quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Os donos da bola (e na graça de Deus)

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Mário Soares, Maria Barroso, Joana Amaral Dias, Carvalho da Silva, Rui Tavares, D. Januário Torgal Ferreira (não perde uma…), Simoneta Luz Afonso, Sandra Monteiro, Almeida Santos, Vasco Lourenço e mais vinte e dois cidadãos divulgaram um manifesto de solidariedade (como é que se faz isto?) no qual se solidarizam com a Grécia e se insurgem contra aqueles que dizem que «nós não somos a Grécia». De caminho, graças a Deus, resolvem os problemas dos gregos. Como? Simples: Apelam à solidariedade com o povo da Grécia e à criação de condições que permitam respostas democráticas e consistentes de uma Europa solidária aos problemas sociais e aos direitos das pessoas.

Francamente, como é que eu não me lembrei disto mais cedo? O que nos vale é de vez em quando aparecer assim uma trintena de cidadãos que se preocupam, solidarizam, criam condições democráticas e resolve-se tudo. Sorte a nossa!
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quinta-feira, dezembro 30, 2010

Deus nos guarde e nos ilumine pela «doutrina social da igreja»


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A esquerda institucional não é o verdadeiro problema de Portugal. Tanto o PCP como o Bloco são dois Partidos tendencialmente sujeitos à erosão natural que o progresso, a literacia e, porque não dizê-lo, um esperável desenvolvimento do espírito de cidadania em Portugal, lhes causam e acabarão por conduzi-los inevitavelmente ao desaparecimento. O verdadeiro problema reside mais no que eu chamaria a mentalidade de esquerda, uma mentalidade que gera nos seus mentores um sentimento de superioridade moral e de convencimento da sua inevitabilidade como condutores da massa inane que, por razões não completamente esclarecidas para a esquerda, não acedeu à virtude suprema do iluminismo de que ela se considera legítima e única herdeira. E se a massa é inane, a esquerda sente que tem de arrancá-la da obscuridade, das trevas, iluminando-a para que desfrute do progresso de toda a humanidade, lado a lado, como é bom de entender, com uma retórica oportunamente estudada e colocada em forma de cartilha. Convém, mesmo assim, que esta atitude doutrinária da esquerda seja lenta e gradual, não vá a grei iluminar-se de repente e a esquerda ficar sem emprego. Um pouco à semelhança do MES que acabou por encontrar porto seguro para atracar, no Partido Socialista, como se sabe mas os mais distraídos se esquecem. Mas isso é outra história e eu até acredito que no seio da esquerda exista gente bem-intencionada. Como acredito na desprezível pantomina a que celebradas figuras de esquerda se submetem para que do seu estatuto decorram vantagens, prebendas e, mutatis mutandis, um cortejo de invejáveis benesses que de outra forma dificilmente conseguiriam. Ou, em português corrente, se tivessem de trabalhar como as pessoas.

Esta reflexão é bem ilustrada pelo minuto final de Manuel Alegre no debate de ontem com Cavaco Silva, repare-se:

«...Eu dirijo-me ao povo da esquerda e a todos os outros democratas, àqueles que se reclamam da doutrina social da igreja e querem uma sociedade mais justa e solidária. É preciso resistir...»

Se Alegre fosse eleito, pergunto-me o que seria do povo de direita, incluindo o povo de direita que se reclama da doutrina social da igreja.

Ideia colhida daqui. Vídeo do debate aqui.

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domingo, novembro 29, 2009

Um dia será


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A propósito destas jogadas do costume, ainda tenho esperança de que um dia o meu país se torne num lugar de pensamento saudável e descomprometido, onde cada "pum" do Manuel Alegre ou espirro de uma qualquer outra eminente personalidade da esquerda não se transformem em ladainha doutrinária, em canga a impor à pachorrência nacional. Um dia será. Acho.
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sexta-feira, outubro 24, 2008

Boaventura impõe que se imponha


Sonhos de Verão em amanhãs que não há meio de começarem a cantar
Foto "picada" do Insurgente.

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“…A transformação não virá da UE ou dos EUA. Terá de lhes ser imposta pela vontade dos cidadãos dos países que mais sofreram com os desmandos recentes do capitalismo de casino…”

Em tempos favoráveis a que venha, de novo, ao de cima o mau convívio que certa esquerda tem com o pluralismo e liberdade, surgem pérolas destas. Não são novidade, mas dão sempre para recordar o que esta gente faria se mandasse. Para impor. Para que nos portemos todos como deve ser. Para que se mantenham imaculados os seus próprios conceitos ou não se desvirtue o reflexo da extraordinária imagem que têm de si próprios. De tal maneira que as coisas (como esta tirada de Boaventura de Sousa Santos na Visão de ontem e que respiguei via 25 centímetros de neve em a vontade dos idiotas) acabam por fluir naturalmente, tornam-se triviais. Tanto a eles que as dizem como a nós que as ouvimos.


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terça-feira, julho 29, 2008

Ajustar as tarefas


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"...Foi um convite muito gentil, muito agradável, puderam ajustar as minhas tarefas e portanto, uma vez que terminaram os plenários e está a abrandar o trabalho na Assembleia da República, foi possível reservar uma tarde para fazer esta incursão num mundo diferente..."

(a propósito do vídeo de Maria de Belém Roseira no post anterior)

Nada como ter alguém que nos ajuste as tarefas...

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sexta-feira, outubro 19, 2007

Uma pestana no olho



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"...Mas antes de prosseguir, deixe-me fazer-lhe uma advertência. Não se iluda, ilustre concidadão, pensando que o MPLA por solidariedade ou por consideração à sua leal e desinteressada prestação de serviços à revolução o venha a coonestar dos estigmas de que se queixa. Lembre-se das personagens de George Orwell (autor de 1984)..."

