segunda-feira, agosto 10, 2009

Um minuto de palmas


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Quando eu era pequenino, ensinaram-me que um minuto de silêncio era uma manifestação de pesar pela passamento de alguém e uma forma de recolhimento perante essa perda. Pesar e recolhimento consubstanciados naquele curto período de silêncio pesado, afinal um tributo ao falecido, em forma de solene respeito.

Ainda ontem observei um minuto de silêncio num estádio de futebol, um minuto em que umas dezenas de milhares de pessoas observaram rigoroso silêncio pela morte de alguém cuja identidade me passou. As pessoas silenciaram-se e aguardaram respeitosamente o apito do árbitro. Não, não foi cá. Foi em França onde, ao que parece, o silêncio é silêncio e palmas são palmas. Mas não em Portugal. Por qualquer razão que me escapa, de há uns tempos para cá que todos os minutos de silêncio em estádios de futebol são minutos de aplauso.

Os portugueses são originais e quando se esquecem como sê-lo, inventam. Agora é a moda das palmas. Há qualquer coisa que não bate certo em dar o significado das palmas ao silêncio, mas a nossa originalidade não tem limites. Ainda anteontem, no jogo Benfica vs Milan, no minuto de silêncio a Raul Solnado a multidão irrompeu numa ruidosa salva de palmas, para espanto dos nossos visitantes. Como de costume, afinal.
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domingo, março 04, 2007

Boçalidade



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Um homem morre. Por força de uma carreira brilhante em vida, é merecedor de várias manifestações de respeito e carinho. Mas há uma que lhe está reservada, no Dragão, sob a forma de assobios e de vaias. Porque Bento, o homem que morreu, cometera o crime grave de ter sido jogador do Benfica.

O facto de os minutos de silêncio se terem transformado, em Portugal, em minutos de palmas já me causava alguma estranheza. Poderei estar errado mas julgo que Portugal será o único país em que o minuto de recolhido silêncio que se convencionou dedicar a quem parte se tornou em minuto de aplauso. Agora que se tenha passado do aplauso ao assobio e à vaia energúmena e labrega é que não me passaria pela cabeça. Mas aconteceu. Um dia destes aparece por aí um sociólogo iluminado a explicar os porquês de uma reacção que só pode ter a ver com a boçalidade. Nada mais que isso.

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