quarta-feira, fevereiro 15, 2012

O «desconforto» e os direitos adquiridos

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R foi mandado para a tropa. Na tropa, mandaram-no para Nova Lisboa, Angola. Seis meses depois disseram a R que tinha sido transferido para Luanda, por causa da promoção. Quando chegou a Luanda, R alugou um quarto perto da Igreja da Sagrada Família… mas seis meses depois disseram-lhe que tinha sido transferido para a ZIN (Zona Intervenção Norte). R não sabia exactamente para onde, mas achou que não tinha que saber, até por questões de segurança. Eventualmente foi parar ao Negage e um ano mais tarde, transferiram-no para Nova Lisboa outra vez, porque tinha acabado a sua comissão na ZIN. Nos últimos meses de tropa e porque sabia que provavelmente acabaria o serviço militar naquela cidade, R casou e teve um filho e alugou uma casa bonitinha num bairro bonitinho perto do liceu. Quando saiu da tropa, R apresentou-se no organismo do Estado a que pertencia porque tinha feito um estágio remunerado do seu curso e esse organismo estatal disse-lhe que tinha sido colocado em Carmona (Uíje). R ficou um pouco triste, gostava de Nova Lisboa, cidade simpática, excelente clima, já ambientado… mas era um tempo em que as pessoa lutavam pela sua carreira, pelo seu futuro e pelo dos seus e foi mesmo para o Uíje. Ao fim de um ano, R recebeu uma oferta de trabalho no sector privado e ele não pestanejou. Só que, ainda que já ambientado ao Uíje, o local de trabalho era Nova Lisboa. R voltou assim a Nova Lisboa, ao mesmo tempo, contente, apesar de mais uma mudança, porque já conhecia a cidade e gostava dela. R voltou a alugar uma casa, uma vivenda bonita, fez um jardim e mais um filho. Uma filha, melhor dizendo. E por lá foi ficando, percorrendo a região do Huambo, Bié e Cuanza Sul, em trabalho profícuo e bem remunerado. Mas eis que uma empresa de um grande grupo português convidou R para um lugar bem remunerado e de bons auspícios, mas… em Luanda. R hesitou um pouco, não gostava do clima de Luanda, já tinha dois filhos bebés… mas achou que a proposta era tentadora e foi. Um ano e meio depois, R vivia na paz dos anjos, já habituado a Luanda, de que passou a gostar, fez amigos, tinha uma casa a meias com um familiar no Mussulo e um trabalho de que gostava imenso. Tinha a ver com a sua especialidade e viajava bastante por toda a Angola… mas não é que entretanto acontece o 25 de Abril? R pensou, condicionado à verdura dos seus conhecimentos políticos, e não sabia bem o que fazer. Mas a tragédia dos acontecimentos de Luanda mais a presença de um energúmeno qualquer que dava pelo nome de Rosa Coutinho contribuíram para que R se tirasse das suas tamanquinhas e rumasse para a África do Sul. Para trás ficaram os seus pertences, ainda que parcos, mas seus. Chegado a Joanesburgo, onde entretanto tinha obtido um emprego, instalou-se num hotel às custas da empresa que o tinha contratado que, duas semanas depois, lhe disse. R, we have better plans for you, but you’ll have to go to Durban. R pegou na família e nas malas com a roupa que lhe tinha sobrado do saque do seu camião em Nova Lisboa e seguiu para Durban, onde não conhecia ninguém. Mas a cidade era óptima, o emprego era bem remunerado e R acabou por gostar. Alugou uma casa em Pinetown, um subúrbio muito bonito e lá se instalou. Só que oito meses depois, o seu chefe em Joanesburgo lhe disse: R, F… has just passed away, we need you to take over his job. But, as you know you’d have to move to Johannesburg. R foi. Pegou na família e nos tais haveres, meteu-se no carro e foi. Em Joanesburgo alugou uma casa muito agradável, num bairro agradável, colocou os filhos numa escolinha óptima… e não é que, um ano depois, recebe um telefonema do representante de uma multinacional suíça a oferecer-lhe um lugar muito bem remunerado em Moçambique? R foi. Filhos às costas, por lá ficou uns anos, desenvolvendo um trabalho gratificante e que lhe possibilitou conhecer todo o país a fundo (de que gostou muito e onde aumentou a prole com mais uma menina) e viajar bastante por outros países. Os filhos, entretanto, iam fazendo um percurso de escolas ao longo de todo este trajecto que começara na Addington School em Durban e acabava em Uplands, uma escola mágica entre os pinheiros de White River, Western Traansval.

R, eventualmente, regressou a Portugal. Muitos empregos, casas e escolas depois. Achou que todas estas mudanças foram frequentemente dolorosas, mas enriquecedoras, e que todas elas obedeciam ao imperativo do momento e às vicissitudes da vida. Porque R pensava que a vida era assim, a vida desenrolava-se conforme lhe apetecia e que nos cabia a todos nós lidar o melhor que pudéssemos e soubéssemos com ela.

R não pertencia a sindicatos. Acho que R nem sabia bem o que isso era, ou melhor, sabia, mas tinha uma visão mais romântica da coisa. Ainda hoje não pertence. Quem sabe se, muitos anos atrás, R não tivesse mudado do funcionalismo público para o privado, hoje pertenceria ao sindicato dos técnicos da função pública e teria de ouvir o Sr. Picanço muito zangado com a proposta de Lei da Mobilidade, alegando que isso traz muito desconforto (palavras exactas de Picanço) aos trabalhadores e aos seus direitos adquiridos. Mas desconfio que se R pertencesse e soubesse o que sabe hoje não ia deixar que um senhor Picanço, ou outras personagens adventícias correlativas que gerámos nesta zona de conforto em que se tornou Portugal, decidisse ou falasse por ele.
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4 Comments:

At 2:41 da tarde, Anonymous Anónimo disse...

assino por baixo, mas isto não se diz alto o)

 
At 8:07 da tarde, Anonymous Anónimo disse...

As pessoas criam raízes. Mantê-las só pode ser bom

 
At 7:44 da manhã, Anonymous M Eloi disse...

Vivi no Uíge nos anos setenta, os meus pais tinham uma loja em Nova Caipemba e depois uma no Quitexe.E tínhamos café do Rimaga.

 
At 4:55 da tarde, Blogger Lurdes disse...

Vidas!

 

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