
[1880]
O mau sinal é quando a sexta-feira começa a dar sinais inequívocos de excitação, por oposição aos tempos em que ser sexta-feira, domingo ou quarta-feira era rigorosamente indiferente, perante o ritmo acelerado de vida que sempre tive. Talvez porque viajasse muito, que é uma coisa em que os dias da semana são irrelevantes, talvez porque não houvesse em mim uma divisão clara entre o ócio e o trabalho. No fundo, tudo se interligava. Muitas vezes o ócio resultava em acções decisivas e trabalho, muitas vezes períodos de trabalho intenso eram entremeados com “breaks” de repouso ou com uma forte componente lúdica.
As coisas estão a tornar-se diferentes e isso preocupa-me. Sinto estar a cair numa excessiva rotina, em que as segundas e as sextas-feiras têm um papel muito próprio na demarcação de humores, o mau das segundas e o bom das sextas, sinal de que a rotina está lá. Sinal de que, muito provavelmente, aquela entrega ao trabalho imune ao tempo e à privacidade está a cristalizar num sistema em que os fins-de-semana são cada mais importantes, por muito estúpidos que possam vir a revelar-se.
Talvez seja eu, talvez seja o resultado de uma vida demasiadamente estereotipada em assustadoras rotinas, pelo menos para mim que sempre fui um homem de permanente acção e de descoberta. Mas não há-se ser nada. Se calhar é só impressão minha. Se calhar estou a questionar demasiado as coisas. Se calhar é óptimo chegar à sexta e pensar que logo já é fim-de-semana. Mesmo que o fim-de-semana se mantenha na linha desinteressante e anódina da maioria dos fins-de-semana.
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