase deserto, nos anos cinquenta, mas com o fascínio dos aviões ali pertinho, onde entrava e saía gente engravatada, sabe-se lá de ou para onde. A varanda descoberta permitia a proximidade e cada avião que descolava ou aterrava servia de mote a mais uma das incontáveis histórias do meu pai. Acho que foi ali, no aeroporto, que comecei a perceber o que era ter um pai. Tanto nas explicações sobre os aviões, de onde vinham, para onde iam, como voavam, de que «marca» eram (muito miúdo eu sabia que a Douglas tinha o DC3, Dakota, o DC4, Skymaster, o DC6, o DC7 e o DC7–C, a maravilha dos aviões. E a Lockheed tinha os veneráveis Constellation), como na suprema aventura de nos colocarmos no topo sul da pista (à altura, a única, por debaixo da sebe mesmo contígua à rotunda do relógio), ouvir e sentir os motores, um por um, em teste, acelerados ao máximo, até o avião rolar pela pista fora. Depois, era o «Buraco dos Bichos», uns montes de areia feios e amarelados, penso que seja onde se situa hoje a Alta de Lisboa, onde a fealdade dos morros se transformava na beleza aventureira do desconhecido, já que o meu pai chamava à zona o «Buraco dos Bichos», um sítio ermo onde nós pisávamos o solo com respeito e esperando que a todo o momento aparecesse um bicho que jamais apareceu, mas de cuja existência nunca duvidávamos, pois se o meu o dizia, era porque os havia.

Era extraordinária esta relação com o aeroporto. Durante anos seguidos me entreguei com deleite ao passeio ao «Buraco dos Bichos», não só pela secreta esperança e aventura de um dia saber que bichos eram aqueles, como pelas peripécias acontecidas até lá chegarmos. Para além do dia de permanente folguedo de um pai enorme, bonito, paizão, mas tão miúdo como nós quando brincava connosco.

Mais tarde, o aeroporto serviu-me de porta de entrada e de saída por inúmeras vezes, pela frequência com que eu me deslocava a Lisboa, durante o ano e durante anos. Em quase todas elas, o meu pai lá estava. Ou vestindo um sobretudo, se fosse Inverno, ou trajando um fato claro de Verão. Era a figura habitual da minha chegada, ele sabia que eu saía do avião e ia directo à Avis levantar um carro, mas queria estar sempre presente. E quando eu me ia embora, era ele que me deixava à porta e ia depois entregar a viatura.

Esta pequena história serve para dizer que foi ali, também, que vi o meu pai pela última vez. Deixou-me à porta das «partidas» mas, dessa vez, vá lá saber-se porquê, ele saiu do carro. Olhei para trás e vi a sua figura imponente e elegante fora do carro atirando um «boa viagem, meu rapaz», enquanto acenava lentamente a sua mão direita. Uma cena que hoje se mantém viva na minha memória, ao pormenor da roupa que ele vestia, incluindo uma gravata vermelha com umas pintas douradas ou amareladas. E lembro-me porque nunca mais o vi. Vi-o ali, no aeroporto, pela última vez, tanto como pela primeira vez. Porque foi ali, no aeroporto, que, como disse atrás, eu «comecei» a ver o pai que tinha.
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quarta-feira, maio 30, 2012

Sonhos

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Sempre gostei mais de voar de dia. O avião descola e é tiro e queda. Ainda o pássaro não se nivelou com o terreno e eu percorro já a vereda dos sonhos.

Foi no trajecto Joanesburgo - Luanda. Puxei a cortina para baixo e deixei-me roubar do mundo dos despertos. E um sonho começa. Pressinto-me num lugar elevado, dificilmente descritível, olhando para baixo, na vertical, e vejo-me a mim próprio caminhando numa praia extensa. Alguém me acompanha, em silêncio, amparando-se em mim, caminhando a meu lado. Eu sei que falávamos ambos em silêncio. Olhávamos em frente e, ao fundo, o mar murmurava uma melodia suave e envolvente e nós continuávamos caminhando. O sonho dá-me então a sensação estranha de saber e não saber quem ia comigo no areal e gera em mim uma vontade estranha de dizer-me a mim próprio quem era. Mais precisamente, apetece-me gritar, chamar o mundo e explicar quem éramos e a razão porque caminhávamos o areal extenso e morno na direcção do mar que, à medida que andávamos, parecia cada vez mais distante. E é na turbulência do desejo reprimido de gritar ao mundo quem éramos que a figura que me acompanhava pega a minha mão, vira-se para mim e me envolve num abraço terno, muito suave, mas firme. Suspendemos a caminhada e mantivemos o abraço por um momento sem fim. Sem falar, apenas sentíamos o corpo estremecer pela indizível sensação de pertença e protecção mútua que nos aconchegava.

De repente, abri os olhos. Sem saber porquê, percebi que tinha acordado. Olhei distraidamente para o computador de bordo, reparei na linha verde que representava a trajectória do avião e percebi que estava à vertical do Kuito, antiga Silva Porto. Tínhamos deixado Menongue para trás, Luanda aparecia mais acima e lá estava o Kuito, rigorosamente por debaixo de nós. E se dúvidas houvesse, o comandante fez uma pequena alocução aos passageiros, informando que dentro de cerca de uma hora aterraríamos no aeroporto 4 de Fevereiro e que naquele momento sobrevoávamos a cidade do Kuito.

