segunda-feira, janeiro 09, 2012

Proibido proibir que se proíba. Ou os paladinos das boas práticas

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Poucas vezes terei ouvido tanto dislate, em quantidade e qualidade como no fórum da TSF de hoje, a propósito da nova legislação sobre a proibição de fumar em lugares públicos. Primeiro foi Francisco George perorando imenso sobre os malefícios que o fumador inflige ao não fumador. Seguiu-se um cortejo de «opiniões» nas quais os portugueses demonstram bem com estão formatados para a mentalidade de fiscal de licença de isqueiros. O português é doutorado em boas práticas (o termo boas práticas, juntamente com o «é assim», «desde logo», «proactivo», «alavancar» e «paradigma», deve ser o mais irritante dos termos adoptados pelo politicamente correcto em uso na paróquia) e a excelência do seu habitat mental consubstancia-se na prerrogativa de poder proibir o que lhe der na gana, sob a premissa de que o pensamento e a sua acção são os pressupostos para uma sociedade asséptica e consentânea com as práticas que ele decidiu considerar de boas.

Ouvi de tudo. Desde proibir que se fume em casa, até proibir que se fume no nosso próprio carro, passando pela imposição imediata de um adicional de 15% na taxa de IRS ao fumador, para que o estado disponha de fundos para o tratar do cancro de pulmão que aí vem, ouvi de tudo. Proibir até que se fume num raio de cinquenta metros da entrada de qualquer restaurante. E quando o jornalista disse que nos USA já é proibido fumar nas praias e nos jardins públicos, a grei exultou, esqueceu-se das maldades dos ianques no Iraque, no Afeganistão e em Guantanamo e achou, por uma vez, que os americanos, afinal, são uns tipos do baril.

Desoladora esta sensação de idiotia patológica que parece assolar esta nação boa praticante, de pensamento correcto e carácter impoluto. Não ouvi nada de semelhante quando se falava da necessidade imediata de se proceder à distribuição gratuita de drogas e seringas nas prisões. Ninguém se lembrou do drogado passivo. Tantas, mas tantas vezes, sujeito a malefícios bem mais gravosos que umas baforadas de nicotina. Mas isso era outra prática. Difícil e penosa, mas boa. Uma prática boa.
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terça-feira, janeiro 22, 2008

Não fumar é bom


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Para quem, como eu, achava que o Dr. Sá Fernandes era o "empata-fórmulas" de serviço à Câmara Municipal de Lisboa, tenho de admitir que a sua prestação foi muito boa ontem, no Prós e Contras. Com o trabalho de casa bem feito e com uma objectividade assinalável deu um autêntico banho ao Chefe da brigada dos vigilantes pela saúde portuguesa, o Dr. George, da DGS.

Tenho assistido com algum distanciamento esta polémica da lei do tabaco. Fui fumador durante muitos anos, compulsivo e engolidor e parei de fumar há pouco mais de dois anos. E deixar de fumar é bom. Já alguém mais disse isto na Blogo e eu não me recordo quem foi, pelo que não linco. Mas, repito. Não fumar é bom. Só um fumador pode avaliar isso mesmo porque redescobre uma panóplia de prazeres que lhe estavam vedados, desde o exercício físico até ao simples acto de comer com os ingredientes todos, ou seja, o olfacto e o paladar. A isso junta-se uma notável melhoria em respirar, Afinal, coisas tão simples como resistência física, comer e respirar, imagine-se. Penso, pois, que se se parasse com a formula idiota de se fazer dos fumadores párias, delinquentes e irresponsáveis se enveredasse, ao invés, por se mostrar as virtudes em não se fumar, aproveitando inclusivamente os depoimentos de fumadores, talvez se deixasse de fumar mais depressa. Assim, da forma como a questão está a ser conduzida, de cada vez que oiço estes fiscais gerindo o que devo e não devo fazer da minha vida, em nome das suas “saudáveis” convicções, fico com uma vontade quase incontrolável de puxar por um cigarro.

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