quarta-feira, dezembro 10, 2008

Lá como cá


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lutadores da liberdade há. Só que “cá” faz mais frio. E um borralho aconchegante ajuda muito os Invernos mais rigorosos e depois, o custo de vida é europeu, muito mais elevado. Para além de que havia ditaduras más e outras muito más. A nossa era, certamente, muito má e, naturalmente, produziu melhores heróis.

(Para se entender melhor estas linhas, ler este post no Atlântico que nos remete para um outro de Paulo P. de Mascarenhas e um artigo de H. Raposo no Expresso sobre Batista Bastos
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quarta-feira, julho 11, 2007

Onde é que estavas no 25 de Abril?



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No DN de hoje, Baptista Bastos mostra-se preocupado com as nuvens de ameaça que pairam sobre a liberdade, pela acção centralista deste governo. E depois cita alguns casos recentes e mais ou menos do domínio público, leia-se os desmandos dos zelotas de serviço da paróquia mai-las broncas de uns quantos ministros que, obviamente, não têm a mais remota ideia do que andam ali a fazer, desde a má-criação de Jaime Silva aos jamés estridentes do ministro Lino, inscrito na Ordem. Acaba Baptista Bastos na referência a uma alegada normatividade que tende a relegar a liberdade de imprensa para a lista dos produtos supérfluos. E remata dizendo que “... o desatino é de tal monta que se chega ao ponto de pedir, encarecidamente, a um Presidente de República, cujo currículo não possui o mais módico vestígio de luta pela liberdade, cito BB, que vete o estatuto...”

Ora, é aqui que a porca torce o rabo. Eu estou farto desta gente que acha que lutar pela liberdade foi ter ido parar à prisão, ser torturado, vigiado ou prejudicado pela polícia política do Estado Novo. Isto é uma ideia falsa e ofensiva para aqueles que nunca foram presos ou, tendo-o sido, têm uma visão totalmente diferente da luta pela liberdade. Pela parte que me toca, por exemplo, não foi por ter andado ao estalo com um polícia semianalfabeto na Ferreira Borges, na Coimbra dos meus dezassete anos, que me sinto mais defensor das liberdades. Pelo contrário, acho que, nessa altura, muitas vezes fui um perfeito idiota e nem sabia bem o que queria, mas não importava, desde que partisse um par de montras e enriquecesse o meu currículo com umas bastonadas levadas de um chui.

Eu tenho alguma percepção de que quem tem de se agarrar a um período de participação activa na luta pela defesa ou implantação da liberdade, mesmo que isso tenha custado umas bastonadas ou sujeição a sevícias de uma polícia adequada ao sistema vigente, é porque lhe escasseia currículo que lhe baste como cidadão consciente da sua condição cívica, da prestação de uma carreira de trabalho, pautada pela seriedade e pelo noção do contributo para um país melhor. Ao contrário de muitos que conheci (e isto não tem nada a ver, em particular, com Baptista Bastos) que se fartaram de ser presos, levaram uns estalos e depois se meteram a tratar da vidinha, que é a aptidão mais vincada no português. E o tratar da vidinha é, por exemplo, fazer carreirismo político, à espera de um lugar vitalício que lhe possibilite uma reforma confortável.

Tenho para mim que defender a liberdade é ser sério, fazer do trabalho a sua ferramenta de subsistência e/ou de criação de riqueza, reger-se pelo primado da cidadania e das virtudes cívicas acima de qualquer acção que lese o interesse colectivo da sociedade e, sobretudo, guardar o respeito pela liberdade e direitos individuais do concidadão. Infelizmente, todos sabemos que esta não é a imagem corrente dos defensores da liberdade, daqueles que acham que foram imensamente heróis e que isso lhes basta como carta de recomendação em todas as ocasiões. Além do direito à prestação de um tributo por uma condição que, claramente, está esvaída no tempo e já romba nas arestas puídas por uma sociedade moderna, diferente e melhor.

Daí que já me canse estes lutadores pela liberdade. Primeiro porque, frequentemente, não fizeram mais nada que se visse, depois, pela forma abusiva e arrogante como puxam pelos galões dos heróis que acham que foram até ao 24 de Abril e que acabam por ofender aqueles que parametrizaram a sua vida por uma matriz orientada no respeito pela liberdade dos outros. Sobretudo aquelas centenas de milhar de pessoas que chegaram a Lisboa depois das independências das colónias, sem mais nada que não fosse a necessidade de refazer a sua vida e um grande sentido de responsabilidade pela sobrevivência própria e dos seus. E aqui está, sim, um bom exemplo de luta pela liberdade. Porque a luta pelo progresso pessoal desagua no progresso colectivo e esta é uma forma nobre de luta e preservação da liberdade.

Acho, assim, que esta forma de Baptista Bastos se ter referido a Cavaco Silva é, no mínimo, foleira, arrogante e míope.

Estou farto deles...

Nota: Continuo a não conseguir o mode “edit” que me permitiria fazer links, neste caso ao artigo do DN, o que lamento.


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