domingo, novembro 14, 2010

Etnotugas


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Quem não nos conheça e visite Portugal fica certamente impressionado com a loquacidade e a forma assertiva como actuamos, na análise dos mais intrincados problemas económicos, políticos e sociais que embalam o mundo. A segurança, o terrorismo, os direitos humanos. A saúde e a correcta educação das criancinhas são igualmente temas em permanente discussão nas nossas rádios, televisões e jornais, Não que eu conheça os países todos do mundo mas dos que conheço, arrisco afirmar que em nenhum deles se discute com tanta acuidade e asserção os candentes problemas da humanidade como no nosso Portugal, terra de sábios capazes de ter solução para tudo e para todos. Menos para nós próprios que isso já tem a ver lá com o fado, o destino, a genética e, quem sabe, a consanguinidade já que, ao fim e a ao cabo, andamos por aqui há mil anos um escasso punhado de gente a dormir uns com os outros num acanhado rectângulo de menos de 90.000 m2. O que, na melhor das hipóteses me faz pensar que no fundo somos todos primos.

Isto vem a propósito de hoje, numa curta deslocação de carro, eu ser violado com três programas em três estações de rádio diferentes sobre a Nato, a cimeira da Nato, os porquês da Nato, a bondade (discutível) da Nato e as malfeitorias (muitas) da Nato. É extraordinário como a verve e as emoções transbordam do fluxo torrencial dos conceitos dinâmicos e brilhantes que os nossos comentadores, politólogos e outros… isso, têm da Nato. Como é natural tudo o que ouvi estava inquinado com um ainda mal explicado antiamericanismo primário cuja essência consigo apenas remeter para um mal disfarçado complexo de inferioridade que nos faz parecer assim - sábios, pimpões, sempre-em-pés, tagarelas e detentores das grandes soluções para os grandes problemas do mundo. E fui ouvindo a facilidade com que vamos explanando a nossa sabedoria e conhecimentos na análise dos momentosos problemas da humanidade.

Ficou-me um termo que na senda da nossa proverbial tendência para adoptarmos vocábulos e expressões que fazem depois escola durante uns tempos e que foi o etnocêntrico. Claro que qualquer pessoa medianamente culta descodifica o significado do termo, basta ir ao radical, mas a facilidade com que de repente pomos a circular expressões frescas no léxico nacional é digna de registo. Bom, já agora, quem são os etnocêntricos? Imagine-se se poderia ser alguém para além dos europeus e dos americanos. Porquê? Porque continuamos a querer que toda a gente no mundo seja como nós e que todos os problemas sejam solucionados segundo os nossos pontos de vista.

Uns etnocêntricos, é o que nós somos. Ainda que no caso português sejamos uns etnocêntricos cujas virtudes eu não aconselharia a nenhum outro povo do mundo. Senão ainda acabam a perceber imenso da Nato, da senhora Merkel, do Iraque, da Palestina, dos direitos humanos, mas totalmente incapazes de se governar a si próprios.

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2 Comments:

At 5:21 da tarde, Blogger papoila disse...

«FORA A NATO, NÓS QUEREMOS O MALATO!»
Foram as palavras de ordem que ouvi ontem no programa do Herman :))))

 
At 11:41 da manhã, Blogger Espumante disse...

papoila

E o Malato torceu-se de gozo, não? :)))))

 

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