quarta-feira, janeiro 21, 2009

200 Metros de Calçada da Estrela


[2895]

Que me ocorra, há três artigos que nunca comprei na vida. Isqueiros, esferográficas e chapéus-de-chuva. Várias circunstâncias concorreram para isso mesmo. Isqueiros e esferográficas sempre os tive às paletes por força de uma reserva de brindes de que eu era fiel depositário. Desde as veneráveis Caran d’Ache aos Dupont e velhos Ronson (não sei se estes ainda existem) até à versátil Bic que tanto dava para isqueiros como para esferográficas, sempre dispus da prerrogativa de acender os meus cigarros ou escrever as minhas notas com material de representação. Já chapéus-de-chuva, não sendo tão frequente, também deles dispunha, com motivos publicitários. Aliás, corrijo o tiro. Uma vez em Londres vinha com duas filhas pela trela, desata a chover e eu não tinha nada parecido com um chapéu-de-chuva. Isto passa-se na Oxford St que, como muitos sabem, deve ter uma loja de chapéus-de-chuva por m2. Assim entrei na primeira que vi e, desconhecedor de preços como qualquer residente dos trópicos que se preza, comprei três guarda-chuvas, cada um custando a módica quantia de £18. Acabado de pagar e regressado à rua, eis senão quando vejo na loja imediatamente a seguir, apenas separada por uma pequena ruela, uma loja com um cesto cheio de chapéus de chuva e um grande letreiro: - Sale £2 each.

Mas tirando estas £54 para o maneta, acho que nunca comprei mais chapéus-de-chuva. Em Portugal, não sei como, sempre tive maneira de “pegar” um chapéu-de-chuva em casa de família ou amigos em dias de chuva e nunca precisei de comprar nenhum. Ultimamente, talvez porque os amigos precavidos da chuva vão escasseando, tinha um chapéu-de-chuva azul. Feio como só ele, mas excelente, porque grande e cumpridor da sua nobre tarefa de não me deixar molhar. Não sei de onde o trouxe, sei que me acompanhava há mais de três anos. Pendurado no bengaleiro do gabinete, cumpria fielmente a sua missão, sobretudo neste últimos dias de chuva abundante.

Ontem perdi o chapéu-de-chuva, deixei-o algures entre três restaurantes, uma farmácia e uma agência do Euromilhões. Percorridos estes locais, em todos eles me foi dito polidamente que o chapéu-de-chuva não estava lá.

Dando de barato que posso sempre comprar outro, tenho reflectido na rotina idiota de um homem que conclui que só pode ter perdido um chapéu-de-chuva entre três restaurantes mais ou menos esconsos, uma farmácia de mobiliário antigo e de exíguo espaço e uma agência de Euromilhões de cuja dona sei exactamente quantas rugas tem no pescoço, dada que lhas conto invariavelmente às quartas-feiras, enquanto ela me regista o boletim. É uma reflexão cruel porque me lembro do tempo em que perdia isqueiros em Johannesburg, Luanda, Maputo, Basileia ou Lusaka, esferográficas em Harare, Nairobi, Lisboa, Zurique ou Gaberone e chapéus-de-chuva não perdia porque nunca os usava. Mas tinha. Hoje o meu campo de pesquisa para a perda destes úteis objectos está confinado a uma secção de duzentos metros da Calçada da Estrela. Que é o espaço onde cabem três restaurantes, uma farmácia e uma agência de euromilhões.

Há qualquer coisa de errado, de trágico e de triste nisto tudo. De fado?
.

Etiquetas:

quarta-feira, dezembro 26, 2007

O equinócio das rotinas



[2226]

Todos os anos é a mesma coisa. Ainda o frio não se instalou convenientemente e os dias já começam a ser maiores. Alegra-se a alma lusa do solinho e do quentinho, fenece o entusiasmo daqueles que, por razões não perceptíveis à fauna do calor, continuam a gostar do conforto frio dos invernos que exigem roupa macia, abafada e bonita, aquecimento em casa e no carro e os neurónios mais activos.
.

Etiquetas: ,

segunda-feira, outubro 22, 2007

A novidade da rotina



[2104]

Sempre achei que os ingleses e os anglosaxónicos em geral tinham uma arrepiante falta de imaginação. São capazes de se sentar a uma mesa de um McDonalds ou de um Wimpy e ler atentamente um menu que é rigorosamente igual em todos os países onde estiverem. Mesmo assim, olham-no atentamente, discutem-no pormenorizadamente com a família e o cenário não é diferente de quando nos sentamos num bom restaurante francês e precisamos de mais de quinze minutos para equacionarmos as mil e uma ofertas da belle cuisine. No caso dos ingleses e dos restaurantes da Wimpy, e depois de toda aquela atenta e cuidada análise, a decisão salda-se em 99% dos casos por um double cheese burger with fries and aquela disgusting beverage que ostenta o nome de coffee mas que eles, pragmaticamente chamam de coffee drink. E encomendam com cara de quem acaba de tomar uma sábia decisão e a excitação de quem anuncia à família: -
"Vamos lá experimentar este prato".

Em Portugal estamos a atingir uma situação semelhante com os boletins meteorológicos para o dia. O apresentador da tv anuncia o boletim, aparece um indivíduo de meia idade com ar de entendido e estudado na coisa (onde pára Bill Murray a anunciar o festival da marmota??), nós fazemos uma pausa e ouvimos atentamente o tal indivíduo dizer que o céu vai estar pouco nublado a limpo, vento fraco e temperaturas um pouco acima dos valores normais para a época e ondulação de um metro na costa ocidental. É assim todos os dias. Durante semanas, meses. É assim a expectativa, é assim o resultado de uma meteorologia onde depositamos as expectativas de um esquisite dish e acabamos a comer o cheese burger do costume. Mas não deixamos de prestar a devida atenção. Excitação é que nem por isso.

.

Etiquetas: ,