Porque é que ninguém lhes explica?

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A RTP resolveu substituir ontem o Prós e Prós por uma amena reunião social com a anfitriã do costume e que não vi na totalidade. De resto, Fátima manteve o formato “de debate”, de um lado Santana Lopes e Bagão Félix e do outro, Santos Silva, Rui Tavares (uma estrela bloquista em ascensão – independente, eu sei, mas do Bloco) e Sérgio Azevedo, um senhor que eu não conhecia mas que rapidamente se denunciava como um comunista. De gema. Daqueles de comité central, emulações, braço no ar, muitas medalhas ao peito e palmas organizadas.
Basicamente, pareceu-me que o tema era questionado pela Fátima Campos Ferreira, que deve ter usado a palavra governabilidade uma centena de vezes e que soava mais como a "tragédia" decorrente da recente vitória do PSD do que propriamente por uma questão aritmética, em face do actual espectro eleitoral do país. Mas o que verdadeiramente retive foi a indignação de Rui Tavares (uma estrela em ascensão etc., etc.) quando Santos Silva ousou distinguir a esquerda democrática da outra. Rui Tavares encolerizou-se e debitou verbo condizente com a democracia da coisa, dizendo que não poderia deixar passar em claro tal aleivosia. Santos Silva ainda lhe explicou algumas diferenças mas pareceu-me que o essencial ficou por dizer. Ou seja que tanto o Bloco como o Partido Comunista são realmente democráticos na justa medida, e apenas, porque se submetem ao voto, ao escrutínio popular. Mas é importante que não nos esqueçamos que o fazem porque não têm escolha. Submetem-se ao voto porque é a única forma de se poderem sentar na Assembleia da República e ir aos programas da Fátima Campos Ferreira. Porque me parece que não restam dúvidas a ninguém que se conquistassem o poder (à cacetada, como o Partido Comunista já tentou, porque é nisso que são especialistas), essa minudência do voto secreto se tornaria num forma arcaica de fazer política.
São estas coisas que me fazem muita confusão. Até aceito que a importância e deferência concedidas à estrema esquerda, logo não democrática e concretamente o Partido Comunista e Bloco de Esquerda, decorram de um formato próprio de regimes democráticos. Mas o que não deveria ser esquecido é que a inversa nunca seria possível. E era isso que lhes deveria ser dito, sem rodriguinhos, de cada vez que a esquerda se indigna, ofendida, porque não a consideram democrática. E já agora. Para além de tanto o Partido Comunista e Bloco não serem, notoriamente, democratas, alguém se lembra de alguma vez perguntar ao Bloco (digo ao Bloco porque do PC, honra lhes seja feita, já sabemos tudo) que sistema político e económico preconizam eles para o nosso país, para além aquele modelo de virtudes éticas e justiceiras, não esquecendo o incitamento e treino intensivo de desobediência civil, que os seus próceres usam para passar a impoluta mensagem daquilo que querem parecer ser?
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