Semi-desperto e intrigado, tirei até uma foto. Que saiu medíocre por causa do flash ter disparado e tornado quase ilegível o nome da cidade. Tudo por causa daquela luz difusa, quase tão difusa como o sonho que tinha terminado ali, no coração de Angola, mas ainda assim suficientemente nítido para dele me poder lembrar em cada pormenor e de, à minha maneira, achar que tudo na vida tem um fio condutor de uma lógica irrecusável. Em breve estaria a aterrar.
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quarta-feira, março 07, 2012

A Stellinha faz anos





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Chama-se Stella, é liiiiiinda, faz hoje seis anos (!!!!!) e é minha neta. E eu gosto!
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quinta-feira, novembro 17, 2011

As boas rotinas




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São onze horas da manhã e só agora me meti ao caminho de Lisboa. Pela marginal, como é meu hábito. O dia está magnífico nos seus insólitos e aconchegantes vinte graus e os meus olhos banham-se numa luminosidade que nos põe de bem com o mundo e nos traz a lembrança de um rosto de mulher sorrindo. O azul do mar parece uma aguarela viva, saltada da paleta divina de alguém mais poeta que pintor, com a sensibilidade dos homens e a inspiração dos deuses.

Deixo a viatura percorrer preguiçosamente o asfalto confortavelmente aliviado do trânsito, pelo adiantado da hora, e arrisco uma nesga de vidro aberto, por onde me entra uma lufada de ar puro que me enche o habitáculo do aroma de pinheiros bordejando a estrada, logo após a passagem de um recanto intimista que todos os anos, na mesma época, se cobre de malmequeres muito brancos e muito densos, formando um quadro de cenário e significado únicos.

Liberto também as rédeas do pensamento e comprazo-me com o desfile de memórias que este trajecto já me concedeu, algumas delas bem vivas e recentes. E concluo que nem sempre temos razão quando nos deixamos abater pelo azedo das rotinas diárias ou pelas incertezas do futuro. O presente muitas vezes nos oferece momentos gratificantes como o desta manhã e as próprias rotinas frequentemente se revestem de cores e significados de transcendência estimável para o conforto do corpo e para o aconchego da alma. E nem o tilintar do telefone anunciando, quem sabe, uma mensagem inesperada, um objecto perdido e reencontrado, quebra a magia do momento.
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segunda-feira, novembro 14, 2011

12 de Novembro de 2011



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Um dia para eu guardar nos mais intimistas meandros do meu registo de memória. Casou-se a filha caçula e foi uma festa inesquecível.
Boa viagem, filhota!
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segunda-feira, novembro 07, 2011

Antes de comprar um fato, convém verificar o peso

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Fui comprar um fato. Deixar de fumar acarreta uma série de efeitos colaterais, um deles sendo que pouco tempo depois de pararmos com o cigarro queremos entrar nos fatos e não cabemos lá dentro. Quer-se dizer… cabemos, mas ficamos com uma sensação estranha, assim tipo alheira de Mirandela bem atadinha nas pontas.

Concluindo que nem os fatos alargam nem eu encolho e, muito menos, tenciono voltar a fumar; considerando ainda que há uma filha que casa este Sábado e é mau aspecto eu levar um conjunto de calça e paletó (hoje por hoje, a única coisa parecida com um fato onde caibo), decidi ir comprar um fato.

Long story short, vi um e gostei. Pedi ao empregado que me trouxesse o meu número… reparei numa expressão entre o irónico e o paciente no empregado, mas contive-me. O homem veio com um fato e diz, com cortesia, que o número que eu pedira devia ser do meu irmão mais novo. E que ele teria tido a iniciativa de trazer dois números acima.

Fui experimentar o fato ao gabinete. Vesti o casaco… estava bom a abotoar mas parecia-me largo nos ombros. Pedi um número abaixo, estava bom nos ombros mas, para abotoar, era necessário assim, com dizer sem ferir a minha própria susceptibilidade… eu tinha de dar um passo em frente. Perguntei ao empregado se não haveria um número a meio… entre os dois. Que não. Ou levava o casaco com nos ombros e apertado no estômago ou levava o casaco bom na barriga e «largueirão» nos ombros. Para dispersar um pouco a indecisão, vesti as calças. Estavam boas em geral, mas apertadas (íssimas) na cintura. As outras estavam boas na cintura mas «largueironas» nas pernas, tipo calças do meu irmão mais velho. Dei uma de «xico-esperto» e perguntei se podia levar o casaco de um número e as calças de outro… que não, disse o empregado solícito. Tinha de ser o conjunto tal como estava.

O fim da história salda-se por um milagre de alfaiate, pelo qual me acertaram mangas, chumaços, debruados (no casaco), bainhas, cós (?????) e fundilhos nas calças. Consegui salvar o casamento da minha filha (em risco evidente de passar por ser o casamento daquela fulana cujo pai apareceu de casaco azul e calças de caqui) e saí da loja com um recibo que me permitirá ir buscar o fato na próxima quinta-feira. Simultaneamente, afivelei uma expressão tipo «mal-parido», «mal enjorcado», cheio de defeitos de fabrico até que alguém que me acompanhava me disse que não, estava tudo bem. Eu precisava de andar a pé todos os dias durante uma hora, deixar de comer batatas, arroz e massas, carnes vermelhas e beber muita água. Deveria, igualmente, sujeitar-me a um conjunto de exercícios que, para usar uma expressão muito em uso corrente, eu denominaria de «boas práticas».

Esperemos que na quinta-feira o fato me assente bem. Ou então, minha filha, outro alguém te levará pelo braço ao teu bem amado. A não ser que queiras que a má-língua da paróquia diga que tens um pai mal acabado!
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