quarta-feira, março 30, 2011

Aaa-tchoooooo


Pólens de pinheiro. Os pólens não se querem bonitos...


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Ando com uma pulga atrás da orelha. É que anda tudo muito calado. Todos os anos as nossas rádios e televisões vestem aquele tique de modernidade e o fascínio do chique às suas emissões, com pomposas rubricas denominadas como boletins polínicos e correlativos. A gente ouve, não liga muito, mas no intimo sabe que mais um tema de conversa de restaurante está aí para ser usado e cientificamente dissecado. Os pólens e as alergias. Houve tempo em que as alergias se confinavam, mais ou menos, aos ácaros, mas eis que se descobriu que o ácaro é um plebeu mal amanhado, um parente mal visto dos aracnídeos. Se os aracnídeos já eram bichezas pouco recomendáveis, facilmente se entende porque é que as pessoas deixaram de ser alérgicos aos ácaros. E não foi só o parentesco que os relegou para as profundezas da indiferença, acontece que os ácaros têm uns gostos esquisitos de alimentação, por exemplo. Imagine-se que comem cabelos, pêlos, escamas de pele, bolores e outros produtos orgânicos. Imaginemo-nos a uma mesa de restaurante explicando que fomos atacados por ácaros que nos comem os cabelos, os pêlos das axilas, nos roem a epiderme, as unhas dos pés e atacam aquele pedaço de pão bolorento de que nos esquecemos no canto da mesa da cozinha. Mau aspecto, claro. Isto deu força aos pólens. Alergias, sim. Mas aos pólens. Muitos de nós aprendemos mesmo que o pólen é a célula masculina que possibilita a propagação das flores. Logo, garante a continuidade da espécie. E imaginamos a cena bucólica de milhões de células masculinas, empurradas pela brisa (nesta parte não se diz vento, diz-se briiiiiiisa) à procura de gineceus algures pelos prados e jardins, aguardando o flirt e o acasalamento com um pólen que se veja. Tanto quanto se saiba parece não haver ainda pólens que gostem de pólens, eles querem mesmo é gineceus e encher o mundo de novas flores. Mas este é um ponto que não é para aqui chamado e pode causar alergias avulso. E é assim que entramos agora na época das grandes questões alérgicas. Como disse no princípio do post, estranho que ainda não tenham começado as grandes dissertações sobre as a alergias e sobre aqueles boletins polínicos que ninguém entende mas que nos fazem sentir muito mais reconfortados ao sair de casa. Tipo:


- Bom dia, pá, tudo bem?

- Tudo, vou trabalhar.

- E está tudo bem contigo?

- Tudo, ando a espirrar um bocado, mas já se sabe, a primavera está aí…

- Pois, eu sei, lá em casa tenho os miúdos a espirrar, até já recomendei para se ter muito cuidado ao mudar o saco do aspirador, limpar bem os aparelhos de ar condicionado e, sobretudo, já disse à crianças que não façam festas aos gatos…

- É. Tens razão. É preciso ter cuidado. Mas hoje estou mais sossegado. Antes de sair ouvi o boletim polínico no «Bom dia Portugal», parece que há uns pólens ali pela Av. da Índia, mas nada de cuidado…


E por aí fora. O português, moderno e precavido, vai substituir, sazonalmente, as dores nas costas, pelas alergias. Vai, até exercitar diálogos interessantes onde trará a lume a sua cultura. Irá «tutear» nomes como as coníferas, os cupressos, ciprestes, juníperos e pinheiros. Aqui e ali vai mesmo deixar cair um toque de cultura geral dizendo que os miosótis produzem os mais pequeninos grãos de pólen. E, entre dois espirros, concorrerão para o desporto nacional. Falar de doenças e mostrar que sabem do que falam. Pelo menos até começar a época dos incêndios.

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sexta-feira, maio 28, 2010

Os pólens e as alterações climáticas


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Tenho a certeza de que já existiam pólens muito antes da televisão estatal nos brindar com aqueles sofisticados «boletins polínicos», através dos quais ficamos a saber que os pólens de hoje são maioritariamente de gramíneas e oliveiras, ao mesmo tempo que, cientes da massa de ar quente que se desloca do centro da Europa e que bloqueia a massa de ar húmido que se desloca daquela zona ali a noroeste dos Açores, também nos apercebemos de que a A5 está entupida por causa de um acidente ou há um banco de nevoeiro na ponte do Freixo. Voltando aos pólens e enquanto não nos surge mais um boletim de esclarecimento sobre gramíneas (para todos sabermos que estas são monocotiledóneas) para sabermos que tipo de poléns nos aflige os pólipos nasais, ou porque é que os pólens das oliveiras são mais frequentes que o dos eucaliptos, ficamos também a saber que o aquecimento global as alterações climáticas têm uma importância decisiva na formação, no aparecimento, no devaneio, na errância dos pólens que nos põem a espirrar, coçar a epiderme, esfregar as conjuntivas e pigarrear as amígdalas martirizadas pelos monocotiledónicos pólens.

A minha mãezinha (e lembro-me de algures já ter escrito sobre isso) é um ser de hábitos e inalteráveis rotinas. Nunca ela terminou uma refeição sem uma peça de fruta ou a começou sem um prato de sopa e toda a sua vida é pautada por um regime de rotinas que, aparentemente, lhe têm feito muito bem, a avaliar pela idade que tem e saúde de que desfruta. No que concerne a espirros, ela tem um acesso de espirros por quinzena. São 14 espirros… os primeiros seis intervalados de dez segundos, os quatro seguintes passam a estar espaçados de quinze segundos, depois tem dois, mais espaçados ainda (vinte e cinco segundos) e os últimos dois podem demorar um pouco mais ou um pouco menos, na certeza que ela não retoma seja o que for que esteja fazendo porque… lhe falta espirrar ainda duas vezes.

Eu acho que ela sempre assim foi, desde o tempo em que as televisões e os jornais ainda não nos entupiam com as alterações climáticas. Hoje, com todos os tratos de polé a que o homem submeteu o planeta azul donde, inexoravelmente, resultou uma massa de pólens de gramíneas e de oliveiras, a minha mãe continua a espirrar o mesmo número de espirros e à mesma cadência. E até ela, valha-me deus, deixou escapar um dia destes, após uma saudável sessão de espirros, uma queixa de que com estas mudanças de clima o ar andava cheio de pólens.

Poupei-a explicar-lhe que os pólens já existiam desde que Deus Nosso Senhor criou o mundo e que os pólens de hoje eram maioritariamente de gramíneas e oliveiras, mas deixei-a ficar na certeza que os espirros dela se devem às malfeitorias dos homens, segundo nos informaram hoje na televisão. E no fim, para a confortar, eu próprio espirrei e corroborei: - Malditas alterações climáticas, mãe!

E ela ficou toda contente por ter um filho realmente consciente da coisa ecológica e, também, que ouve os boletins polínicos da RTP1.

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