"Não Podendo Sair..."

[339] - Andou por aí (faz lembrar o Santana Lopes, por aí…) um inquérito, tipo chain letter, sobre livros ao qual muitos bloggers responderam. Mesmo muitos que eu, numa primeira reacção, estaria longe de supor que respondessem. Mas o curioso é que a maior parte dos respondentes o fez a sério. Poucos foram os que brincaram com a coisa. Até eu, normalmente avesso a este tipo de manifestações de erudição expontânea, respondi, bem comportadinho e minimamente linear.
Há uma coisa, porém, que me «faz espécie», como diria uma empregada que tive, de Viseu, que me trazia fruta todas as semanas do lugar de venda da irmã na praça de Cascais, tinha uma filha na «Uneversidade» e que passava a vida a dizer que isto ou aquilo «lhe fazia espécie». E fez-me espécie aquela do «Não podendo sair do Fahrenreit 451, que livro quererias ser?». Ora, que eu nestas coisas de cultura sou muito cuidadoso, trato sempre de saber se Chopin tocava piano ou violino antes de lançar tiradas para o éter, li, pensei, tentei descodificar e confesso que fiquei algo tartamudeante (este tartumedeante, vai bem com o tema, estamos a falar de livros e eu li um livro em que a mocinha tartamudeava qualquer coisa sempre que o namorado lhe perguntava se queria ir aos figos ou ir com ele para o campo apanhar papoilas no dia da espiga). Tartamudeado q.b. achei que seria avisado não fazer muitas perguntas e, com o decorrer do inquérito alguém trataria de explicitar com mérito e ciência o verdadeiro significado daquele «Não podendo sair…».
Debalde. Nem sem balde. Fiquei-me na mais santa ignorância e remetido a uma opressiva escuridão quanto ao verdadeiro alcance da coisa. Fiquei sem saber se a ideia era saber que livro gostaríamos de ser se estivéssemos trancados dentro do Fahrenheit, fisicamente, assim tipo cenário de Kafka a acordar e verificar que se tinha transformado num monstruoso insecto, se estaríamos autorizados a querer ou gostar de ser outro livro, mas dando de barato que esse outro seria sempre uma segunda escolha ou se, pura e simplesmente (este pura e simplesmente é vulgar, eu sei, mas eu sou vulgar…) a pergunta foi feita de forma descuidada e sem qualquer outro objectivo que não fosse fazê-la a gente suposta e suficientemente erudita que tratasse o Fahrenheit por tu.
Ainda hoje me encontro roído por esta tremenda dúvida e duvido (estou a escrever de forma bastante duvidosa) que alguém alguma vez ma tire. Primeiro, porque não sei quem começou com o inquérito, segundo porque tenho a certeza que ninguém me esclarecerá, mesmo através de um simples e piedoso comentário a este post idiota. E não. Não há aqui qualquer mensagem subliminar. Não percebi, period. Com tantas coisas que jamais perceberei em tempo útil (leia-se, vida) esta será outra delas.
Se eu tivesse de morrer queimado como livro… acho que não me faria muita diferença o título. Mesmo sabendo que outra civilização e sociedade viriam. E as minhas cinzas não seriam de grande préstimo…



20 Comments:
E eu julgava que era eu que fazia perguntas dificeis (desde pequena, segundo a minha mãe, que sou muito perguntadeira ... porque será?)! Há que encarar tudo como se encaram as línguas estrangeiras: o que é importante é o sentido geral e não o significado de cada palavra.
Ora bem, aqui vai uma hipótese de interpretação: a criatura que fez o questionário queria 1) saber que livro cada um queria ser; 2) mostrar que era culta.
Bom fim de semana
Concordo com a Pitucha!
Ainda não estamos no "Big Brother is watching you" e todos podiam ir ver à net de que romance se tratava e responder à pergunta. Eu não li e não vou ler. Mas pelo que encontrei não lamento. Já lá vai o tempo das leituras ditas obrigatórias! 1984 e Admirável Mundo Novo foram-no para mim!
