200 Metros de Calçada da Estrela

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Que me ocorra, há três artigos que nunca comprei na vida. Isqueiros, esferográficas e chapéus-de-chuva. Várias circunstâncias concorreram para isso mesmo. Isqueiros e esferográficas sempre os tive às paletes por força de uma reserva de brindes de que eu era fiel depositário. Desde as veneráveis Caran d’Ache aos Dupont e velhos Ronson (não sei se estes ainda existem) até à versátil Bic que tanto dava para isqueiros como para esferográficas, sempre dispus da prerrogativa de acender os meus cigarros ou escrever as minhas notas com material de representação. Já chapéus-de-chuva, não sendo tão frequente, também deles dispunha, com motivos publicitários. Aliás, corrijo o tiro. Uma vez em Londres vinha com duas filhas pela trela, desata a chover e eu não tinha nada parecido com um chapéu-de-chuva. Isto passa-se na Oxford St que, como muitos sabem, deve ter uma loja de chapéus-de-chuva por m2. Assim entrei na primeira que vi e, desconhecedor de preços como qualquer residente dos trópicos que se preza, comprei três guarda-chuvas, cada um custando a módica quantia de £18. Acabado de pagar e regressado à rua, eis senão quando vejo na loja imediatamente a seguir, apenas separada por uma pequena ruela, uma loja com um cesto cheio de chapéus de chuva e um grande letreiro: - Sale £2 each.
Mas tirando estas £54 para o maneta, acho que nunca comprei mais chapéus-de-chuva. Em Portugal, não sei como, sempre tive maneira de “pegar” um chapéu-de-chuva em casa de família ou amigos em dias de chuva e nunca precisei de comprar nenhum. Ultimamente, talvez porque os amigos precavidos da chuva vão escasseando, tinha um chapéu-de-chuva azul. Feio como só ele, mas excelente, porque grande e cumpridor da sua nobre tarefa de não me deixar molhar. Não sei de onde o trouxe, sei que me acompanhava há mais de três anos. Pendurado no bengaleiro do gabinete, cumpria fielmente a sua missão, sobretudo neste últimos dias de chuva abundante.
Ontem perdi o chapéu-de-chuva, deixei-o algures entre três restaurantes, uma farmácia e uma agência do Euromilhões. Percorridos estes locais, em todos eles me foi dito polidamente que o chapéu-de-chuva não estava lá.
Dando de barato que posso sempre comprar outro, tenho reflectido na rotina idiota de um homem que conclui que só pode ter perdido um chapéu-de-chuva entre três restaurantes mais ou menos esconsos, uma farmácia de mobiliário antigo e de exíguo espaço e uma agência de Euromilhões de cuja dona sei exactamente quantas rugas tem no pescoço, dada que lhas conto invariavelmente às quartas-feiras, enquanto ela me regista o boletim. É uma reflexão cruel porque me lembro do tempo em que perdia isqueiros em Johannesburg, Luanda, Maputo, Basileia ou Lusaka, esferográficas em Harare, Nairobi, Lisboa, Zurique ou Gaberone e chapéus-de-chuva não perdia porque nunca os usava. Mas tinha. Hoje o meu campo de pesquisa para a perda destes úteis objectos está confinado a uma secção de duzentos metros da Calçada da Estrela. Que é o espaço onde cabem três restaurantes, uma farmácia e uma agência de euromilhões.
Que me ocorra, há três artigos que nunca comprei na vida. Isqueiros, esferográficas e chapéus-de-chuva. Várias circunstâncias concorreram para isso mesmo. Isqueiros e esferográficas sempre os tive às paletes por força de uma reserva de brindes de que eu era fiel depositário. Desde as veneráveis Caran d’Ache aos Dupont e velhos Ronson (não sei se estes ainda existem) até à versátil Bic que tanto dava para isqueiros como para esferográficas, sempre dispus da prerrogativa de acender os meus cigarros ou escrever as minhas notas com material de representação. Já chapéus-de-chuva, não sendo tão frequente, também deles dispunha, com motivos publicitários. Aliás, corrijo o tiro. Uma vez em Londres vinha com duas filhas pela trela, desata a chover e eu não tinha nada parecido com um chapéu-de-chuva. Isto passa-se na Oxford St que, como muitos sabem, deve ter uma loja de chapéus-de-chuva por m2. Assim entrei na primeira que vi e, desconhecedor de preços como qualquer residente dos trópicos que se preza, comprei três guarda-chuvas, cada um custando a módica quantia de £18. Acabado de pagar e regressado à rua, eis senão quando vejo na loja imediatamente a seguir, apenas separada por uma pequena ruela, uma loja com um cesto cheio de chapéus de chuva e um grande letreiro: - Sale £2 each.
Mas tirando estas £54 para o maneta, acho que nunca comprei mais chapéus-de-chuva. Em Portugal, não sei como, sempre tive maneira de “pegar” um chapéu-de-chuva em casa de família ou amigos em dias de chuva e nunca precisei de comprar nenhum. Ultimamente, talvez porque os amigos precavidos da chuva vão escasseando, tinha um chapéu-de-chuva azul. Feio como só ele, mas excelente, porque grande e cumpridor da sua nobre tarefa de não me deixar molhar. Não sei de onde o trouxe, sei que me acompanhava há mais de três anos. Pendurado no bengaleiro do gabinete, cumpria fielmente a sua missão, sobretudo neste últimos dias de chuva abundante.
Ontem perdi o chapéu-de-chuva, deixei-o algures entre três restaurantes, uma farmácia e uma agência do Euromilhões. Percorridos estes locais, em todos eles me foi dito polidamente que o chapéu-de-chuva não estava lá.
Dando de barato que posso sempre comprar outro, tenho reflectido na rotina idiota de um homem que conclui que só pode ter perdido um chapéu-de-chuva entre três restaurantes mais ou menos esconsos, uma farmácia de mobiliário antigo e de exíguo espaço e uma agência de Euromilhões de cuja dona sei exactamente quantas rugas tem no pescoço, dada que lhas conto invariavelmente às quartas-feiras, enquanto ela me regista o boletim. É uma reflexão cruel porque me lembro do tempo em que perdia isqueiros em Johannesburg, Luanda, Maputo, Basileia ou Lusaka, esferográficas em Harare, Nairobi, Lisboa, Zurique ou Gaberone e chapéus-de-chuva não perdia porque nunca os usava. Mas tinha. Hoje o meu campo de pesquisa para a perda destes úteis objectos está confinado a uma secção de duzentos metros da Calçada da Estrela. Que é o espaço onde cabem três restaurantes, uma farmácia e uma agência de euromilhões.
Há qualquer coisa de errado, de trágico e de triste nisto tudo. De fado?
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