sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Todos pela liberdade


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Fui a S. Bento. Porque tenho um blogue, porque assinei a petição e porque me sinto cada vez mais embaraçado por ter o primeiro-ministro que tenho, com todos os episódios adjacentes, mantidos e adubados por boys a ganharem €2,5 M/ano. Fui.

Sabia que não veria massas vociferantes nem carradas de manifestantes frenéticos, camisas do Che, bandeiras vermelhas, nem punhos erguidos. Mas esperava, isso esperava, ver “rapaziada” da minha idade. Tinha mesmo lido, algures que o João Gonçalves, um rapaz da minha idade, lá estaria. Não estava. E é assim que me vejo submerso por uma onda de juventude, de fato, sim, e com ar de quem tinha um cliente para visitar às 15:00, mas com ar escovado, de conversa interessante, num cenário reconfortante de jovens determinados. Aquela que amanhã irá tomar conta dos destinos deste país cansado de relíquias de Abril. Poetas, pensadores, lutadores da liberdade, exilados, honoráveis desertores, internacionalistas, intervencionistas, amigos das esquinas, igualitários, distribuidores da riqueza (dos ricos, pois, que se saiba, não se produziu muita mais para além da que já havia), intelectuais, artistas, gente, enfim, cheia de reserva moral e intelectual mas que, tudo junto e somado, não ajudou muito a que Portugal enveredasse pela via da convergência em relação aos seus parceiros europeus. Porque nos últimos cerca de 30 anos, os nossos líderes pensaram muito, lutaram pela liberdade, acabaram com a tropa e já não precisam de desertar, internacionalizaram a revolução, intervencionaram, nacionalizaram, foram encontrando os amigos das esquinas, igualizaram e distribuíram riqueza enquanto houve alguma, perderam-se em supremas tertúlias intelectuais e artísticas mas, lá está, tudo junto e somado, conduziram-nos a uma divergência profunda em relação aos índices de desenvolvimento e progresso da Europa a que pertencemos.

Neste momento, uma clique de novos-ricos da política ignoram os meios, saltam por cima da ética (à “vara” se preciso for), afastam os pruridos, perdem-se em conluios, tramam, entrelaçam cumplicidades e conspiram para manter um status que lhes garanta a subsistência (a maior parte deles não sabe fazer mais nada e tem muito pouco mundo…). Nessa óptica, “atiraram-se” à comunicação social, que pretenderam controlar, fazendo tábua rasa de quaisquer valores éticos e mesmo sem respeito pelo dinheiro de todos nós, usando-o em episódios tão imorais como o aluguer de jatinhos expressos para “ir a Madrid e já venho “, assinar um contrato para pôr” um gajo na rua”.

Voltando a S. Bento, foi essa onda de juventude que vi. De fato para cliente das 3:00, como disse a Felipa (não desmerecendo das calças dela que não deslustrariam numa reunião de conselho de administração, so to speak…) mas senti que há ali substrato para dar a volta a “isto”. Depois de extirpadas as relíquias do regime, como é óbvio. E dos oportunistas de percurso, como é o caso flagrante do nosso primeiro-ministro em exercício. E olhar aquela juventude alegre e determinada fez-me bem. Mesmo que um pouco nostálgico e desesperadamente procurando o João Gonçalves que ia, mas não foi, como faixa etária de inserção.

Portugal ainda “cumprirá o seu ideal”, lá dizia o Chico Buarque. Mesmo que o ideal cantado pelo Chico não tenha nada a ver com o que a realidade de hoje exige.

P.S. Aconteceu-me uma aparição profusa na SIC Notícias, uma entrevista que veio três ou quatro vezes para o ar. Se algum dos meus confrades conseguir o link, antecipadamente agradeço que mo envie para a caixa de comentários ou por mail.

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