Beijinho, Espumante!
Ká para mim, foi um jogo...respondi, saiu sério, podia não ter saído... abraço, IO.
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Sorry!
O primeiro comentário entrou com problemas técnicos, por isso, foi removido.
Então, aqui vai a segunda tentativa:
Eu, que também fui apanhado, deparei-me com o mesmo dilema (para além de não ter lido a livro Bradbury, nem, tão pouco, visto o filme do Truffau). Consequentemente... toca a pesquisar.
A única certeza, seguindo o fio à meada, prende-se com o facto de ter confirmado que a dita corrente literária é “importada”, dado que encontrei indícios disso mesmo, em blogues e páginas americanas:
(http://radio.weblogs.com/0113501/2005/03/16.html#a495)
(http://www.mikarrhea.com/index.php?id=467)
(http://stickpoetsuperhero.blogspot.com/2005/03/hit-with-stick.html)
E as perguntas da ordem:
“You’re stuck inside Fahrenheit 451, which book do you want to be?”
Have you ever had a crush on a fictional character?
The last book you bought is:
The last book you read:
What are you currently reading?
Five books you would take to a deserted island:
Who are you going to pass this stick to (3 persons) and why?
No que respeita à pergunta manhosa (a 1ª!), para a qual (ainda que completamente a leste) conseguia sacar, pelo menos, duas ou três interpretações, defendi-me na lógica do argumento original (li um resumo, ignorância oblige!) tendo pincelado a resposta com alguma ironia, privilégio do Incompetente, “boneco” com que me apresento perante a malta.
“Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro querias ser?”
Voilà... a minha resposta:
Não entendo (sou incompetente!) o que pressupõe a introdutória
” Não podendo sair do Fahrenheit 451”.
Nunca, decididamente, um dos (livros) que foram queimados.
Quanto ao “tartumedeante”, que para mim é um neologismo, confesso, não me manifesto. Mas que soa bem, lá isso soa!!!
E prontes, pá, este foi o comentário mais comprido que o Incompetente já prantou num blogue, e o texto mais maior grande que escrevinhou na vida inteira.
Como diria o saudoso Peça: “E esta, hem?!”
Um abraço
O Truffaut que me perdoe a falta do "T" final na sua excelentíssima graça!
Outro abraço
Num universo em que os livros são proíbidos e os seus leitores perseguidos, um grupo de resistentes resolve decorar os mesmos. Cada resistente "é" um livro, que repete constantemente para passar a sua memória às gerações futuras. Daí a pergunta. Aliás, algumas das respostas que encontra nos blogues, sendo de pessoas que leram o livro, ou pelo menos viram o filme, dão a entender isto.
Incompetente
Ahhh mas isto assim é outra coisa. Porque é que não me mandaram logo o inquérito em inglês?
:))
Incompetente
Ahhh mas isto assim é outra coisa. Porque é que não me mandaram logo o inquérito em inglês?
:))
experiencia
experiencia
anónimo
Obrigado pela dica :)
Aha confirmam-se as minhas suspeitas. Aquela primeira pergunta resultou de uma tradução mal feita. Oh espumante eu fiquei tão intrigada como tu (embora tendo lido o livro e visto o filme)pela polissemia que a pergunta pressupunh do modo como estava formulada, mas resolvi não me armar em contestatária e respondi. Já bastam os meus maus fígados para com as traduções :)
t-shelf
Ficamos ambos "polissémicos", mas isso passa com uns chás :))
desculpa a piada, mas estou bem disposto com os 3-0 do Sporting
:)
No problem espumante, gosto muito de chá (mas estarás a insinuar que eu tenho falta de chá? ;)
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Este comentário foi removido pelo autor.
gostei muito de seu blog.....parabéns
quando tiver um tempo faça um visita ao meu blog
geografianovest.blogspot.com
estarei acompanhando suas matérias....feliz natal
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