"...Reconheço que os seus livros são admirados pela beleza e pela “transcendência espiritual” das estórias que conta. Porém, preferia vê-lo doutra forma. Não como um escriba sentado e submisso que sempre cortejou o príncipe e a sua corte; que sempre se acomodou aos servilismos culturais do MPLA e aos fetichismos do seu regime político; ou que sempre se calou diante das monstruosidades criminais e totalitárias do Estado, e sempre fingiu ignorar os abusos contra o pensamento e a liberdade de expressão..."

"...Com efeito, esperam-se mais explicações, especialmente sobre a tal Comissão em que V. trabalhou. Para as pessoas menos avisadas (ou desinformadas) fica a impressão que os membros dessa Comissão, do princípio ao fim, se pautaram por um espírito de equanimidade. No entanto, não foi essa a percepção nem a experiência que colhi quando V. e outros (entre os quais ministros e altos responsáveis do MPLA) me “interrogaram” na tarde do dia 4 de Junho de 1977. O que ali se passou (recorda-se?) foi tudo menos uma investigação ditada pelo rigor e pela observância de normas jurídicas, e menos ainda pelo respeito a regras de humanidade, e sim uma longa e delirante sessão de tortura psicológica, temperada por gritos de achincalhamento, por ameaças físicas e todo o tipo de bestialidades. No tempo em que durou aquele inferno inquisitorial tive por vezes a sensação de estar na antecâmara da morte..."

Excertos de uma Carta Aberta do historiador angolano Carlos Pacheco dirigida ao escritor angolano Artur Pestana – Pepetela e publicada no Público em 2005.

Esta carta passou-me ao lado, na altura, talvez porque criei uma certa defesa relativamente à emergência dos cantores das acácias rubras, magias africanas, odores e sabores tropicais, sorrisos de meninos e noites do Cruzeiro do Sul, mangas maduras e fogueiras de “sekulos” durante o período louco e volátil do pós 25 de Abril. Sobretudo porque conheço alguns intelectuais, escritores, pintores, escultores, pensadores que brotaram na geração espontânea de intelectuais africanos com raízes em Freixo de Espada à Cinta ou A-dos-Cunhados. E criei a couraça porque convivi de perto com eles, senti-lhes o cheiro e ouvi-lhes o verbo e li-lhes o pensamento. E, frequentemente, fiquei aterrado com o cenário.

A edição do livro de Dalila Mateus e Alves Mateus trouxe agora a terreiro o extermínio sumário de milhares de pessoas em Angola, em 1977. A mim, verdadeiramente o que me pasma é o pasmo de hoje de pessoas que não se pasmaram ontem e que inclusivamente, estremeciam de emoção pela nobreza das causas. No caso de Angola, por exemplo, poucas pessoas se lembrarão já que as vítimas dos massacres nasceram da ou na esfera soviética e eram convictos revolucionários. Mas eram mulatos. Ou brancos. Ou pretos cúmplices. E para muitos brancos ou mulatos, a única escapatória na altura era serem pretos. Nem que fosse só por um bocadinho até se tornarem figuras convenientes ao establishment, para exportação de imagem.


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quarta-feira, outubro 03, 2007

A nova esquerda imaculada



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Não é o calor dos trópicos, muito menos umas lagostas bem abertas que iriam embotar a clarividência do Rodrigo Adão da Fonseca. A prová-lo, este excelente post que descobri via Insurgente:




"Parte da esquerda tem como bandeira o combate à política imperialista de Bush e dos neoconservadores”, sem saber minimamente o que isso significa e sem conhecer o fenómeno político norte-americano. Afiança, dotada de uma certeza científica (que ainda assim dispensa em favor de um sistema comunicacional baseado no medo e na crença), que o mundo está a aquecer, e que nos EUA existe, ao lado de uma enorme riqueza, concentrada numa minoria, um vasto Terceiro Mundo, sem perceber que com isso insultam as populações que em boa parte do planeta vivem efectivamente na pobreza e na miséria. É sempre contra Israel e a favor da Palestina, sem conseguir explicar porquê. Cauciona todas as fórmulas folclóricas de combate à fome em África, de solidariedade promoviatlantico_das por ONG’s, pró-esmola, e de manifestações cívico-musicais, ajudam a acalmar as consciências e a aliviar a alma (e permitem papão das multinacionais). Recusa porém as soluções que facto ajudar o continente negro, como a diminuição das barreiras alfandegárias e a implementação de regras mais justas no comércio por fazerem perigar o Modelo Social Europeu. Quer acabar com os “Muros da Vergonha” em Ceuta e Melilla, mas perde fôlego quando se pede o fim dos grandes Muros, entre outros, as barreiras alfandegárias e os subsídios à agricultura na União Europeia. Tem a expressão “fascista” debaixo da língua sempre pronta para arremessar a quem não acompanhe os seus desvarios, mas fala com ternura e voz tremida das epopeias latino-americanas, da Sierra Maestra e das histórias mirabolantes de Che Guevara e seus apóstolos, de Fidel Castro, de Hugo Chávez y sus muchachos.


(…)


O socialismo real morreu, mas o Fim da História ainda não foi escrito: é longo o caminho das liberdades e penosa e lenta a construção das Sociedades Abertas. Há ainda muitos Muros por cair: as novas esquerdas, imaculadas, aparentemente menos nocivas nos seus discursos vazios e inconsequentes, miraculosamente virginais, sem as manchas do século XX, estão aí, emancipadas, livres de constrangimentos, com os seus “amanhãs que cantam” bem calibrados e, como sempre, dispostas a distribuir o ópio do costume ao povo."


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