terça-feira, dezembro 15, 2009

A mão por baixo


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Não sou menino nem borracho mas há um grupo de gente preocupada em pôr-me a mão por baixo. Ele é o trânsito, ele é o consumo excessivo de energia, ele é a alimentação impregnada de nitratos, cloretos, sulfatos e outros desideratos, ele é as calorias, a nicotina, a roupa sintética, a poluição, a reciclagem, os pilhões, a incineração, o número de horas de televisão para as criancinhas (independentemente das horas e horas seguida de TV estupidificante ministrada aos adultos), a sexualidade (incluindo a idade em que as criancinhas devem começar a masturbar-se), o racismo, a consciência multicultural, o azar que os americanos e os italianos tiveram em apanhar com o Bush e o Berlusconi e o Blair, enfim, escapa, apesar da cena do Iraque, ele é os pepinos que devem ser direitos, as laranjas que não podem ter cochonilhas, os morangos que têm de ser do mesmo tamanho, ele é o comércio tradicional que deve ser frequentado para não engordarmos mais os malfeitores do capitalismo como o Belmiro, o Jerónimo e correlativos e outros a quem, entretanto, se continua a passar licenças para os maiores centros comerciais da Europa, ele é o frio… o frio… aqui chegado, confesso que me cansa já que me digam que o frio… faz frio, que o frio é muito frio e que temos de ter muitos cuidados com o frio e para isso é que se fizeram os alertas amarelos da Autoridade Nacional de Protecção Civil que eu não sei bem o que é mas serve para dar cor aos «alertas» e recomendar-nos o uso de várias camadas de roupa e cuidados com a condução por causa do gelo porque a água congela a 0 graus e, como se sabe, as temperaturas em Portugal para hoje variam entre os 5 positivos e os 6 negativos. Assim sendo, não fosse não repararmos, somos bombardeados com estes avisos de alerta amarelo, explicações científicas sobre o frio. Para não falar mesmo nos directos com o português típico que está misteriosamente sempre na rua de cada vez que há directos para as televisões e que, entaramelado e trágico como o destino que ele acha que Deus lhe deu, diz para a reportagem que está muito frio. Não fosse não termos reparado. Houve um mesmo que disse, “…então a menina veja que eu costumo pôr o irradiador a 20 graus e hoje cheguei a casa e estava só a 18…”. Independentemente da hermenêutica, ficámos a perceber que até o «irradiador» do senhor sofre com o frio.

Isto, do frio, nos intervalos das notícias sobre o aquecimento global, está bem de ver, ainda há pouco um cientista cujo nome não fixei, afirmou, preto no branco e com ar de quem esteve cinco horas seguidas a estudar as franjas do anticiclone centrado no Golfo da Biscaia depois de ter lido um trabalho sobre a inevitável extinção do urso polar, que a temperatura em Portugal, segundo estudos (????) subiu 0,7 graus C durante o século XX. Ele não explicou que estudos foram esses mas como ninguém lhe vai perguntar, fica assim decretado que o país está a aquecer. Isto porque a linguagem científica o confirma, disse o cientista e eu faço mmuuuuu e acredito.

Mas já me estou a desviar do frio e o melhor mesmo é ficar por aqui. Bom trabalho para todos, janelinhas bem calafetadas, cuidado com as correntes de ar e «correspondências», mudanças de temperatura. Sobretudo, se tiverem febre, cuidado com o paracetamol, pois passar dos 39 de febre para os normais 36,5 é uma mudança brusca de temperatura que pode provocar coriza e tumefacção dos pólipos nasais (escrevi polipos, mas o corrector aplicou-lhe o acento, és capaz mesmo de ter razão, Papoila…).

Adenda:
Acabou de me telefonar um colega muito dado a esta coisa das agriculturas biológicas, normalizadas, bacteriologicamente puras e morfologicamente estéticas (é um esteta este homem…) dizendo que, afinal os pepinos já podem ser tortos. A UE já autoriza. Eu já tinha ouvido qualquer coisa, mas não estava certo. Mas antes assim, que os pepinos querem-se com identidade própria, porque se há coisa mais entediante e carecida de estímulo é a humanidade a comer pepinos iguais, por muito direitos que estejam
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quinta-feira, janeiro 15, 2009

Tá de chuva


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O dia abriu fechado (!!). Quantidades maciças de nuvens carregadas de água pronta para nos entupir os bueiros e os rés de chão dos snacks de marca desta Lisboa de Invernos viscosos. O dia abriu fechado do sol que me tem aquecido a marginal nestes últimos dias, apesar do frio.

