terça-feira, janeiro 23, 2007

Habilidades... ou o costume


[1499]

O meu dia começou com Jorge Sampaio. Furioso, egocêntrico, exaustivo na sua parcialidade, patético na tentativa (frustre) de se mostrar equidistante na polarização esperada sobre o referendo do aborto apesar de claramente a tendência de voto pender para o “sim”. O que não seria, de todo, grave, se Sampaio não quase berrasse que, e cito de cor, “não é possível aceitarmos a intolerância e o baixo nível das campanhas que se está a verificar até aqui". Ora acontece que se há intolerância, insulto, forma chocarreira, falta de educação cívica (e de educação tout court) e tudo o que parece irritar Sampaio, isso provém exactamente de uma parte considerável do sector que faz a apologia do “sim”. É verdade que o “não” deixa escapar algum ridículo, sobretudo quando uma parte mais anquilosada da Igreja deixa fugir ameaças de excomunhão ou de funerais em pecado. Mas isto é nada comparado com a agressividade e histeria do “sim”.

Mas Sampaio é assim. Do que conheço, sempre foi. Sampaio é um exemplo acabado de como a esquerda pensa que a esquerda deve ser. Pegando nos seus próprios pecadilhos e transferindo-os para a direita. E se Sampaio é esquerda, se a maioria do “sim” é esquerda (que tristeza acabar por falar em esquerda e em direita num caso como o do referendo, mas foi a esquerda que abriu as hostilidades) e se a esquerda parece estar a perder algum terreno, nada como fazer o que Sampaio está a fazer desde as 7 da manha de hoje. Dizer que a direita é aquilo que a esquerda não consegue evitar ser: - Intolerante, trauliteira, arrogante, egocêntrica e iluminada. E dizê-lo, de preferência, com um ar blazé de intelectual encartado. E se a situação estiver má (leia-se o adversário a crescer) pois que seja da forma vociferante, pupilas a saltitar e dentes a ranger como Sampaio está a fazer desde… eu seja ceguinho… que acordei. E a RTP, contentinha, a repeti-lo de poucos em poucos minutos.

3 Comments:

At 1:43 da tarde, Blogger Sinapse disse...

... eu cá não vejo a discussão sobre IVG como uma questão de esquerda ou de direita.

Creio que é uma questão social e culturalmente transversal, e que é erradamente/infelizmente transformada numa questão política.

Sim ou não, a favor ou contra ... as posições adoptadas e defendidas dependerão (deveriam depender!) mais dos credos pessoais de cada um do que da sua cor política.

Eu sou a favor da despenalização da IVG. No entanto, respeito e compreendo algumas das argumentações contra. Gostei - ... só a título de exemplo - da forma como o RAF descreveu/explicou o seu Não.

Por outro lado, e numa de polémica e controvérsia, gostei destas perguntas encontradas numa caixa de comentários:
O que é que um embrião produto de uma violação tem a menos que um embrião fruto de uma gravidez não desejada no contexto de uma relação consentida?
É menos ser humano?
É menos potencial de vida?


...

Beijinhos, ... discordantes,
Sinapse

 
At 4:54 da tarde, Blogger Nelson Reprezas disse...

sinapse
Se leres com atençao, o meu post nao se referia ah defesa nem do sim nem do nao. Eu referia-me apenas ah forma como Jorge Sampaio hoje de manha ralhou com o pais (ralhou eh o termo adequado) porque, dizia ele, os partidarios do nao estavam a fazer uma campanha sordida ultrapassando todos os limites da tolerancia que devia balizar o debate do assunto. Dizia ele que nao se podia admitir que o nao tratasse o sim daquela forma, etc., etc. Ora tanto quanto me tenho apercebido tem acontecido exactamente o contrario. O sim trata o nao com desprezo e mau feitio. E falta de educaçao. Foi so isso que eu escrevi. Ah e que a esquerda quando se sente acossada resolve transferir os seus proprios pecados para a direita, numa alusao expressa ah atitude de Jorge Sampaio esta manha na televisao. Portanto, nao me pronunciei sobre o "sim" ou o "nao". Torna-se obvio que jamais votarei "sim", mas tenho reservas quanto ao "nao". Se nao tenho falado no assunto (como o RAF o fez de uma forma que gostei, alias) tal se deve exactamente a algumas duvidas que me me dividem. Mas um dia falarei no assunto.
Continuo sem saber se estas em NYC ou Bruxelas....
Beijinhos... hummm... mal compreendidos :)

 
At 10:58 da tarde, Blogger Sinapse disse...

Eu não interpretei o teu post como um posicionamento em sim ou em não ... até porque frequento as tuas caixas de comentários e sei que não sendo sim também não és completamente não precisamente por causa das tais dúvidas que persistem e que referes.
Só que li, no teu post, e quiçá erradamente, li algo que me levou a pensar num posicionamento esquerda/direita ... e era apenas sobre isso (e não sobre o sim ou o não) que eu pretendia comentar ...
Entretanto ... estou em BXL ... rumo a NYC no dia 1 de Fevereiro! :))

Beijinhos, beijinhos,
Sinapse

 

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