quinta-feira, junho 03, 2010

Rosa Coutinho


Segundo, da esquerda para a direita

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Morreu Rosa Coutinho. A coisa quase passou despercebida mas não o suficiente para que não surgissem os idiotas de serviço que, entre outras coisas, acham que quem não gostava de Rosa Coutinho era ou um colonialista acabado ou uma mente cinzenta escura onde os raios do sol das manhãs que se fartavam de cantar não conseguiam penetrar. Idiotas que, muito provavelmente, não conheciam Rosa Coutinho, muito menos conheciam África e cuja formação política eventualmente se resume ao invejável currículo de terem sido presos pela Pide, pelo menos uma vez.

Rosa Coutinho foi um esbirro dos sovietes e, contrariamente a opiniões que já ouvi por aí entre ontem e hoje, não morreu fiel aos seus princípios. Pelo contrário, a etapa final da sua vida tem nada a ver com os ideais (!!!!) do comunismo e do internacionalismo proletário que eram, à altura da descolonização exemplar, as imagens de marca de um almirante mentiroso e indigno da honra exigida ao posto que ocupava nas Forças Armadas. O que era bem patente nas atitudes e oratória usadas enquanto esteve em Angola como primeiro representante do Governo Português. E não teve nada a ver porque ficou rico, por mor de uma actividade empresarial mais própria de um «swine capitalist» do que por uma alma socialista prestes a debutar numa qualquer emulação da época e do estilo.

Rosa Coutinho foi causa directa da desgraça de muita gente. Muita gente que acabou por se portar bem melhor do que ele, como pessoas, como chefes de família e como resistentes a uma situação que ele ajudou a criar, conscientemente. Pessoas que cruzaram o mundo, protegendo a família e reorientando o futuro, por força da loucura e imoralidade dos Rosas Coutinhos a que o destino de centenas de milhares de portugueses foi inexorável e cruelmente entregue. E que percebiam tanto de colonialismo como de botar meias solas.

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quarta-feira, abril 29, 2009

Ainda a tempo


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Por só agora ter reparado neste comentário do leitor Francisco Costa num post já com alguns dias, achei melhor responder em post.

Como seria bom, prezado Francisco Costa, que todos os que "estavam em Portugal" percebessem que nem todos "os que não estavam em Portugal" eram propriamente indigentes da realidade política. E era tempo que aqueles que lêem ou ouvem dizer que a descolonização foi vergonhosa e trágica percebessem que quem o diz não advogava necessariamente a perpetuação de um regime que toda a gente percebia condenado e que sabia que a descolonização poderia e deveria ter sido feita por Salazar já nos anos sessenta. É uma questão de ler com mais atenção o que se escreve. E não confundir as coisas.

Finalmente, vergonha por vergonha e descaramento por descaramento, é precisamente achar que quem estava fora de Portugal analisou a descolonização pelo impacto que ela teve nas suas vidas. É uma maneira de chamar estúpido às pessoas e confirmar a ideia de que essa gente, os que estavam fora, acabou por ser um grupo de empecilhos ao bom andamento "dos trabalhos".

É pena! Mas define bem a mentalidade estreita de muitos que nunca passaram da Trafaria e que se arvora em profundo conhecedor da realidade política e social das coisas do mundo.

E sim. A descolonização foi uma vergonha. Não na óptica dos que estavam fora mas na óptica de toda a gente que se der ao trabalho de se ilustrar melhor sobre tudo o que realmente aconteceu.
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quinta-feira, abril 17, 2008

Eu vi


Melo Antunes, Rosa Coutinho, Agostinho Neto, Costa Gomes, Holden Roberto, Jonas Savimbi, Mário Soares e Almeida Santos - Alvor, 1975

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Relativamente ao recente artigo de António Barreto no Público e a uma carta que Ferreira Fernandes afirma ser falsa, é preciso dizer que em toda a propaganda se mente. Muito mais se mente, porém, em contra propaganda. Daí que o conteúdo da alegada carta de Rosa Coutinho a Agostinho Neto me pareça demasiado estranho. Mas não me repugna. A ser falsa, como parece ser, tanto um poderia tê-la escrito, como o outro poderia tê-la executado.

Quanto ás reacções que surgiram por aí, quer em forma de posts quer de comentários (alguns deles perfeitamente idiotas…) pedia-se, no mínimo, algum recato e pudor em memória daqueles que morreram por via das loucuras do almirante, à altura do seu consulado em Luanda como alto-comissário. E, no que me diz respeito, para isso não preciso de cartas. Pela simples razão que eu vi. Daí que posts como o do Helder no Insurgente me parecem pecar apenas por defeito.
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