Surpreendentemente ouvi um aviso breve de que estamos em alerta laranja. Os mentores nacionais do nosso bem-estar, e contrariamente ao habitual, hoje não me avisaram que deveria levar várias camadas de roupa e, sobretudo, um guarda-chuva. Esta de não me avisarem para levar o guarda-chuva é imperdoável, porque se há coisa de que a gente não se lembra de levar quando está a chover é o guarda chuva. Também contrariamente ao que é habitual, ninguém me tem estado a avisar para conduzir com redobrada prudência e ligar os médios. Resumindo. À boa maneira portuguesa, a pica vai sendo paulatinamente substituída pela abúlica rotina das coisas gastas e as coisas já não são o que eram. Depois admiram-se que as gentes apanhem gripes e outros resfriados avulsos e acabem nas urgências dos hospitais durante seis horas para nos receitarem um curso de paracetamol 500 mg de oito em oito horas, Cê-gripe (que é uma coisa que tem aparecido muito na televisão ultimamente), um vasoconstritor nasal para aplicação em SOS e um antitússico à razão de uma colher de chá de seis em seis horas.

Daí que me tenha precavido. Para além dos preparos inerentes, vou levar uns sapatinhos (ões) mais grossos e mais altos para não me entrar água para os pezinhos. E vou meter-me à marginal, como de costume depois de ter elaborado um tema de reflexão (talvez a distribuição de preservativos que o Bloco ou o PCP, já não me lembro bem, achou como desígnio nacional retomar em discussão). Vou mais só e desamparado, sentindo a falta dos conselhos dos mentores nacionais. É o vazio que se abre num dia fechado.

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quarta-feira, dezembro 26, 2007

O equinócio das rotinas



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Todos os anos é a mesma coisa. Ainda o frio não se instalou convenientemente e os dias já começam a ser maiores. Alegra-se a alma lusa do solinho e do quentinho, fenece o entusiasmo daqueles que, por razões não perceptíveis à fauna do calor, continuam a gostar do conforto frio dos invernos que exigem roupa macia, abafada e bonita, aquecimento em casa e no carro e os neurónios mais activos.
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quinta-feira, outubro 18, 2007

A crista



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Deus deu-nos uma "crista". Não fôssemos sair uns pintos desprotegidos na capoeira europeia dos ventos, frios, chuvas e geadas com que a Europa é fustigada em regime quase permanente. E nisso, o Criador não transige. Não se dá ao luxo de que algures, num canto da Europa, um povo que nasceu intrépido, arrostando com as tempestades do Bojador e da Boa Esperança se tenha tornado num case study de hipersensibilidade às “correntes de ar”. Daí que, magnânimo mas, também, cauteloso, Deus nos tenha rodeado de uma “crista”. A chamada crista de altas pressões que é assim uma espécie de buffer zone das nuvens malvadas, traiçoeiras e carregadas de malfeitorias meteorológicas que vão avançando pela Europa. Basta olhar para uma carta meteorológica para percebermos que enquanto os desgraçadinhos para lá de Tuy, Badajoz e Huelva tiveram de se habituar a conviver com a borrasca, nós vamos por Outubros e Novembros dentro, protegidos pela tal “crista”.

Deus, na Sua omnisciência e pia consciência, protege-nos e mantém-nos neste forninho dos 26 e 27 graus que põe a diáspora a chorar rios de desespero e saudade, sobretudo aqueles que têm de suportar estoicamente as agruras das várias capitais europeias, que eu nem sei como é que resistem, e nos mantém a nós, indígenas, de colarinho desapertado todo o dia. Quando muito, baixa-nos a temperatura, por uma questão de divina decência em relação ao resto do mundo, ali para os 16 ou 18 graus, lá pela noitinha. Nada que um casaquinho de malha e umas meias de lã não resolvam. No resto, é uma questão de cuidado para não sermos acometidos por ideias estúpidas, como ligarmos os aparelhos de ar condicionado e, convenientemente não nos pormos para aí feitos maluquinhos a abrir janelas. Para não sermos surpreendidos pela “correspondência”*. E, já agora, pelos ácaros. Os ácaros assassinos que pululam aí por milhares de aparelhos de ar condicionado que os restaurantes compram porque vão muito bem com a montra dos peixes, mas que não ligam pelas razões já citadas.

* Termo alfacinha que aprendi com o meu avô quando, protegido por um conveniente casaquinho de lã, me sentava sobre os joelhos roídos pelo reumático e me explicava os perigos da correspondência que é o efeito de uma massa de ar que se desloca dentro de uma sala quando se abrem duas janelas de paredes opostas. Claro que o ar científico desta nota é da minha lavra. O meu avô limitava-se a dizer que não se devia abrir uma janela, quanto mais duas, e fim de papo. Que, no meu tempo, as formigas precisavam de algum tempo para ter catarro. O “resto” deduzi eu, portento de criança, que já sabia ler aos 5 anos e tinha uma notória e precoce capacidade para perceber a alma lusitana.

P.S. Este post é o resultado de eu acabar de ouvir e ver uma apresentadora de televisão, com ar de menino a quem deram uma "play station", de que para hoje vamos continuar com temperaturas acima dos 25º e (aqui a cara dela rasgou-se num sorriso orgás... isso,) as temperatutas amenas (!!!) vão continuar para os próximos dias.
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