sexta-feira, abril 03, 2009

Ler os outros





[3046]

Esta Ana é um poema. Desta vez farta-se de tropeçar em gente parva. Ora vejam:

"Nunca usei t-shirts do Che, nem lenços palestinianos enrolados à volta do pescoço. Usei, isso sim, presos na lapela do casaco, uns cráchas com o perfil do Lenine e do Marx, redondos e brilhantes como rebuçados de fruta, trazidos pela tia Dé da União Soviética. Saía de casa, a caminho do liceu, com eles enfiados no bolso e só os colocava na gola do casaco no elevador. O meu pai, a quem a revolução dos outros deixou marcas amargas, não apreciava a minha admiração pelo comunismo da tia Dé. Volta e meia, quando a dor que trazia por dentro lhe amarinhava pelo corpo, olhava-me com ódio e mágoa.
(O Benicio del Toro, a propósito do novo filme do Steven Soderbergh, diz que quem usa t-shirts do Che é fixe. O Benicio del Toro é parvo que se farta.)"


"Pedi carapaus fritos no refeitório. Naturalmente, comi as cabeças dos animaizinhos, despedaçando com os meus molares os seus pequenos crânios fritos em óleo quente. Estaladiços e gordurosos, uma delícia! Uma rapariga, magra, que se encontrava por perto, comendo valenciana de legumes, olhou-me com leve repugnância. Há gente muito parva".

"Que fique claro: uma coisa é comer com discrição as pequenas cabeças dos carapaus fritos, outra, bem diferente, é chupar, com pecaminosa satisfação (e mais não digo), uma cabeça de coelho, lamber-lhe a dentola de roedor, sugar-lhe a mioleira, mastigar-lhe os globos oculares, olhinhos outrora pestanudos. Fico agoniada com a campestre gula da minha sogra".
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